A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, setembro 30, 2003

Sobre O Progresso

"Enquanto a visão do céu mudar todos os dias a visão da terra será exatamente a mesma. Nenhum ideal durará o bastante para ser realizado, ao menos em parte. O moderno jovem jamais mudará as estruturas que o cercam, porque ele mudará todos os dias o seu espírito. Esta será então nossa primeira exigência a respeito do ideal que norteia o progresso: esse ideal deve ser fixado (ou não haverá progresso)."

G. K. Chesterton

Está tudo aqui

segunda-feira, setembro 29, 2003

Coletivismo e Individualismo

No livro "Braz, Quincas e Cia", Antônio Fernando Borges procura chamar a atenção para o rumo que o mundo está tomando : o do coletivismo. Frases como "fui agredido a golpes de maioria" vão ficar para sempre em minha mente. Mas vamos ao que interessa.

É fácil discernir um dos grandes perigos do individualismo : o egoísmo. Aquele que se preocupa tão somente consigo mesmo e está pouco se importando com os outros não é, com razão, nem um pouco venerado em nossa sociedade. No entanto, muitas vezes, mesmo possuindo essa característica, ele é obrigado a contribuir com os outros. Por exemplo, um empresário, por mais egoísta que seja, se for bem sucedido em sua atividade, não terá como prosperar sem oferecer empregos em quantidades cada vez maiores. É assim que o interesse particular, por mais extremado que seja, contribui sempre para o bem comum, mesmo que involuntariamente.

O cúmulo do individualismo, entretanto, não é um egoísmo exacerbado, como muitos pensam. O que pude apreender do livro de Antônio Borges é que o cúmulo do individualismo é a idéia de coletivismo. Sim, parece paradoxal, mas é a mais pura verdade. O sujeito que se reconhece como indivíduo particular sabe das responsabilidades que lhe são atribuídas dentro da sociedade. Por mais egoísta que seja, se for honesto consigo mesmo, saberá tanto se vangloriar pelas vitórias quanto arcar com os prejuízos das derrotas, tanto se enaltecerá com os acertos quanto pagará pelos erros.

Agora tracemos o perfil daquele que vê no coletivismo a solução para os nossos males. Esse sujeito tem horror à responsabilidade individual. Acha que é um mecanismo supra-individual que governa o mundo. Exemplifiquemos. Após o atentado que quase lhe tirou a vida e o deixou paralítico, o baterista Marcelo Yuka disse que quem atirou nele foi, na verdade, a desigualdade econômica. À primeira vista, parece uma frase comovente, de um sujeito altamente compreensivo, capaz de perdoar seu próprio algoz, apesar da situação em que se encontra. Analisando o caso mais de perto, é fácil perceber que não é nada disso. Ele só perdoa o criminoso porque acha que a culpa não está nele, pois ele é apenas um fantoche nas mãos da "desigualdade econômica". Daí pode-se deduzir 2 coisas : 1) O baterista consegue a façanha de reduzir um criminoso a algo muito pior que isto : um nada. Se como criminoso, ele permanece sendo um ser humano, como marionete de um ente coletivo chamado "desigualdade econômica", e portanto, incapaz de ser consciente e responsável pelos males que comete, torna-se um nada ; 2) Se o culpado pelo crime fosse o atirador, o músico só teria 2 opções : a) entregar à justiça a punição do criminoso ou b) vingar-se pessoalmente dele. Na primeira situação, restar-lhe-ia apenas se conformar com sua nova forma de vida e buscar força interior para vencer mais esta dificuldade. Na segunda, ele buscaria na morte do seu algoz o alívio para sua dor, e certamente não encontraria. Além do mais, seria uma escolha extremamente arriscada e que exigiria muita coragem, pois colocaria sua vida mais uma vez em risco.

Entretanto, como a verdadeira culpada pelo crime é a "desigualdade econômica", e esta não é ninguém em particular, as hipóteses a e b estão descartadas, livrando Marcelo Yuka tanto da necessidade de buscar apenas em si as forças para se reerguer quanto do perigo de enfrentar pessoalmente gente tão temível. Essa concepção lhe dá a vantagem de ter todo o direito de se colocar contra a sociedade, pois foi ela quem produziu a desigualdade econômica que permitiu que ele se tornasse paralítico. Dessa forma, se ele se tornar um inconformado com a vida, tentar o suicídio ou virar um narcotraficante, não é responsabilidade dele, mas sim do "sistema", que justifica plenamente suas atitudes. Mas isso é não é nada. Pior será se ele se tornar um militante do coletivismo, espalhando por aí estas mesmas idéias, ajudando a "justificar" a existência de milhares e milhares de assassinos e tirando a culpa de seus ombros para colocar na "desigualdade econômica".

Sei que Marcelo Yuka pode muito bem ser uma pessoa maravilhosa, que não tem a menor noção das implicações de sua concepção, mas, conscientemente ou não, são todos esses males que ele produz ao divulgá-la, e ainda mais, se se engajar nesta causa, porque aí o seu individualismo estará sendo tão extremo que ele só conseguirá vislumbrar seu futuro se puder transformar o futuro de toda a humanidade e moldá-lo do seu jeito.

Este sim é o cúmulo do individualismo.

sábado, setembro 27, 2003

Humildes e Magnânimos

Segundo Aristóteles, magnânimo é o sujeito que está à altura da grandeza de suas auto-atribuições. No entanto, se ele apenas anuncia essa grandeza, mas não está verdadeiramente à altura dela, é apenas um pretensioso. Um homem rico, por exemplo, para ser magnânimo, precisa estar à altura de sua riqueza : "os homens que, sem serem virtuosos, recebem os bens da fortuna, não têm por que alimentar grandes pretensões a altas honras e nem ao nome de magnânimos, pois tais coisas implicam virtude perfeita; mas mesmo esses homens tornam-se desdenhosos e insolentes. Com efeito, sem virtude não é fácil carregar condignamente os bens da fortuna, pois são incapazes disso, e julgando-se superiores às outras pessoas, desprezam-nas e fazem o que bem entendem. Imitam as pessoas magnânimas sem serem como elas, e as imitam como podem; não agem virtuosamente e desprezam os outros. O homem magnânimo desdenha com justiça, pois julga com acerto, ao passo que a maioria o faz sem fundamento." (Ética a Nicômaco)

Talvez por isso Jesus tenha dito : "é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu", pois quanto maior a riqueza material, maior o peso da responsabilidade e maior a necessidade de esforços para estar à altura dela. A tendência natural é que o rico se atribua uma grandeza que não possui e passe a manifestá-la de maneira equivocada, como por exemplo : "exibem-se com belas roupas, têm maneiras afetadas e coisas semelhantes, querendo que todos vejam e comentem sua boa fortuna, como se julgasse merecer honras por causa dela."

Por outro lado, "entre todas as virtudes, somente a humildade se ignora a si mesma; como traz os olhos baixos e fitos no abismo do seu nada, não reflete sobre o seu conhecimento, porque o verdadeiro humilde não presume que o seja." (citado pelo padre Manuel Bernardes)

Hoje abundam os falsos magnânimos - ou pretensiosos - e os falsos humildes - ou hipócritas, principalmente no que se refere à riqueza e à inteligência. Temos então 4 "tipos" clássicos : a) o rico pretensioso, b) o intelectual pretensioso, c) o rico hipócrita e d) o intelectual hipócrita. O primeiro tipo já foi exemplificado acima. Quanto ao intelectual pretensioso, é fácil reconhecê-lo. Geralmente é um sujeito que sabe de tudo um pouco, e sempre muito superficialmente, justamente por saber que o interesse da maioria das pessoas por aqueles assuntos é pequeno, correndo pouco risco de ser pego em contradição. Rico hipócrita é o que mais tem no Brasil, porque, como todo mundo sabe, é "vergonhoso" ter dinheiro num país tão miserável, ainda mais quando se acredita, baseando-se na teoria marxista de luta de classes, que são os ricos os responsáveis pela pobreza dos pobres. Mas, longe de qualquer dúvida, o tipo que merece maior atenção é o intelectual hipócrita. Porque é ele quem mais influencia negativamente o curso da história. É ele que se diz preocupado com os mais necessitados, e para isso se utiliza deles para se autopromover; é ele que reconhece que a verdade não existe, porque quem é ele ou alguém para deter o conhecimento da verdade ? Baseando-se nisso, instituem o reinado da opinião, não importando o quanto saibam sobre o assunto os opinadores, pois o que vai valer é o consenso - um consenso de hipócritas, é claro !

Mas, apesar de raros, é preciso que saibamos reconhecer os verdadeiros magnânimos e os verdadeiros humildes, porque devem servir de exemplo para a humanidade. Mas, na ânsia de enxergar os defeitos dos outros, temos dificuldades de reconhecê-los. Por exemplo, se numa discussão, um debatedor pergunta como você sabe aquilo que acabou de declarar e você responde que leu em 3 livros e os cita, provavelmente ele vai lhe achar um esnobe. Mas se você realmente leu os 3 livros e está colocando em discussão seu real conhecimento, você não o está esnobando, está sendo magnânimo. O seu colega é que é um hipócrita, pois aparenta uma humildade que não tem, já que é incapaz de reconhecer a superioridade do conhecimento alheio, e ainda reage com afetação. Agora, se você não entendeu nada do que disse, por conhecer apenas o título dos livros, então você é apenas um pretensioso, mas aí ele só vai poder julgá-lo se tiver pelo menos uma noção do assunto.

Pelo exemplo dado, é possível perceber o que é mais comum acontecer no Brasil : os poucos magnânimos em inteligência e riqueza são tido como esnobes e apenas os intelectuais hipócritas e aqueles que eles escolhem para "cuidar" dos "necessitados" são vistos como verdadeiros humildes.

sexta-feira, setembro 26, 2003

Crédulos

Não conheço sujeito mais crédulo que o ateu. Quer uma prova ? Pergunte a um deles do que uma partícula atômica é capaz.

"... e a partícula atômica disse : faça-se Deus no pensamento do homem. A partir de então, a maioria de nós passou a imaginá-Lo do jeitinho que a travessa programou."

Apostando na Negritude

Devido à confusão causada pela lei das cotas raciais, estão querendo instituir padrões para caracterizar uma pessoa como negra, com o nobre objetivo, é claro, de evitar que alguns brancos espertos se aproveitem da medida, porque já está definido - estão ouvindo ? - somente os negros podem se aproveitar dela !

Então fiquei imaginando como será a reação dos pais ao nascimento de um filho daqui para diante :

Após admirar e se encantar com a criança e fazer os habituais comentários elogiosos, começam a pensar no futuro. O pai, com um manual cheio de fotos explicativas na mão, começa a "vasculhar" o corpo do filho todo e a fazer contas e mais contas :

- Aqui diz que nariz achatado vale 10 pontos e que lábios grosssos valem 8, mas estou com dificuldade de definir a cor da pele; essas fotos não estão muito nítidas. É o critério que vale mais pontos. Ajude-me um pouco, mulher, afinal a culpa será sua se ele não puder ser classificado como negro; quem manda ser branquela !

E a mulher retruca :

- E você com esse cabelo liso ! Veja o meu, esse sim é de negro ! Olhe aí quanto vale cabelo crespo.

E o marido, empolgado :

- Vinte pontos, beleza !

E os dois se abraçam e comemoram. Mas, depois de continuar o "exame", o pai declara, abatido :

- É, mulher, mas ainda falta bastante. Não sei não, acho que esse menino vai ter que estudar é muito para entrar numa universidade ou para arranjar um emprego público. São 200 pontos para que seja caracterizado como negro. Aí ele só precisaria acertar 20 % das questões, mas se não atingir os pontos necessários indicados nesse manual, então só terá chances se acertar no mínimo 70 % das perguntas.

- Tem nada não, diz a mãe, já quase conformada. Se Deus não lhe deu a dádiva de ser negro, haverá de lhe dar muita inteligência !

- Que Deus te ouça !

E, com lágrimas nos olhos, os dois se abraçam mais uma vez, olhando com ternura para o filho.

quarta-feira, setembro 24, 2003

Diálogos

Cardiopata : Meu médico disse que eu não posso ter alegria nem tristeza.
Amigo : E você marcou o suicídio para que dia ?

Cristão : Todos sentem a presença de Deus. Alguns negam, mas o único intuito é diminuir sua carga de responsabilidade perante a vida.
Ateu : Deixa disso, Deus não serve para nada, não tem nenhuma utilidade.
Cristão : Nisso eu concordo inteiramente com você.


terça-feira, setembro 23, 2003

O materialismo é tão somente uma forma de fugir da realidade.

Justiça Social é o desafio do século ?

Segundo a Veja, Lula é liberal ou neoliberal, seja lá como quiserem. Pois bem, foi justamente Hayek - cuja teoria, segundo a Veja, Lula está seguindo - quem disse, repetiu e cansou de repetir que Justiça Social é algo sem o menor sentido racional. É claro que para um brasileiro, que ouve e entoa "justiça social" a todo momento, dizer que ela não existe é que não faz sentido. Pois vou dar apenas uma pequena mostra do quanto o termo é irracional. Justiça é algo que só pode ser aplicado quando encontram-se reunidas 2 ou mais pessoas. Que significado teria a palavra justiça na ilha de Robson Crusoé ? Nenhum. Pois bem, isso quer dizer que toda justiça é social, ou seja, só faz sentido usar o termo em sociedade. Portanto, a tal justiça social que o brasileiro ouve e repete mais do que respira, é a mesma justiça que se aplica a todo e qualquer outro caso. O termo foi inventado por socialistas como tática de lavagem cerebral, tentando incutir na cabeça das pessoas que justiça é algo que só se aplica ou só dá certo no socialismo. Portanto, a manchete do Globo quer dizer o seguinte : Implantar o Socialismo Mundial (que é a única forma de aplicar a tal justiça social) é o desafio do século. Não é lindo ?

As 2 verdades de Lula

Nosso presidente acredita, como todo esquerdista, em 2 coisas contraditórias : 1) Ele acha que não há ligação entre terrorismo e pobreza. E por que ? Porque se há essa ligação, então é muito mais provável que todas as organizações terroristas que ele defende como não sendo terroristas, como as FARC, sejam mesmo terroristas. 2) Ele acha que há ligação entre terrorismo e pobreza. E por que ? Porque assim ele pode ser contra a luta norte-americana contra o terrorismo, pois se a causa é a pobreza, é o lado social que tem que ser enfatizado e, portanto, ele está certíssimo em seu projeto Fome Zero. É ele que vai ajudar a acabar com o terrorismo e não a guerra declarada pelos EUA contra o Terror.

É como diz Olavo de Carvalho : o discurso de Lula é contraditório porque não chega a ser um raciocínio, é apenas a expressão de um sentimento. Ele admite a ligação quando pensa nos EUA ( que ele odeia ) e nega a ligação quando pensa nas FARC ( que ele ama ). Não é simples ?

segunda-feira, setembro 22, 2003

"Não começa por haver, primeiro, um movimento na realidade interina e, em segundo lugar, um observador humano, quiçá um filósofo, que registe as suas observações do movimento. A realidade da existência, tal como é experimentada no movimento, é uma participação mútua (methexis, metalepsís) do humano e do divino; e os símbolos linguísticos que exprimem o movimento não são inventados por um observador que não participa no movimento; são gerados no próprio acontecimento da participação. O estatuto ontológico dos símbolos é tanto humano como divino."

"O mito não é uma forma simbólica primitiva, exclusiva das sociedades arcaicas e superado progressivamente pela ciência positiva; é, antes, a linguagem em que se articula as experiências da participação humano-divina na realidade interina."

Eric Voegelin

Está tudo aqui

sábado, setembro 20, 2003

A Vontade, O Entendimento e O Amor

"A vontade é que delibera ante o bem próximo que podemos escolher e outro que podemos preterir. Ela, assistida pelo entendimento, pode errar e pode acertar. E esta é a razão por que deve ser devidamente esclarecida : para que não erre. O entendimento deve ser devidamente eficiente para que não perturbe a ação da vontade. É quando a vontade é livre. Mas essa vontade não exige isenção absoluta de determinação, porque somos determinados necessariamente ao bem sem determinação, não porém a este ou àquele bem. E nisto está a nossa liberdade, é ela o sinal mais elevado da nossa humanidade. É precisamente quando a vontade tende a arbitrar que ela é livre, mas a liberdade tem como contrário a coação. Enquanto a vontade não é coagida por um poder extrínseco a preferir isto e preterir aquilo, ela é livre, e isto não quer dizer contudo que é isenta absolutamente de determinação, não, porque somos determinados para o bem, todos nós anelamos o bem, todos amamos o bem, todos nos inclinamos para o bem, é uma necessidade. Mas o bem aqui é tomado indeterminadamente, pode ser este e pode ser aquele. E eis a razão por que o entendimento, com o apoio da vontade, ao julgar que deve preferir este ou preterir aquele, pode errar livremente por não ter sabido aquilatar qual o verdadeiro bem que deveria preferir.

Aquele que não sabe ainda distinguir o que convém e o que não convém, ainda não é livre; aquele que está obstaculizado pelas coações que cerceiam a sua ação, ainda não é llivre; aquele que é dominado por suas paixões, ainda não é livre. Por isso é que a vontade cristãmente considerada implica a cooperação eficiente e decisiva do entendimento com a vontade. Como o entendimento e a vontade têm seu princípio e a sua raiz no amor, a liberdade da vontade implica a cooperação eficiente e decisiva do entendimento impulsionado pelo amor à verdade e à vontade pelo amor ao bem."

Mário Ferreira dos Santos

Mais uma de Frankl

"É a verdade que nos faz triunfar sobre a tragédia que participa da essência da existência humana, e nesse sentido a verdade nos liberta do sofrimento, ao passo que nosso mero estar livre do sofrimento não seria capaz nem ao menos de nos aproximar da verdade."

Viktor Frankl

A Escola do Garcia

O meu amigo Garcia Rothbard abriu um tipo especial de escola, exclusiva para alunos esquerdistas rebeldes. Eles se dirigem a ela por livre e espontânea vontade, mas com a intenção primeira de xingar o professor, que, pacientemente, escuta os xingamentos e tenta enxergar algo de racional neles, e responde com algumas informações às quais eles não tinham acesso. E assim os pimpolhinhos vão aprendendo. Sou testemunha : a escola já está gerando frutos. Foram contratados 2 professores, dos quais um já começou a trabalhar - o Victor Grinbaum. A aula de estréia foi fenomenal, tanto que os alunos nem tiveram fôlego para agredi-lo : engoliram em seco. O outro professor ainda está se preparando. E eu, contratado como auxiliar, estou fazendo o possível para manter as ferinhas sentadas e prestando atenção. É difícil, tento brincar com os xingamentos, relevar, mas eles são insistentes. De qualquer forma, acho que está valendo a pena. A Sociedade dos Amigos da América é um verdadeiro ato de caridade do meu amigo Rothbard, que, é claro, é professor e diretor. O que os alunos mais gostam nele é que não coloca de castigo nem dá suspenão. Não é, Garcia ?

sexta-feira, setembro 19, 2003

Reencontro

- Quanto tempo, hein ?
- É, faz tempo ... Soube que você está lidando com galo de briga ...
- A gente faz o que pode.
- Mas colocar galo pra brigar ?!
- E você ... Soube que é cientista. Está lidando com acelerador de partícula ...
- A gente faz o que pode.
- Mas colocar átomo pra brigar ?!


quinta-feira, setembro 18, 2003

Para que serve a Universidade ?

Na Idade Média, época em que surgiu, a Universidade era o centro do saber. Para ela se dirigiam aqueles que queriam adquirir sabedoria, palavra que não tinha nenhuma relação com conhecimento técnico ou prático. A fama de ser o centro do saber é, talvez, o único resquício da instituição em nosso tempo. Todo o resto se perdeu. Mas nada é imutável, dirão alguns, e a dinâmica do nosso mundo exige adaptações freqüentes. É verdade, admito, mas o problema é que as mudanças transformaram a Universidade em algo monstruoso.

Se o fim não é mais teórico, mas prático, então os alunos deveriam sair dela capazes de exercer suas atividades profissionais normalmente. Não é o que ocorre. Ao terminar um curso universitário, nenhum estudante está apto para entrar diretamente no mercado de trabalho. Isso é tão verdadeiro que para alguns cursos, por exemplo, já há pós graduações que são praticamente obrigatórias, onde será feito o treinamento para que a pessoa se adeqüe à realidade do cargo que exercerá.

Mas se por um lado o aprendizado técnico é deplorável, o teórico não perde por pouco. O que ocorre é que o aluno nem adquire um conhecimento teórico que o torne mais sábio nem aprende a técnica que necessita para praticar em seu futuro emprego. Entre uma coisa e outra, o que se faz na Universidade é política. Essa instituição tornou-se um antro de revoltados, que não fazem a mínima idéia daquilo que estão defendendo.

O pior é que, como a fama de formar "sabidos" ainda persiste, os inúteis que de lá saem emitem opinião sobre tudo, e estas são levadas em máxima consideração. E muitos chegam a assumir altos cargos públicos, às vezes até a própria Presidência da República.

Outro dia assisti às aulas de alguns professores universitários candidatos à vaga de titular em suas disciplinas. Um deles deu uma aula quase poética, de grande beleza estética e profundo saber. Ali reconheci se não um professor, mas pelo menos um bom aluno das Universidades da Idade Média. Não precisa nem dizer que não foi o escolhido pela comissão julgadora. Escolheram um pesquisador, um daqueles sujeitos que não têm nenhum contato com os alunos e passa o dia todo enfurnado numa sala para reproduzir dados estatísticos que já são conhecidos de inúmeros outros trabalhos. Não produzem nada de original, apenas copiam o que se faz lá fora e adaptam às condições do nosso país.

Aliás, esse é um outro problema das atuais Universidades. Só valorizam o professor pesquisador. Não interessa se ele sabe ensinar ou não, o que importa é que faça pesquisa. Ora, o que tem a ver uma coisa com a outra ? Que ele esteja na Universidade, tudo bem, mas a função dele não é ensinar, a não ser que ele saiba fazer isso tão bem quanto pesquisar. No caso em questão, o que deu a melhor aula foi justamente o primeiro a ser preterido porque não expôs nenhum dado estatístico próprio, enquanto todos os outros o fizeram. O problema é que a vaga era para professor e não para pesquisador.

Para que serve então uma instituição que não é fonte de saber, não dá uma preparação técnica adequada, cujos professores são apenas pesquisadores e cujas pesquisas se repetem infinitamente e muito pouco acrescentam umas às outras ?

segunda-feira, setembro 15, 2003

Novos Tipos de Escola

Em Nova York foi inaugurada uma escola exclusiva para alunos homossexuais, bissexuais e transexuais. O diretor respondeu às críticas dizendo que "os estudantes de lá foram vítimas de abusos em suas antigas escolas." Apesar de achar muito mais fácil que eles tenham abusado de alguém do que terem sido vítima de abuso, a verdade é que muitos outros grupos também são motivos de chacota nas escolas. Por que essa exclusividade para os gays ?

Como futuro líder revolucionário, promotor da justiça social e defensor dos direitos das crianças, adolescentes e alunos alvos de chacota, proponho a criação de outros tipos especiais de escola :

- Escola exclusiva para feios
- Escola exclusiva para gagos
- Escola exclusiva para gordos
- Escola exclusiva para orelhudos
- Escola exclusiva para os cheios de piolho
- Escola exclusiva para meninos do pinto muito pequeno
- Escola exclusiva para os que usam chupeta
- Escola exclusiva para quem mija na cama
- Escola exclusiva para os filhos de pais que não votaram em Lula
- Escola exclusiva para quem vai à missa
- Escola exclusiva para quem toma mamadeira após os 7 anos
- Escola exclusiva para tímidos
- Escola exclusiva para quem respeita o professor
- Escola exclusiva para meninas adolescentes de pernas muito finas
- Escola exclusiva para quem gosta de música clássica ( há motivo maior de chacota ? )

Contribua você também para esta lista. Sugira uma escola especial e salve um ser humano de ser alvo de uma chacota. Pense : a próxima vítima pode ser seu próprio filho.

Os que desejarem contribuir com doações para esta campanha, entrem em contato por email.

O Intelectual

O intelectual típico é o sujeito que estuda com o único objetivo de arranjar desculpas para os seus pecados e só se realiza quando os vê disseminados entre a população. Alguns, às vezes, fazem algumas descobertas úteis na tentativa de realizar seu sonho, mas não se enganem, são apenas efeitos colaterais.

Neurose Coletivista parte II

A fuga da responsabilidade e o medo da liberdade são processos intrínsecos a todos aqueles que não conseguem enxergar um sentido na vida. Por isso, é esse o objetivo da psicoterapia empregada por Viktor Frankl : ajudar as pessoas a encontrarem o sentido concreto de suas existências.

O coletivismo, como não poderia deixar de ser, contém as 2 características citadas. Esse movimento estimula os homens a se absterem da responsabilidade pessoal e a não se incomodarem com a falta de liberdade, tudo em nome de um mundo melhor, quer dizer, de um mundo perfeito, como é característico dos neuróticos.

Vamos ouvir, mais uma vez, o psiquiatra austríaco : " O neurótico obsessivo é possuído por um impulso fáustico, por uma vontade de perfeição cabal, pela luta por um conhecimento cem por cento seguro e por uma decisão cem por cento correta. " Mas ao perceber que " a perfeição não é inerente ao homem ", " limita-se a algo pseudo-absoluto. O bom aluno só quer ter as mãos completamente limpas, a dona de casa zelosa só quer ter a casa toda asseada, e o trabalhador intelectual só quer ver a perfeita ordem do seu gabinete. "

Quem não entrevê nessas linhas um neurótico coletivista ? Ele vive lutando por um mundo melhor, mas nunca se conforma com os progressos feitos nessa direção. Então o que ele faz ? Transfere a questão para o campo puramente material e cria em sua mente uma maneira de transformá-lo para ficar exatamente da forma que gostaria. Não importa, a partir daí, que, para alcançar esse objetivo, seja preciso eliminar vidas e destruir tudo que há de nobre no ser humano. Se for presiso submetê-lo ao controle total do Estado, ceifando a raiz de sua liberdade, e transformá-lo em simples animal domesticado, ele não renunciará a empreitada por nada disso. Mas não se julga responsável pelas conseqüências negativas dessas suas idéias.

É a responsabilidade que limita a liberdade e esta é o fundamento daquela. Só pode ser responsável quem é livre e, para que se possa ser civilizadamente livre, é preciso ser responsável. Encontrando causas sociais e políticas para eximir os seres humanos da responsabilidade de seus atos, o coletivista cria a justificativa perfeita para extirpar a liberdade, porque um ser irresponsável não pode ser livre, precisa do controle de uma entidade superior, como o Estado. Cria-se, então, o ciclo vicioso, no qual a crença coletiva na incapacidade humana de ser responsável impossibilita a existência da liberdade, e, na ausência desta, perde-se o fundamento da responsabilidade.

Se o coletivista conseguisse encontrar um sentido concreto para sua existência, um objetivo próprio, individual, onde houvesse a consideração de valores morais e espirituais, e que não supusesse s necessidade de transformação do mundo inteiro para alcançá-lo, facilmente acharia um caminho para superar sua neurose. O grande problema é que as pessoas vivem em sociedade, e a neurose coletiva tem o agravante do reforço mútuo que cada coletivista, consciente ou não de sê-lo, dá um ao outro.

Atualmente, a coisa já atingiu um nível tal que mais parecem neuróticos aqueles que pregam a liberdade e a responsabilidade, de tão diferentes e esquisitos que ficaram estes aos olhos da maioria.

E quem não percebe também, na frase acima : " O neurótico obsessivo é possuído pela luta por um conhecimento cem por cento seguro ", uma característica emblemática da ciência moderna que, não conseguindo dar conta de todos os dados da existência, limitam-nos a uns meros ítens quantitativos e saem divulgando que estão perto de descobrir os segredos do universo e da vida ?

Como dizem, cada louco com sua mania.

domingo, setembro 14, 2003

A Confusão de Gleiser

Qual a causa da chuva ? A nuvem condensada. Não, a causa é o vapor d'água que se acumula nas nuvens. Não, a causa é a água da terra que se torna vapor. Não, a causa é ...
A causa última de qualquer fenômeno só pode ser abordada metafisicamente. Ao explicar como o fenômeno ocorre, nunca é a causa última que está sendo dada, mas sim causas secundárias, que constituem apenas explicações.

Neste artigo da Folha, Marcelo Gleiser propõe-se a responder se a Ciência é criação ou descoberta, e termina concluindo que é criação, mas por meio de um raciocínio falho, onde a confusão impera.

Começa muito bem, dizendo que "Newton descobriu as três leis do movimento - elas estavam lá, escondidas na natureza, esperando para serem reveladas pela mente certa." Mas depois analisa as explicações propostas por Aristóteles, Newton e Einstein para a existência da gravidade, e diz que elas são criações humanas para explicar o mesmo fenômeno. Depois conclui que "Ciência é uma construção humana, criada para que possamos compreender o mundo em que vivemos."

Ora, o método científico, ou seja, a forma como os cientistas trabalham para desvendar os fenômenos, são mesmo uma criação humana, mas tanto os fenômenos quanto as explicações para a sua ocorrência já existem, e cada vez que o homem aprofunda seu conhecimento apenas torna tudo mais claro. Não é errado dizer que a chuva é causada pelas nuvens condensadas, mas esta é uma explicação superficial. Há um grande avanço quando se sabe que esses vapores vêm da água da própria terra, e assim por diante. Dizer que o homem está criando alguma coisa ao fazer isso é no mínimo estupidez. Receio que Marcelo Gleiser no fundo não seja tão estúpido assim, apenas se utilizou de um artifício para aumentar a fé dos seus leitores na Ciência. Afinal, ela é o seu deus.


sábado, setembro 13, 2003

Neurose Coletivista Parte 1

Segundo Viktor Frankl, psiquiatra e neurologista austíraco, fundador da logoterapia, são 4 as causas da neurose coletiva que toma conta do mundo moderno :

1) Atitude de provisoriedade diante da existência
2) Atitude fatalista diante da vida
3) Forma de pensar coletivista
4) Fanatismo

Para resumir o que ele quer dizer com cada uma dessas coisas, deixo aqui seu próprio relato : " Enquanto o sujeito que assume uma atitude de provisoriedade diz que não é necessário agir nem tomar as rédeas do seu próprio destino, o fatalista diz a si mesmo : isso é totalmente impossível. [...] Enquanto o que assume a atitude coletivista ignora sua própria personalidade, o fanático ignora a personalidade do outro, daquele que pensa diferentemente. "

Talvez na época em que publicou sua obra, o rumo dos acontecimentos ainda não mostrassem com tanta clareza o que estaria já acontecendo ou por acontecer : o coletivismo absorveu todas as outras características citadas, de forma que podemos hoje, sem maiores dificuldades, imputar a esse fenômeno, a grande neurose coletiva que assola a humanidade.

É verdade que as outras 3 causas ainda existem independentemente, e é preciso ressaltar esse fato, pois às vezes encontramos quem combata o coletivismo, mas resvale nos outros erros. Esse é inclusive o maior problema dos que defendem a democracia como solução de todos os males.

Quando publicou seu artigo, Frankl atribuiu ao ocidente os 2 primeiros e ao oriente os 2 últimos. A verdade é que, hoje, o oriente já adquiriu do ocidente tanto a atitude de provisoriedade quanto fatalista diante da vida à medida que tornou a economia o patamar maior da existência humana, e o ocidente está dominado pela forma de pensar coletivista e fanática, bastando para isso examinar a obra de seus principais intelectuais. Não há mais faixa divisória, a neurose coletiva é mundial e as 4 características estão presentes em toda parte. No entanto, como já disse, é preciso enfatizar que é através da politização de todos os aspectos da existência, empunhada como bandeira coletivista pelos intelectuais contemporânesos, que todos esses males se difundem e cada vez mais se entranham nos cérebros e na alma das pessoas.

Não basta, entretanto, combater o coletivismo, é necessário saber como fazê-lo, pois, como demonstrou Olavo de Carvalho no seu artigo do dia 24 de abril no Jornal da Tarde, muitos que se opunham a ele, acabaram por contribuir para aumentar sua força e dar-lhe mais legitimidade.

É preciso que nos concentremos na origem do problema, que é apontada pelo próprio Viktor Frankl : " As quatro causas da neurose coletiva podem ser reduzidas à fuga da responsabilidade e ao medo da liberdade, que constituem a espiritualidade do homem. O ser humano está enfadado do espírito, e nesse enfado se encontra a essência do niilismo contemporâneo. "

E é exatamente sobre essa questão que trataremos na segunda parte desse modesto ensaio.

sexta-feira, setembro 12, 2003

Erro estatístico

De acordo com essa notícia , há 719 espécies de vertebrados ainda não protegidas. Mas é óbvio que o número correto é 720, pois não incluíram o homo carioca na lista. Será que não consideram o homo carioca um vertebrado ?

quinta-feira, setembro 11, 2003

Insistindo no jiló

A esquerda é como uma cozinheira que apostou que faria uma boa receita à base de jiló. Ela muda os ingredientes, o ponto de cozimento, a temperatura do forno, acrescenta água, tira água, coloca pimenta, e a receita continua ruim.

A esquerda apostou na visão do mundo através da luta de classes. Nunca desistiu disso. A partir daí, criou diversos tipos de socialismo, de social-democracia, adaptou-se à realidade econômica em alguns lugares, mas nunca, em hipótese alguma, pensou em desistir do ingrediente principal. O mais engraçado é que, depois de inventar várias receitas, ela já se conforma em não elaborar mais nenhuma, mas não quer perder o título de cozinheira, e não gosta que dêem risada dela.

E se derem mole, ela faz todo mundo comer da primeira receita, para aprenderem a respeitar os insistentes !

Na cidade do candomblé

Que Salvador é a terra do candomblé, todo mundo sabe, mas estão exagerando nessa idéia de manifestação. Não são mais apenas os espíritos que se manifestam nos Pais de Santo, mas estudantes, funcionários públicos, Sem-Terra, Sem-Teto, todo mundo. Se continuar assim, é melhor criar logo um dia para cada manifestação. Dá-se ao dia o nome do líder de cada entidade. Assim, pelo menos, a gente já sabe qual será a manifestação naquele dia e já se prepara. "Hoje acho que vou ao meu médico no Itaigara". "Ficou maluco ? Hoje é dia de Janjão, ele sempre se concentra por lá. Nem vá que vai perder seu tempo. Não vai passar nem cavalo, quanto mais ônibus e automóvel". "Está bem, então vou ao dentista". "Acho melhor !"

Conhecer

Conhecer é abrir presentes de aniversário. Você os desembrulha um por um, lentamente, e começa a lembrar da pessoa que o presenteou, dá uma risada e diz "só poderia ter sido ele". Ou então olha para a parede mais próxima, e o vê ali mesmo, comprando sua camisa predileta, com seu jeito especial de falar e de gesticular. Mas você pode também se jogar em cima deles, abarcá-los num só golpe e gritar "é tudo meu, é tudo meu", mas aí a analogia já será com o pseudo-conhecimento.

Conhecer é desembrulhar o mundo que Deus nos deu de presente, mas sempre lembrando e agradecendo a Ele. Todas as vezes que os homens esqueceram de Quem lhes deu o presente, fizeram mau uso dele. Mas a moda agora é rejeitar o presente e, ao invés de pedir para trocar, tentar transformá-lo naquilo que gostaria que fosse. É o cúmulo da ingratidão.

segunda-feira, setembro 08, 2003

Crise leva alemães à nostalgia do passado socialista

Que beleza, hein ?! É o que venho dizendo : se for esperar pela Europa, o terrorismo implantará um novo regime mundial.

Som de órgãos de igreja pode induzir 'religiosidade'

Depois de ler um artigo de Dawkins em que ele afirma que Deus seria a coisa mais complexa que existiria (quando qualquer iniciante em religião sabe que Deus é A Simplicidade), bato-me com este artigo, onde fica clara a incapacidade dos cientistas de entender a diferença entre religiosidade e sentimentalismo religioso. E ainda acham que podem promover pesquisas para esclarecer algo cujas premissas eles não compreendem. E o pior : pelo que parece, na pesquisa, não houve grupo controle. Que ótimo, conseguiram errar 100 %. É essa a ciência moderna. Aplaudam !

Homero e Os Pré-Socráticos

No livro " Corpo, Alma e Saúde ", Giovanni Reale demonstra como era entendido o conceito de alma na Grécia na época de Homero. Deixemos que o próprio autor fale: " A psyche nos poemas homéricos é a imagem do morto privada de consciência e de iteligência ", ou seja, " a psyche não é a idéia da vida enquanto tal, mas a idéia da vida-que-se-vai e particularmente a idéia do morto ". Não havia a idéia da imortalidade da alma, pois ela não era o eu do indivíduo, mas o que restava dele depois da morte, representando apenas o que ele foi. Por isso a imortalidade só era possível pela lembrança das realizações humanas, dos gestos heróicos.

Depois ele nos ensina que os gregos daqueles tempos não tinham a idéia de corpo como algo unitário que representasse o indivíduo. Enquanto vivo, o corpo só era compreendido na sua multiplicidade, ou seja, cada função vital designada na narrativa homérica simbolizava o todo do homem naquele momento. O bater do coração ou o golpe dado com o braço faziam esses órgãos representarem, no momento em que eram enfatizados, o homem por inteiro, isto é, cada parte simbolizava o todo em determinado momento. No dizer de Fränkel : " O homem identifica-se, portanto, com a sua ação, e se deixa compreender de modo completo e válido pela sua ação; ele não tem profundidades escondidas. [...] O homem homérico compreende-se muito mais no seu agir do que no seu ser. " O termo "soma" era usado para designar o organismo depois de morto, e só aí era visto de forma unitária, mas justamente por deixar de ter qualquer função. Por isso é que a idéia de corpo como algo único que representasse a imagem do indivíduo só foi possível depois que a alma passou a designar a personalidade de cada um, ou seja, "o ser", o que só ocorre com Sócrates. Isto significa que a idéia física do homem como um todo só surgiu depois da idéia de alma como, no dizer de Havelock, " espírito que pensa, isto é, capaz tanto de decisão moral quanto de conhecimento científico, e a sede da responsabilidade moral, algo infinitamente precioso, uma essência única no reino da natureza ".

Essa é uma fase belíssima da história humana, pois precede as conquistas fundamentais de Sócrates, Platão e Aristóteles. É uma época de transição. Os filósofos naturalistas exprimiam muito bem esse aspecto do seu tempo ao tentarem encontrar um elemento que fosse a origem de tudo. Esse empreendimento demonstra que eles já tinham uma visão unificada da natureza, ou seja, já concebiam a multiplicidade do mundo numa unidade, simbolizada como origem. Apesar disso, ainda não possuíam a idéia de consciência, ou seja, não eram conscientes de serem conscientes, por isso não poderia ainda haver conhecimento do tipo científico. Como bem enfatizou Olavo de Carvalho na sua aula 5 - Os Pré Socráticos - , não era bem filosofia o que se fazia naquela época, pois o tipo de conhecimento era mito-poético, mesmo que sua forma de apresentação houvesse passado da narrativa para a de lei geral.

Num determinado instante, essa vontade de ver a unidade na multiplicidade atinge o ápice em Parmênides, quando este enuncia que só existe o Um, negando o múltiplo. Só é possível superar a contradição intrínseca ao pensamento parmenídico quando o Um é visto com transcendente, o que só ocorre depois da idéia do homem também como ser transcendente, depois de Sócrates e, principalmente, Platão.

O que é incrível nisso tudo é a constante necessidade de conquistas espirituais antes que se pudesse realizar as conquistas físicas, pois o homem não apenas só consegue conceber a idéia de corpo vivo unitário após se compreender como alma transcendente, como não é capaz de alcançar um conhecimento científico antes de se libertar da visão materialista dos pré-socráticos.

Apesar disso, o homem moderno despreza todas essas conquistas e avança no conhecimento científico sem compreender que ele só foi possível devido à visão espiritual e transcendente do mundo dos 3 primeiros filósofos gregos. Relegando-os ao esquecimento, arvora-se a elaborar hipóteses para explicar a origem do universo que se aproximam cada vez mais da visão mito-poética dos pré-socráticos. Contentando-se com os resultados tecnológicos propiciados por suas teorias, o ser humano acredita estar no caminho certo, esquecendo-se desta máxima : " de que servirá ao homem ganhar o mundo inteiro se isso redunda em detrimento da sua alma ? ". É a verdadeira barbárie dos tempos modernos.

sábado, setembro 06, 2003

Chamando Atenção para Alberto Oliva

Um dos melhores textos que li ultimamente na internet foi do filósofo Alberto Oliva, no site do Diego Casagrande, que parece ter passado despercebido pela maioria das pessoas. Eis o trecho final :

Não somos infelizes, indivíduos e sociedades, por razões materiais e sim por não sabermos dar o devido encaminhamento espiritual a todas as faltas e privações - das objetivas às subjetivas - que tanto nos afligem. As histórias de vida são muito mais ricas que a história das coletividades. Cada pessoa, mesmo sendo simples parte do Todo, carrega dentro de si um universo de singularidades. Se uma espécie como a humana conseguiu iluminar com sua ciência um planeta condenado a noites trevosas, pode muito bem buscar formas de relacionamento mais ricas entre seus membros. Tudo depende de se propor a procurar, no universo de suas potencialidades, os tesouros do espírito.


quinta-feira, setembro 04, 2003

Seus problemas acabaram

Você está ganhando pouco ? Sua casa só tem um cômodo ? Você acha isso incômodo ? Não possui um bom terno ? Nem mesmo uma camisa surrada ? Perdeu o emprego ? Sua mulher engravidou de outro homem ? Seus dentes estão caindo ? O médico disse que seus dias estão contados ? Sua memória está tão ruim que nem consegue contá-los ? Perdeu o desejo sexual ? Foi o vizinho quem o alertou para isso ? Seu time está sendo rebaixado ? Os gases estão te matando ? Você não tem dinheiro nem para comprar Lacto-Purga ?

Seus problemas acabaram ! Chegou o Detector de Ônibus Esquisito. Basta que você reúna 5 amigos nessa mesma situação, detectem a passagem de um ônibus, de preferência em baixa velocidade, e se joguem na frente dele. A cidade inteira vai parar e o prefeito vai te conceder um belo aumento, vai te dar uma casa nova para morar, mandar o mais renomado médico da Europa cuidar de sua saúde e arranjar uma mulher linda, fiel e amorosa para ficar ao seu lado para o resto da vida.

Com o novo Detector de Ônibus Esquisito, você só não é feliz se não quiser !

Aproveite a promoção : na compra de um detector, você ainda ganha 2 porretes e uma máscara para poder bater à vontade nos guardas durante a confusão sem ser identificado.

Não seja apenas mais um cidadão : governe a sua cidade. Mas lembre-se : só o Detector de Ônibus Esquisito permite uma ação rápida e segura !

quarta-feira, setembro 03, 2003

Caos em Salvador

Há 3 dias, estamos impedidos de trabalhar em Salvador. Os estudantes das escolas públicas resolveram protestar contra o aumento da tarifa do transporte coletivo. A principal reivindicação, entretanto, é para que possam usar o smart card (que dá direito à meia passagem) também aos sábados, domingos e durante as férias. As autoridades já cederam e concordaram com o uso do cartão no final de semana, mas as paralisações continuam. A tática é a seguinte : jogam-se na frente dos ônibus, impedindo que estes continuem circulando. A balbúrdia é total, é óbvio. E é claro que está sendo organizado por membros dos sempre derrotados petistas ( que em Salvador não possuem a menor expressão política ). Não satisfeitos em se jogarem à frente dos ônibus , agora já fazem o mesmo com os carros de passeio. Um estudante já morreu e várias pessoas, inclusive senhoras, ficaram feridas.

E o pior ainda há de vir : os estudantes universitários já aderiram e o MST ( sim, o MST ! ) está se deslocando para a cidade para dar uma ajudinha. Os principais formadores de opinião estão a favor do movimento. O Jornal A Tarde, por exemplo, só publica que "Policial bate em estudante", "Estudante é atropelado", mas não faz nenhuma crítica à situação pavorosa que o povo soteropolitano está vivendo. Ao contrário, tenta minimizar o problema fornecendo horários em que determinadas ruas estão livres para a circulação, como se a pessoa não tivesse destino certo e pudesse ir para qualquer lugar no horário que os estudantes acharem que ela pode.

O povo, ao contrário da mídia e dos intelectuais de plantão, mostra-se cada vez mais irritado com a confusão, e já aparenta estar impaciente. Com todos que converso, a opinião é a mesma : estão passando dos limites.

O que me espanta é a reação a esse tipo de movimento. Bastaria fazer o seguinte : "Ah, vocês não querem ônibus não ? Tá caro ? Então os ônibus não circularão ! " Isso não daria nenhum prejuízo às empresas, pois as pessoas já não estão mais andando de ônibus mesmo, com medo de não poderem chegar ao local desejado e ainda ficarem perdidas no meio da cidade. Pronto ! Feito isso, os próprios estudantes seriam os primeiros a implorar pela volta do transporte coletivo, porque eu queria só ver se iam ficar sem assirtir ao BAVI na Fonte Nova. Ah , mas não iam mesmo ! Não ia ter fanático petista que desse jeito !

segunda-feira, setembro 01, 2003

Um post confuso

Como talvez dissesse um dia o Ruy Goiaba - se é que já não o disse -, ou tavez nunca dissesse nem o tenha dito - como diria o Caetano Veloso -, o Vinícius de Moraes foi, de certa forma, um precursor de Amado Batista. Acho que sim.