A Barbárie dos Tempos Modernos

quarta-feira, agosto 27, 2003

O Homem e as Sociedades parte 2

A classificação que expus, como disse, é apenas didática, portanto jamais houve uma sociedade com características exclusivas de uma das 3 que descrevi. Mas todas se constituíram numa mescla de todas elas, com predominância de uma ou de outra. No entanto, há uma tendência cronológica em direção ao terceiro tipo, principalmente no Ocidente.

A primeira traz o perfil da sociedade tradicional (referente a Tradição, do ponto de vista religioso), na qual a luta contra a natureza não era tida como tal, ou seja, não era vista assim, pois o homem era considerado como parte dela. Mas não da natureza como matéria, objeto de transformação, e sim como manifestação divina. O ato humano de transformá-la para que pudesse sobreviver já era em si uma simbologia e tinha para ele um significado transcendente. Assim, o interesse da sociedade coincidia com o dos indivíduos. Esse é um tipo ideal que, talvez, nunca tenha existido.

Mas, não importando quais as razões, o fato é que a necessidade de aprimoramento dessa luta em busca de uma maior eficácia de resultados levou o homem a se desvincular dessa concepção e passar a considerar a natureza como um objeto a ser transformado em seu benefício. Dessa forma, o objetivo principal desse novo tipo de sociedade passou a ser o de conseguir libertar o máximo possível o indivíduo da obrigação de trabalhar para que ele tivesse cada vez mais tempo livre para fazer o que quisesse. Como a Tradição ainda não havia sido completamente perdida, durante grande parte desse tempo o homem se dirigiu a Deus. A "diversão" ainda não tinha um caráter totalmente profano. É importante frisar que, neste tipo, o interesse da própria sociedade, ou seja, do ponto de vista dela mesma e não dos indivíduos, era o de produzir esse tempo livre, por isso seu objetivo ainda coincidia com o de parte de seus membros. É claro que, para almejar a produção desse ócio, ela tinha que se preocupar também em tornar mais eficazes os meios de luta contra a natureza.

O fato é que, com o passar do tempo, toda o interesse da sociedade passou a estar vinculado tão somente ao aprimoramento dessa técnica, mas sem se preocupar com o que fariam os indivíduos em suas horas de folga, excetuando-se, claro, quando eles as utilizassem para romper os limites da ordem dessa sociedade. Assim, o interesse social passou a se opor totalmente ao dos indivíduos. Nenhum ser humano, atualmente, excetuando-se os casos patológicos, consegue enxergar o seu trabalho como sendo o sentido de sua vida. Ele trabalha para poder sobreviver e , aí sim, encontrar algo que possa dar sentido a ela. Mesmo que ele ache seu trabalho prazeroso, por encará-lo de forma profana, não consegue ver nele nada de último, ou seja, que tenha um fim em si mesmo (este fim em si mesmo só teria sentido se fosse transcendente). Ele é sempre um meio e nunca um fim. No entanto, para a sociedade, o fim é mesmo o trabalho. Ela não tem outro interesse. Então, todos os seus membros entram em choque com ela. O homem está, mais do que nunca, sozinho e sem orientação, e é obrigado a encontrar o sentido de sua vida por si mesmo.

Assim, cria-se uma contradição, dentro da qual o ser humano é obrigado a sobreviver : ele precisa da sociedade, pois não consegue ficar vivo fora dela, mas não pode se realizar individualmente se se orientar por ela. E mais, devido ao fato desta sociedade ter perdido quase completamente o contato com a Tradição, a dificuldade que ele tem para se realizar é imensa.

E é essa busca desorientada e frenética do homem no sentido de sua auto-realização que faz com que muitos deles não consigam distinguir seus próprios objetivos dos da sociedade, por não identificá-los como contraditórios, e tentem transformá-la para se adequar aos seus próprios ideais. Mas este já é um assunto para a parte III deste pequeno e humilde ensaio.