A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, junho 24, 2003

Quem é o homem

Nem racional, nem político. Religioso. O homem é um animal religioso. Ele pode viver para afirmar ou para negar essa condição, mas nunca conseguirá fugir dela.

Sempre que você encontrar um sujeito que tem um carro rebaixado, estará diante de um exemplar de um homem religioso tentando negar a sua condição. Também quando encontrar uma senhora que não permite que sentem no seu sofá novo. E novamente quando vir um livro grosso e famoso enfeitando a biblioteca da casa do seu amigo, sem nunca ter sido lido.

Podemos classificar os homens, então, em conformados e inconformados. Os primeiros são os que aceitam sua natureza e vivem em sintonia com ela, e os últimos os que tentam, de alguma forma, compensar o fato de negá-la, substituindo o único objeto verdadeiro de um culto – Deus – por fantasias materiais ou mesmo espirituais.

O interessante é a forma como o objeto de culto desses inconformados se transforma ao longo do tempo e, mesmo assim, eles não percebem a contradição de sua crença. É impressionante como não se apercebem que, em última instância, estão sempre cultuando algo. E ainda se acham mais práticos, mais dinâmicos, mais verdadeiros.

Fico pensando no dia em que algum homem realmente conseguir viver sem cultuar nada : transformar-se-á numa rã ou num sapo e passará a cultuar os homens.

Da simplicidade

Não existem coisas simples ou complexas. Existe a simplicidade e a complexidade. Espere aí. Não estou reproduzindo a teoria de Platão. Elas só existem em nós, ou em alguém, mas nunca em coisas.

Se considerarmos a operação 2+2=4, por exemplo, veremos que ela pode ser algo tanto simples quanto complexo. Mas na verdade ela não é nem uma coisa nem outra. Você é que, se for uma pessoa simples, conseguirá perceber imediatamente o esplendor de sua essência, captará sua simplicidade. Ora, mas se você a captou, é porque ela já estava nela, na coisa. Certo ! Está bem, então a simplicidade, na verdade, existe nas coisas. A complexidade é que não existe. Quando algo for complexo para você, é porque não captou a sua essência.

Então estamos entendidos : quem vê simplicidade, vê algo, quem vê complexidade, vê a aparência de algo.

Para captar a simplicidade, existem 2 meios : um simples e um complexo. O simples é o místico e o complexo é o filosófico. Portanto, a filosofia é uma meio complexo de ver as coisas simples, ou, em última instância, de ver as coisas, pois elas são sempre simples.