A Barbárie dos Tempos Modernos

segunda-feira, setembro 29, 2003

Coletivismo e Individualismo

No livro "Braz, Quincas e Cia", Antônio Fernando Borges procura chamar a atenção para o rumo que o mundo está tomando : o do coletivismo. Frases como "fui agredido a golpes de maioria" vão ficar para sempre em minha mente. Mas vamos ao que interessa.

É fácil discernir um dos grandes perigos do individualismo : o egoísmo. Aquele que se preocupa tão somente consigo mesmo e está pouco se importando com os outros não é, com razão, nem um pouco venerado em nossa sociedade. No entanto, muitas vezes, mesmo possuindo essa característica, ele é obrigado a contribuir com os outros. Por exemplo, um empresário, por mais egoísta que seja, se for bem sucedido em sua atividade, não terá como prosperar sem oferecer empregos em quantidades cada vez maiores. É assim que o interesse particular, por mais extremado que seja, contribui sempre para o bem comum, mesmo que involuntariamente.

O cúmulo do individualismo, entretanto, não é um egoísmo exacerbado, como muitos pensam. O que pude apreender do livro de Antônio Borges é que o cúmulo do individualismo é a idéia de coletivismo. Sim, parece paradoxal, mas é a mais pura verdade. O sujeito que se reconhece como indivíduo particular sabe das responsabilidades que lhe são atribuídas dentro da sociedade. Por mais egoísta que seja, se for honesto consigo mesmo, saberá tanto se vangloriar pelas vitórias quanto arcar com os prejuízos das derrotas, tanto se enaltecerá com os acertos quanto pagará pelos erros.

Agora tracemos o perfil daquele que vê no coletivismo a solução para os nossos males. Esse sujeito tem horror à responsabilidade individual. Acha que é um mecanismo supra-individual que governa o mundo. Exemplifiquemos. Após o atentado que quase lhe tirou a vida e o deixou paralítico, o baterista Marcelo Yuka disse que quem atirou nele foi, na verdade, a desigualdade econômica. À primeira vista, parece uma frase comovente, de um sujeito altamente compreensivo, capaz de perdoar seu próprio algoz, apesar da situação em que se encontra. Analisando o caso mais de perto, é fácil perceber que não é nada disso. Ele só perdoa o criminoso porque acha que a culpa não está nele, pois ele é apenas um fantoche nas mãos da "desigualdade econômica". Daí pode-se deduzir 2 coisas : 1) O baterista consegue a façanha de reduzir um criminoso a algo muito pior que isto : um nada. Se como criminoso, ele permanece sendo um ser humano, como marionete de um ente coletivo chamado "desigualdade econômica", e portanto, incapaz de ser consciente e responsável pelos males que comete, torna-se um nada ; 2) Se o culpado pelo crime fosse o atirador, o músico só teria 2 opções : a) entregar à justiça a punição do criminoso ou b) vingar-se pessoalmente dele. Na primeira situação, restar-lhe-ia apenas se conformar com sua nova forma de vida e buscar força interior para vencer mais esta dificuldade. Na segunda, ele buscaria na morte do seu algoz o alívio para sua dor, e certamente não encontraria. Além do mais, seria uma escolha extremamente arriscada e que exigiria muita coragem, pois colocaria sua vida mais uma vez em risco.

Entretanto, como a verdadeira culpada pelo crime é a "desigualdade econômica", e esta não é ninguém em particular, as hipóteses a e b estão descartadas, livrando Marcelo Yuka tanto da necessidade de buscar apenas em si as forças para se reerguer quanto do perigo de enfrentar pessoalmente gente tão temível. Essa concepção lhe dá a vantagem de ter todo o direito de se colocar contra a sociedade, pois foi ela quem produziu a desigualdade econômica que permitiu que ele se tornasse paralítico. Dessa forma, se ele se tornar um inconformado com a vida, tentar o suicídio ou virar um narcotraficante, não é responsabilidade dele, mas sim do "sistema", que justifica plenamente suas atitudes. Mas isso é não é nada. Pior será se ele se tornar um militante do coletivismo, espalhando por aí estas mesmas idéias, ajudando a "justificar" a existência de milhares e milhares de assassinos e tirando a culpa de seus ombros para colocar na "desigualdade econômica".

Sei que Marcelo Yuka pode muito bem ser uma pessoa maravilhosa, que não tem a menor noção das implicações de sua concepção, mas, conscientemente ou não, são todos esses males que ele produz ao divulgá-la, e ainda mais, se se engajar nesta causa, porque aí o seu individualismo estará sendo tão extremo que ele só conseguirá vislumbrar seu futuro se puder transformar o futuro de toda a humanidade e moldá-lo do seu jeito.

Este sim é o cúmulo do individualismo.