A Barbárie dos Tempos Modernos

quinta-feira, agosto 28, 2003

O Homem e as Sociedades parte III

Nesta terceira e última parte, o foco será direcionado unicamente para o terceiro tipo de sociedade, que apresenta a maioria das características da que vivemos atualmente.

Ela se formou a partir da necessidade humana de juntar forças para lutar contra a natureza. Entretanto, acabou tomando um rumo em que seus objetivos se tornaram totalmente incompatíveis com o dos indivíduos que a compõem. Se a natureza no sentido físico foi considerado o primeiro obstáculo à realização humana, agora é a própria sociedade que passa a representar uma segunda natureza, na qual ele vive e da qual não pode se libertar. Então, o homem precisa encontrar formas de se realizar em meio à contradição de sua própria condição de ser social.

Uma das maneiras de conseguir isso é tornar o objetivo da sociedade igual ao seu. E não há como alcançá-lo sem os meios políticos. Foi com a pretensão de atingir essa meta que surgiram todas as ideologias totalitárias. Um outro jeito de resolver o problema é simplesmente negar a sociedade e tentar viver fora dela. Daqui derivam as idéias anarquistas. Mas a única resposta sóbria vem daqueles que procuram se realizar dentro da tensão da sociedade, nem pretendendo aboli-la nem adequá-la aos seus sonhos, mas apenas de dar sua contribuição para melhorá-la, mesmo que ela não a aceite num primeiro momento.

As revoluções são uma grande prova de como funciona esse mecanismo. Quase todas têm uma causa nobre, mas sempre terminam com o fortalecimento do poder central e com o aumento da coação sobre os indivíduos. E não é difícil entender a razão : as pessoas que as elaboram não levam em conta a contradição entre indivíduo e sociedade e pensam que é possível realizar o sonho de criar uma sociedade em que o objetivo de cada uma coincida com o dela, o que é de antemão impossível, pois cada um tem seu plano e o da sociedade é um só. Então, na esperança de resolver esse enigma, muitos passam a identificar a sociedade com o indivíduo e vice versa, diluindo sua personalidade no todo social ou tornando-a um ser concreto, com pensamentos próprios, como um grande monstro amorfo. É apavorante perceber que há mais de 2 séculos esse tem sido o grande objetivo do homem, mesmo depois de todos os problemas gerados pelas tentativas frustradas de realizá-lo.

A única maneira de tentar diminuir a contradição intrínseca ao binômio indivíduo - sociedade é tornar o objetivo transcendente, mesmo que cada um utilize um modo particular de se alçar a essa meta. Uma sociedade assim formada, mesmo com todas as particularidades de seus membros, teria parte de seu fim coincidente com o dos indivíduos. Digo apenas parte porque não é possível ter somente esse objetivo, pois as pessoas precisam realizar suas atividades ordinárias para sobreviver, a não ser que consideremos possível de existir o primeiro tipo, em que até essas tarefas tinham um caráter transcendente.

Entretanto, nunca com tanto empenho quanto hoje, o homem tentou de todas as formas possíveis e imagináveis eliminar um dos pólos da tensão em que vive, e o foco está, mais do que nunca, direcionado para a eliminação do indivíduo. Esquecido de Deus, não é para menos que o ser humano viva atualmente entre a tirania do Estado e a tirania do Mercado, por isso finalizo com este trecho de O Jardim das Aflições, de Olavo de Carvalho :

"Embora uma economia de mercado seja claramente menos opressiva para os cidadãos do que uma economia socialista, a liberdade para o mercado não garante automaticamente liberdade para as consciências. Na medida em que der por implícita e automática uma conexão que, ao contrário, só pode ser criada por um esforço consciente, o neoliberalismo se omitirá de cumprir o papel que se propõe, de abrir o caminho para uma sociedade mais livre por meio da economia livre : se uma opção econômica se torna o critério predominante se não único a determinar os rumos da vida coletiva, o resultado fatal é que os meios se tornam fins. E o mercado tem um potencial escravizador tão grande e perigoso quanto o do Estado.

O que há de mais irônico no confronto socialismo - neoliberalismo é que hoje em dia os derrotados socialistas, inconformados com a frustração de seus planos na nova ordem, acabam descarregando todos os seus velhos ímpetos estatizantes no apoio descabido às intromissões do Estado neoliberal na vida privada, e assim se tornam aliados dos seus antigos desafetos num esforço comum para levar o neoliberalismo no caminho do pior. Não tendo conseguido socializar a economia, consolam-se buscando socializar tudo o mais - inclusive a moral privada e a intimidade das consciências. E os neoliberais, por julgarem que é mais vital preservar a liberdade de mercado do que qualquer outra, e por desejo talvez de apaziguar o ressentimento dos derrotados, vão cedendo, cedendo, até que o novo Estado acabe por construir, sobre o arcabouço da economia capitalista, uma espécie de administração socialista da alma - o socialismo da vida interior."