A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, julho 26, 2003

O Coração das Trevas de People n'Arts

Acabei de assistir no People n'Arts a um documentário sobre o livro de Joseph Conrad - O Coração das Trevas. Professores de diversas universidades européias analisaram a obra. É incrível como às vezes não conseguimos fugir da necessidade de autotortura. Porque é claro que foi esse o efeito que o programa teve em mim. Definiram o livro como "uma derrubada do mito do colonialismo". E todas as vezes em que Conrad contrariou essa versão, trataram de chamá-lo de preconceituoso e racista. Aplaudiram quando ele descreveu as maldades do homem branco, mas criticaram quando ele mostrou os selvagens como verdadeiros selvagens. Ou seja, mostraram o livro com eles gostariam que o livro tivesse sido, e não abdicaram do direito de intercalar cenas de um filme que retrata fielmente a obra com as de Apocalypse Now, que é apenas inspirado no livro, mas que trata da guerra no Vietnã. E fizeram questão de enfatizar que essa guerra não foi nada mais do que uma continuação do projeto colonialista das nações ricas, representadas dessa vez pelos EUA.

Determinados detalhes mostram muito bem como estes analistas interpretaram os fatos. Quando falaram da infância de Conrad, realçaram que seu pai era um aristocrata tradutor de Shakespeare, de boa linhagem intelectual. E enfatizaram que seu filho, ainda com 5 anos, escreveu uma carta em que assinava "Conrad, o nobre". Interpretaram esse reconhecimento da criança como uma consciência de que era um proprietário de terras. Meu Deus, será que para aquela criança seu pai representava apenas um proprietário de terras ? Será que não era o legado moral e intelectual do pai que o fazia se sentir um nobre ? Quanta baixeza !

O "horror" de Kurtz foi interpretado como um mero arrependimento pela forma cruel como tratou os selvagens. Nenhuma análise - sequer psicológica - mais profunda, nenhuma analogia com o mergulho do homem nas trevas do inconsciente, com a necessidade de autoconhecimento, nada .

Deturparam a obra de todas as formas possíveis. Analisando-a superficialmente, como os professores fizeram, o que posso dizer é o seguinte : Conrad não fez apologia do colonialismo, mas também não quis apenas denunciá-lo. Registrou a forma destrutiva como vinha acontecendo e mostrou a forma bárbara como vivia o povo africano. E simplesmente se utilizou desses fatos para fazer o leitor refletir. Uma parte característica do livro é quando é descrita a forma selvagem utilizada por Kurtz para dominar os próprios selvagens : pregando os crânios dos transgressores em estacas. É como se ele, na tentativa de dominá-los, tivesse sendo dominado por eles. Não vou interpretar o significado dessa passagem, porque estenderia demais esse post, mas é claro que há muito o que pensar a partir daí. Mas os tais professores nem passaram perto de chegar até aqui. Limitaram-se a uma visão marxista. E eu assisti até o fim !!!