A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, agosto 26, 2003


Estou publicando este pequeno ensaio, inspirado nas idéias de Eric Weil, Mircea Eliade e Mário Ferreira dos Santos. Gostaria que aqueles que tiverem o trabalho de ler fizessem comentários, mesmo que seja para dizer que acharam um absurdo.

O Homem e as Sociedades parte 1

As sociedades se formaram a partir da luta do homem contra a natureza. Elas se diferenciam uma da outra pela forma como seus membros encaram essa luta.

Vou classificá-las em 3 tipos para fins didáticos :

1)As que a vêem como algo sagrado.
Aqui a luta tem um sentido transcendente, sem um fim em si mesma. Nestas, o sentido da vida humana é dado pela própria forma de interpretar o mundo, ou seja, como manifestação divina. Os pólos que parecem se repelir no sentido horizontal encontram na intersecção com a vertical o ponto de unificação em direção a Deus, o único que pode dar um verdadeiro sentido à nossa existência. A individualidade tem, assim, fácil acesso ao universal, pois este já é identificado em cada ser (seja o homem, uma árvore ou uma pedra) em sua condição simbólica.

2)As que a vêem como um castigo.
Aqui a luta é relegada a uma parte da sociedade : os escravos. Ela perde seu caráter sagrado e, por isso, os que são responsáveis por ela perdem a dignidade humana. São tidos como animais. Há uma valorização dos intelectuais que utilizam seu tempo livre de forma sagrada, ou seja, investigando os mistérios do mundo, que ainda é visto, pelo menos em parte, como manifestação divina. Para se elevar a Deus, portanto, é preciso estar livre da necessidade de lutar com a natureza. Isso não quer dizer, entretanto, que os que precisam lutar (ou seja, realizar trabalhos manuais) não podem ter tal pretensão, mas apenas que o trabalho não lhe dá tal condição por ele mesmo. A individualidade já tem certa dificuldade de alcançar o universal, pois os meios para tal se restringe ao intelectual. Muitos, então, usam o seu tempo livre para simples diversão.

3)As que tentam encontrar nela um sentido em si mesma
É quando o sentido da vida passa a ser o trabalho, mas este já não carrega simbologia nenhuma, ou seja, perde todo seu caráter sagrado. Aqui o trabalho manual é igualado ao intelectual, pelo menos no que se refere à maneira como ambos são encarados do ponto de vista da luta contra a natureza. Apesar do intelectual ser geralmente mais valorizado economicamente, ambos se igualam no fato de terem um fim neles mesmos. Aqui a individualidade tem enormes dificuldades de atingir o universal, pois ela não tem referências, a não ser os resíduos das sociedades tradicionais que continuam impregnando parte da sua.
Neste tipo, o trabalho é visto como a única coisa importante (como algo sagrado, mas dessacralizado), e o tempo livre perde toda a importância, pois é algo a se considerar apenas do ponto de vista individual. Mesmo quando considera a indústria da diversão, a sociedade só a encara como um trabalho, não interessando de forma nenhuma como diversão em si. Se aqui o trabalho é considerado sagrado por analogia ao verdadeiro sagrado, a diversão é profana no sentido absoluto do termo. É por isso que o homem moderno, que vive neste tipo de sociedade, não consegue encontrar sentido na vida nem quando trabalha nem quando se diverte, pois só há vazio em todo canto.

Aqui se encontram as raízes tanto da atomização do ser humano quanto do coletivismo. Sem poder enxergar um sentido em nada, o homem dá importância a tudo, principalmente ao novo, pois é sempre preciso encontrar um elemento diferencial, e não havendo, inventa-se. Surge, assim, o relativismo cultural, moral, intelectual, etc. Já o coletivismo é derivado do desejo, impossível de ser refreado, de alcançar o universal. Quase que impossibilitado de realizá-lo na individualidade devido à perda das tradições, o ser humano procura alcançá-lo materialmente, tentando encontrar na massificação a realização do seu sonho, esquecendo-se que, para isso, terá que se abster da própria consciência, o que significa que, mesmo que ele se realize, não poderá vivenciá-lo como imagina, pois já terá perdido sua individualidade.

Admito que este é um texto pretensioso diante dos conhecimentos que tenho sobre o assunto, mas críticas serão bem-vindas. Publicarei as continuações amanhã e quinta-feira.