A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, junho 17, 2003

O meu amigo Lucas elogiou tanto esse texto que resolvi postá-lo aqui. Talvez publique semanalmente neste blog textos antigos da minha página A Barbárie dos Tempos Modernos, que continua sendo atualizada quase diariamente. Peço desculpas aos meus velhos leitores da Barbárie. Não se preocupem, talvez este seja mesmo o único.

A Simbologia de O Senhor dos Anéis

Poucos filmes são tão saturados de simbologia quanto O Senhor dos Anéis. Vou comentar aquelas que puder lembrar, tentando seguir a ordem do enredo do filme.

Após a batalha inicial contra Sauron, o anel vai parar na mão de um homem, que tem então a chance de destruí-lo e acabar com a história de uma vez por todas. Mas aí não haveria o filme. Ele não o destrói, sucumbindo à tentação do poder do anel. É esse episódio que serve de marco para toda a trama da película. Essa cena representa o pecado original, em que Adão e Eva não resistem à tentação da serpente, dando origem ao drama da existência humana. Sem isso, também o homem não seria o que é hoje e nossa história seria outra. Assim como a culpa do pecado original recai sobre todos os homens, também as personagens do filme têm que pagar pela fraqueza do homem que não resistiu ao poder do anel.

O anel é confiado a Frodo, um hobbit que tem a missão de conduzi-lo até o local onde deve ser destruído. Mas para isso terá que enfrentar vários desafios, contando sempre com a ajuda de alguns amigos. A tarefa destinada a essa personagem equivale à dos profetas, como Moisés, por exemplo, que teve que enfrentar o Faraó para libertar o povo de Israel.

Talvez a simbologia mais importante de todo o filme seja o próprio anel. Ele representa o poder do mal, com o qual se pode resolver facilmente tudo, mas que só leva à destruição. Todas às vezes em que Frodo se encontra em dificuldades é tentado a usar o anel, mas sempre o evita, porque sabe que quanto mais próximo do seu poder mais fraco ele fica, podendo ser dominado por ele. A grande lição que temos que aprender com isso é a seguinte : você tem que seguir seu caminho e cumprir sua missão; não há soluções fáceis, tudo exige esforço pessoal e dedicação. Sempre que algum artifício lhe parecer útil para que você pegue um atalho e não tenha que sofrer para continuar em sua caminhada, esse artifício representará o poder do anel, ao qual você pode sucumbir ou não. Quando Baromir (um dos homens que acompanhava Frodo) tenta roubar o anel dele, alega que é para salvar seu povo. E realmente era. Mas não é esse o caminho correto para a salvação. Seu povo precisa sofrer, chorar, crescer e aprender para se salvar. Através do anel a solução seria fácil, sem sofrimento, só que essa solução não existe, por isso quando se tenta utilizá-la, isso sempre acaba provocando destruição e terror. Aqui o paralelo que se faz é com aqueles que detêm o poder político. A tentação de usar o artifício do anel entre eles é maior ainda, pois já detêm o poder, só falta usá-lo da maneira errada, como queria Baromir. Todos os regimes totalitários (nazismo, fascismo e comunismo) foram decorrentes da fraqueza de homens que cederam à tentação de usar o poder do anel, sendo que o comunismo se assemelha bastante à cena do filme, pois todos os líderes comunistas (Lênin, Stálin, Pol Pot, Mao Tsé Tung, Fidel, etc.) sempre alegaram que estavam apenas tentando salvar o seu povo.

A morte de Baromir representa a necessidade de renascimento de todo aquele que se entrega ao mal. Ele morre porque precisa renascer ! Isso significa que sempre que descobrirmos que nos rendemos ao mal não devemos tentar apenas esquecer disso e seguir adiante, mas sim enfrentar a situação , e isso implica destruir o mal dentro de nós, morrendo (o que significa : sofrendo) para ele e renascendo para o bem.

A primeira parte termina com Frodo pensativo ao visualizar seu futuro e a carga de dor embutida nele. Isso lembra o momento em que Jesus chora sangue ao lembrar do sofrimento pelo qual vai passar na cruz. Tudo isso serve para nos lembrar que é normal que titubeemos um pouco ao vislumbrarmos os esforços que teremos que fazer para vencermos na vida, mas que a grandeza está justamente em nos decidirmos em continuar e nunca esmorecer nem ceder à tentação das soluções fáceis e dos falsos atalhos.
A segunda parte contém 3 grandes simbologias. A primeira é a de Gandalf, o mago do bem. Começarei descrevendo a cena. Ele, juntamente com Frodo e seus aliados, enfrenta um bicho com formato de dragão. Na superfície de uma ponte, após todos já a terem atravessado, Gandalf derruba o monstro no abismo e respira aliviado. Mas, ainda caindo, o bicho joga a cauda e puxa o mago pela perna, levando-o com ele. A luta prossegue até que Gandalf, na escuridão do abismo, derrota-o definitivamente. Depois disso, ele reaparece e luta contra Saruman, o mago do mal, que controlava o corpo do rei de Horan, e vence-o . Na primeira parte ele já havia lutado contra Saruman, mas não conseguiu vencê-lo, só agora consegue. A simbologia é a seguinte : O dragão representa o mal que ainda havia dentro de Gandalf. Quando ele, na superfície da ponte, derrota-o, a derrota é falsa, pois ninguém vence o mal lutando com ele na superfície. Essa luta serve apenas de fachada, para que mostremos para os outros que estamos agindo bem, mas na verdade não estamos; dentro de nós sabemos que não. É por isso que nessa hora tem muita gente olhando a luta. Mas somente quando Gandalf desce até as trevas é que ocorre a verdadeira luta, a luta solitária, em que está apenas você e o mal, e mais ninguém. É aí que é preciso vencê-lo, pois é a única forma de eliminá-lo. Somente depois de descer até as trevas é que se pode enxergar a luz. É assim que Gandalf adquire força suficiente para derrotar Saruman ( sem mais nenhum mal dentro dele ). Assim ele se torna o mago branco (puro), pois antes era conhecido como o mago cinzento (a parte escura do cinzento simboliza o resto do mal que ainda havia nele).

A outra simbologia importante é a de Gollum, um ser de aparência esquisita, que está o tempo todo se digladiando consigo mesmo, sem saber se segue o caminho do bem ou do mal. É interessante notar a parte em que Frodo é obrigado a entregá-lo a uma tribo de homens para que eles não o matem. Depois disso, ele passa a tender ao mal novamente, pois apesar de saber que Frodo quer seu bem, não entende por que ele o entregou. Isso representa os momentos em que coisas ruins nos acontecem e, ao invés de aumentarmos nossa fé em Deus, afastamo-nos dele por não entendermos como ele deixou que aquilo nos acontecesse, e muitas vezes foi justamente para evitar um mal maior, como ocorreu entre Frodo e Gollum.

A outra cena importante é a que se dá quando o Rei dos Horan tem que decidir se enfrenta os inimigos ou se foge para se refugiar no vale de Halem. Gandalf o aconselha a ir para a guerra, mas ele prefere a paz e foge com seu povo. Quando a guerra se inicia, os inimigos já se organizaram o bastante para contarem com um exército de dez mil homens contra trezentos dos Horan. Isso simboliza, no plano individual, o seguinte : não podemos deixar o mal crescer, temos que declarar guerra contra ele o tempo todo. Para isso, muitas vezes, teremos que fazer inimizades com outras pessoas, pois é impossível estar do lado do bem o tempo todo sem despertar a fúria daqueles que têm o mal dentro de si. Num plano mais político, isso significa que a paz não é o meio, mas apenas o fim, e muitas vezes não se pode chegar a ela sem a guerra. Portanto, se você é contra qualquer guerra simplesmente porque é a favor da paz, lembre-se do Rei de Horan que, para evitar a guerra, deixou o mal crescer tanto que, quando teve que enfrentá-lo, já não podia mais fazê-lo sozinho, e a guerra que foi obrigado a enfrentar foi muito mais sangrenta e mortífera.