A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, julho 05, 2003

O Espírito das Idades

( Mais uma vez peço desculpas aos leitores da Barbárie por postar esse texto aqui. )

A nossa era é tão marcada pelo culto à matéria que já houve uma “materialização” da concepção de espírito. O bem estar está relacionado simplesmente ao fato de não se sentir dor, ter o corpo relaxado e a mente tranqüila, mesmo que não tenha nada de importante dentro dela. O ideal é que esteja livre de problemas, mesmo que vazia de conteúdo. Para isso, realizam-se diversos procedimentos, desde massagem, passando pela psicoterapia, chegando até a Yoga e outras técnicas “Zen”. A conduta é sempre a mesma : desconsidera-se ou elimina-se o conteúdo espiritual (das que o possuem, evidentemente) dessas terapias e passa-se a associá-lo à sensação de atonia muscular e vazio mental. Quanto mais oco e relaxado, mais o sujeito se sente bem.

Há uma estrita relação entre essa concepção espiritual e a de “espírito jovem”. Todos querem ser jovens, não apenas de corpo, mas também de espírito. Mas o que seria um “espírito jovem” ? Para analisar melhor essa questão, precisaremos compreender o “espírito” de cada idade humana.

A infância é marcada por uma visão confusa da realidade. É a fase de aprendizado, em que somos obrigados a nos orientar por alguém, quase sempre por nossos pais. A juventude é a idade em que percebemos que podemos fazer muito por nós mesmos e, principalmente, não somos verdadeiramente obrigados a seguir o conselho nem as ordens de ninguém. Isso nos dá medo e prazer ao mesmo tempo. Se o limite imposto pelos nossos pais nos cerceava a liberdade, também nos facilitava o acesso ao mundo. Agora, já livres da pressão paterna, o que nos limita é a própria realidade. Não quero me referir aqui apenas ao aspecto opressivo da sociedade sobre o indivíduo, pois já foi analisado em “O Homem e as Sociedades”, mas principalmente à pressão do real metafísico. É nessa idade que vivemos o dilema de sermos totalmente livres e perdermos nosso vínculo com a orientação paterna ou de nos mantermos vinculados a ela e perdermos parte de nossa liberdade.

O homem só pode ser considerado adulto quando já equacionou esse problema, o que é muito difícil de ocorrer hoje em dia. Há 2 soluções erradas para essa questão, que são as normalmente buscadas pelos jovens. A primeira é a de se manter eternamente ligado aos pais, evitando enfrentar a realidade e adquirir responsabilidade perante ela. Para se ter uma idéia do quanto isso tem ocorrido, basta-se procurar nas estatísticas a quantidade de pessoas acima dos 25 anos que continuam morando com os pais. A segunda é a de querer a liberdade total e desconsiderar o limite imposto pela realidade. O melhor exemplo disso é o chamado “rebelde sem causa”, cuja revolta é contra o próprio mundo em si, simplesmente porque não é exatamente como ele gostaria. Para tentarem se convencer de que dominam o real e que ele pode se curvar aos seus caprichos, vestem-se de forma esquisita, deixam o cabelo espetado, sujam a cara, etc., chegando ao ponto de queimarem vivo um índio. O mais comum é que as 2 soluções sejam buscadas ao mesmo tempo, recebendo dos pais a proteção econômica e a segurança pessoal e a liberdade de não se submeterem às suas regras por já serem bem grandinhos.

Na verdade, para se tornar adulto, o homem precisa saber se submeter à pressão da realidade e usar da liberdade que possui para crescer espiritualmente. Assim, ele compreende as coisas como realmente são e pode tentar resolver seus problemas de maneira mais harmônica, principalmente se souber se responsabilizar pelos seus atos. Portanto, enquanto a juventude é a idade em que o ser humano briga coma realidade, a adulta é aquela em que ele consegue compreendê-la.

A velhice é a idade em que o homem supera a realidade, não porque a desconsidere ou deixe de viver nela, mas porque apreende o significado mais profundo dela, transcendendo-a e ultrapassando seus limites.

São poucos os homens que alcançam o espírito da velhice, a maioria conserva o espírito jovem, sequer chegando a se tornar adulto. E não é estranho que se gabem disso ou o tenham por meta.