A Barbárie dos Tempos Modernos

segunda-feira, outubro 06, 2003

A Inteligência e a Moral

Obs : Este é um texto antigo. Já não concordo plenamente com ele, mas resolvi postá-lo porque pode dar origem a uma boa discussão.

Foi Kant quem separou definitivamente a Inteligência da Moral ao escrever " A Crítica da Razão Pura" e a "Crítica da Razão Prática". No primeiro ele discute a maneira como a razão humana capta a realidade, no segundo explica que o ser humano tem uma necessidade interior de um senso de moralidade. Por ser o filósofo mais influente do mundo moderno, essas suas conclusões se tornaram axiomas. Assim como Descartes mutilou o homem separando a mente do corpo, também o fez Kant ao introduzir essa nova faixa divisória. Essa é a grande tendência dos últimos 300 anos : simplificar, reduzir e dividir para entender melhor. Realmente facilita a compreensão ... de algo que não existe.

Ao criticar, certa vez, o povo da sua época, Jesus disse : "Odiais a quem deveríeis amar e amais a quem deveríeis odiar". Como isso, Cristo já salientava o quanto é importante a união entre a Inteligência e a Moral. A moral do seu povo estava totalmente deturpada porque as pessoas não sabiam distinguir o certo do errado, o que depende, em parte , do conhecimento e da inteligência. O contrário também é totalmente verdadeiro, ou seja, muitas pessoas que julgamos inteligentes são verdadeiras toupeiras, pois lhes faltam qualquer senso de moral. Atualmente , um sujeito espertinho, que consiga subir na vida passando por cima de tudo e de todos, é tido como inteligente, apesar de reconhecermos a sua maldade. Não é nada disso ! Se ele é mau, não pode ser inteligente, pois a captação da realidade depende de uma consciência una, integrada. Para realizar as suas maldades, o homem precisa mentir, deturpar, inverter e transformar completamente as coisas, o que as torna totalmente irreais. Ele começa fazendo isso achando que está prejudicando apenas os outros, mas a sua mente se condiciona a pensar dentro daquele mecanismo viciado e não consegue mais enxergar o mundo como ele é verdadeiramente. É claro que isso não significa que ele não terá recompensas materiais pelos seus atos, mas, com certeza, tornar-se-á um ser humano inteiramente burro, a não ser que o critério de inteligência passe a ser a quantidade de bens e de poder que se adquire. Não será mais capaz de fazer distinções elementares entre o bem e o mal. Inteligência é a capacidade de compreender as coisas como elas são. Quem ganha rios de dinheiro, mas não sabe que um caqui é um caqui e uma maçã é uma maçã não pode ser considerado inteligente. Aliás, é por isso que existe o ditado : " De boas intenções, o inferno está cheio ". Ou seja, lá estão tanto os que fazem o mal em nome do bem por não saber distingui-los desde o início, como também os que perderam a capacidade de fazê-lo por deturparem a realidade por vontade própria. Não sei se ficou claro, mas esse é um ciclo vicioso : quanto mais a pessoa faz o mal, menos entende a realidade, e quanto menos entende a realidade, mais pratica o mal. Não pode haver entrelaçamento maior entre uma coisa e o outra. Somente uma filosofia desprovida do conhecimento das grandes tradições poderia ignorar algo tão simples.

E aí vem o problema maior : separando uma coisa da outra, o homem moderno obrigou-as a se desenvolverem independentemente. Hoje, a moral é um consenso, e a inteligência a capacidade de raciocinar. Então, o ciclo vicioso entra em cena novamente : a moral é um consenso entre pessoas que julgam que ela pode existir sem a inteligência, e que , por isso mesmo, julgam ter uma inteligência que não têm, ou seja, a moral é um consenso entre pessoas burras, e por isso mesmo imorais. Como pode, então, a moral sobressair de um consenso imoral ? Já a inteligência, vinculada apenas à razão, não pode nunca ser inteligência, pois, desvinculada da moral, raciocina em cima do que não existe.

O que é mais engraçado é que ainda há quem estranhe que o mundo esteja de cabeça para baixo. Não haveria mesmo como estar de outra forma.