A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, maio 27, 2003

Matrix Reloaded

No último post, chamei a atenção para o quanto é perigosa a ciência sem filosofia, e dei o exemplo da interpretação de Schrodinger da experiência do gato. Mas o que vemos aqui é muito pior. Comprovem vocês mesmos, lendo esses trechos da revista Superinteressante :

" ... para Johnston e muitos outros psicobiólogos, a nossa consciência é uma espécie de realidade virtual. "Ela evoluiu para impor uma interpretação específica das energias e matérias que estão à nossa volta", diz Johnston. Nada no Universo é, por exemplo, vermelho ou verde em si mesmo. O que existem são ondas eletromagnéticas de determinadas freqüências que são captadas pelos nossos olhos e interpretadas de modo a facilitar a identificação. Assim, objetos que emitem determinadas ondas são chamados de vermelhos e outros, com ondas quase nada menores, são chamados de verdes, apenas para facilitar a identificação. Ao longo do tempo, a evolução permitiu adaptarmos nossas emoções ao que é benéfico para nós. Assim, as substâncias emitidas por comidas podres são fedorentas e com isso as evitamos mesmo sem conhecer as bactérias que as contaminam. Da mesma forma, a perda de um companheiro é triste, o açúcar (que fornece energia) é gostoso e o sexo (que perpetua a espécie) é prazeroso. "Não existem cores, cheiros, gostos ou emoções sem um cérebro consciente. O mundo da nossa consciência é uma grande ilusão", afirma Johnston.

"O filme lida com temas comuns a quase toda a história da filosofia. Ele não especifica uma teoria ou uma concepção filosófica, apenas brinca com a diferença entre o inteligível e o que a gente vê", afirma o filósofo Verlaine Freitas, da Universidade Federal de Ouro Preto, que pesquisou as implicações teóricas do filme.

René Descartes, pensador francês do século 18, escreveu: "Quando penso sobre meus sonhos claramente, vejo que nunca existem sinais certos pelos quais estar acordado pode se distinguir de estar dormindo. O resultado é que fico tonto e esse sentimento só reforça a idéia de que eu posso estar sonhando". Ele imaginou a possibilidade de um terrível demônio estar constantemente lhe dando a ilusão de que todas as suas certezas são corretas, quando na verdade elas não fariam qualquer sentido. Mesmo em coisas simples como calcular 2 mais 2, o demônio forneceria sempre os mesmos resultados errados, o que daria a impressão de que eles estão sempre certos. [...] A questão de se esse demônio existe ou não continua de pé até hoje e é quase igual a outra questão: como garantir que não vivemos na Matrix ? Por enquanto, a resposta é, simplesmente, que não há resposta.

Construir uma consciência artificial teria implicações muito maiores do que uma série de agentes Smith circulando por aí. Talvez isso seja a própria prova de que a nossa realidade seja de fato uma simulação por computador. Quem garante é o filósofo Nick Bostrom, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que trabalhou com a possibilidade de um dia criarmos programas de computador que tenham consciência. Em um artigo publicado no mês passado na revista britânica Philosophical Quarterly, ele calcula que existam apenas três possibilidades para o futuro da humanidade. A primeira é que nós seremos extintos antes de construir esses programas, por azar ou porque eles são simplesmente impossíveis de serem feitos. A segunda é que, mesmo que nós possamos fazê-los, não haverá interesse da humanidade em inventá-los, talvez por problemas éticos. A terceira, mais perturbadora, é que nós um dia inventaremos essas consciências simuladas e universos virtuais inteiros para que elas tenham onde viver. Nesses casos, as chances de alguém ter feito isso antes são muito grandes, e nós talvez fôssemos uma dessas simulações. "Seríamos como na Matrix, com a única diferença de não termos um corpo em outra realidade. O cérebro também seria simulado", diz Bostrom. Tudo bem, sempre resta a esperança de que nós fôssemos o grupo que criou todas as consciências virtuais, o que ele chama de "história original", mas isso seria muito improvável. Para Bostrom, existiriam tantas simulações que precisaríamos de muita sorte para estarmos justamente no único Universo que é real. "As platéias para quem eu apresentei essa teoria ficaram intrigadas, mas por enquanto ninguém achou uma falha no meu argumento", diz Bostrom. A questão agora é descobrir qual das três propostas é a mais provável - o palpite dele é que seja a segunda, e que as chances de que habitemos um mundo virtual estejam em torno de 25%

"Baudrillard prefere trabalhar com a ironia e com os paradoxos a procurar um mundo mais verdadeiro", diz Juremir Machado da Silva, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, tradutor de muitas das obras do autor. O próprio universo de Matrix, com suas cenas, efeitos e histórias envolventes, é capaz de nos transportar para um outro mundo que não vivemos e fazer com que nós fiquemos alegres, ansiosos e emocionados com acontecimentos que não fazem parte da nossa vida. Se os autores quiserem continuar nessa linha, é possível que, depois de tantas lutas e reviravoltas, Morpheus, Neo e os demais rebeldes percebam que a realidade que tanto lutaram para libertar não é muito mais real do que a que viviam na Matrix.

O físico John Archibald Wheeler, criador do termo buraco negro, pesquisou idéias como essas ao longo dos anos 80 e concluiu que, em um nível ainda mais básico do que quarks, múons e as menores partículas que conhecemos, a matéria era composta de bits. "Cada partícula, cada campo de força e até mesmo o espaço-tempo derivam suas funções, seu sentido e sua existência de escolhas binárias, de bits. O que chamamos de realidade surge em última análise de questões como sim/não ", afirmou Wheeler em uma palestra feita em 1989. É como se, em um determinado nível, a matéria se tornasse tão pequena que tudo o que sobra é a informação. "

Agora, para voltarem a entender o mundo como ele é, leiam isto, isto e depois isto.