A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, novembro 29, 2003

Duas de Viktor Frankl

Do homo patiens

"Situado diante do abismo, o homem vê a profundidade, e o que ele percebe no fundo do abismo é a estrutura trágica da existência. O que se lhe revela é que a existência humana, em última instância, é uma paixão, que a quintessência do homem consiste em ser uma pessoa que sofre, um homo patiens.

Qual era a imagem do homem na moldura bioligicista ? O mamífero mais superiormente desenvolvido ? O mamífero que se deslumbrou com o andar ereto ? Seu imperativo consistia em sapere aude; ousa ser razoável ! Pois bem, ele ousou. Ousou absolutizar a razão; o iluminismo converteu literalmente a ratio em deusa.

A essa imagem biológica do homem, nós opomos uma imagem noológica. Ao homo sapiens opomos o homo patiens. Ao imperativo sapere aude, opomos o pati aude, ousa sofrer !

Essa ousadia, essa galhardia diante do sofrimento, eis o que importa.

Desse modo, a realização de valores atitudinais se revela verdadeiramente como a realização do sentido possível do sofrimento necessário.

O escapista foge do sofrimento necessário. O masoquista procura o sofrimento desnecessário.

Em que consiste, pois, a essência do masoquismo ? Ele falseia o desprazer transformando-o em prazer. Em contraponto ao masoquista, está o homem que converte o sofrimento em ação. Eqüidistante do masoquismo e do escapismo, esse homem propende ao sofrimento, em oposição ao escapista; todavia, não propende a ele como o masoquista, como um fim em si; pois, ao propender ao sofrimento, já o transcende, perseguindo, por meio do sofrimento, aquilo em sacrifício do qual ele sofre, numa palavra, sacrificando-se. Com essa dádiva do sentido do sacrifício, ele transpõe o sofrimento, do nível do fáctico para o nível do existencial."

Do homem espiritual

"Todo humano é limitado. E só é realmente humano à medida que se eleva sobre sua própria limitação, superando-a e, portando, transcendendo-a. Desse modo, um homem em geral só é um homem porque - como ser espiritual - está acima do seu ser corporal e psíquico.

O homem, como ser espiritual, não só se encontra confrontado com o mundo - tanto com o meio ambiente como com seu mundo interior - como também toma posição diante dele. Em qualquer momento de sua existência, o homem toma posição tanto em relação ao meio ambiente natural e social, como diante do mundo psicofísico vital. Designamos exatamente como espiritual no homem aquilo que pode se confrontar com todo o social, o corporal e inclusive o psíquico nele. Por definição, o espiritual é só o livre no homem. Chamamos "pessoa" só aquilo que pode se comportar livremente, sejam quais forem as circunstâncias. A pessoa espiritual é aquela parte do homem que se pode confrontar sempre e a qualquer momento.

Não tenho necessidade de tolerar tudo de mim mesmo. Posso me distanciar daquilo que se encontra em mim, não só do psíquico normal, mas também, até certo ponto - dentro de limites flexíveis - , do psíquico anormal que existe em mim. Assim, não sou categoricamente dependente de coisas como, por exemplo, o tipo biológico que represento ou o caráter psicológico. Pois um tipo ou um caráter, eu simplesmente "tenho", ao passo que o que eu sou é a "pessoa". E esse meu ser pessoa significa liberdade, liberdade para transformar-se em personalidade. Liberdade para ser assim e liberdade para transformar-me em algo diferente."

Quem conhece a biografia de Viktor Frankl, pode comprovar que este foi um homem que sabia do que estava falando.

quinta-feira, novembro 27, 2003

PIB zero X PIB oito

A grande maioria dos habitantes do país do PIB zero não gosta do país do PIB oito. Eles não sabem exatamente por que, o fato é que não gostam. Gostam de sua comida, de sua bebida, de seus filmes, mas não gostam do país. Provavelmente porque o PIB de lá é grande demais. Para que um PIB tão elevado assim ? Só para aparecer ? É mesmo muito exibido esse país do PIB oito ! E mais : deve dar um trabalho danado para carregar ! O PIB zero não ! É tão levinho e pequeno que cabe até num porta-brincos.

Os do PIB zero dizem que o povo de lá nem se aproveita de um PIB tão grande. Apostam que eles até devem achar ruim. Isso mesmo ! Um PIB tão exagerado deve fazer mal para a coluna, ou provocar vertigem, sabe-se lá !

Já a gasolina é motivo de orgulho para os habitantes do país do PIB zero. Sim, sim, motivo de orgulho ! Porque a empresa que monopoliza a exploração da matéria-prima do produto deu mais lucro que grandes empresas do país do PIB oito. O fato do povo do país do PIB zero só sair perdendo com esse monopólio, e o fato da empresa lucrar tanto se dever justamente à falta de concorrência e isso gerar um preço muito maior do combustível é irrelevante. O importante é que o pibinho ganhe do pibão em alguma coisa. Afinal, esses babacas do PIB oito precisam saber com quem estão lidando !

Um blog irregular

Meu amigo Flamarion certa vez escreveu um post em que dizia que todo blogueiro tinha o sonho de ser cada vez mais acessado, que todos tinham o objetivo de ficar cada vez mais conhecidos. Não nego que dou uma olhadinha no contador pelo menos uma vez por semana, mas não é com isso que me importo. Construí um blog para fazer amigos. E já fiz alguns, incluindo o próprio Flamarion.

Não fiquei nem um pouco feliz, por exemplo, quando houve um número extraordinário de acessos a este blog de pessoas provenientes do Google procurando por uma imagem de Preta Gil nua. Até me arrependi de ter feito uma crítica ao seu comentário sobre a foto da capa do cd.

Também não quero que as pessoas pensem que sou um expert nos assuntos que comento. Às vezes escrevo justamente para ser contestado, para ver se devo reavaliar meu ponto de vista. Só não admito que deixem de discutir o assunto para me agredirem pessoalmente.

Sou meio preguiçoso e não tenho muito tempo para escrever, mas faço um esforço para não ficar muito tempo sem postar. Não tenho a mesma criatividade nem o talento de tantos outros, por isso às vezes o nível dos posts cai bastante.

No momento, por exemplo, estava pensando em redigir um pequeno ensaio comparando a filosofia de Leibniz com a de Descartes. Mas cadê tempo ? O máximo que saiu foi isso aqui mesmo.

quarta-feira, novembro 26, 2003

Só há um tipo de arte na qual os brasileiros são imbatíveis : na arte de empobrecer a arte. Em todos os sentidos, é claro !

terça-feira, novembro 25, 2003

Para rir no fim de semana

Se você anda tristonho, cabisbaixo, deprimido, não há solução melhor : compre América Latina - Uma história de sangue e fogo, de John Charles Chasteen. Tenho certeza que seu bom humor retornará quase instantaneamente.

Deixo aqui 2 trechos da fabulosa página 259 :

As reformas neoliberais reduziram os gastos governamentais, um passo rumo ao equilíbrio dos orçamentos nacionais e à redução da dívida, mas a um alto custo social. Os subsídios, as indústrias protegidas, as estatais e as grandes burocracias criadas pelos nacionalistas na América Latina eram ineficientes, sem dúvida. Mas também proporcionavam um meio de vida para milhões de pessoas que os neoliberais deixaram desempregadas.

As companhias telefônicas privatizadas melhoraram as telecomunicações para quem pode comprar um telefone, mas comprar um telefone tornou-se mais difícil para muitos.


E esse trecho da não menos espetacular página 222 :

A Revolução Cubana tornara-se um símbolo potente para jovens de todo o hemisfério. Somente os mais ferrenhos anticomunistas não sentiam satisfação vendo um Davi cubano enfrentar o Golias norte-americano.

Divirtam-se.

segunda-feira, novembro 24, 2003

Sem censura, é mais gostoso

Se você não viu porque não deixaram, aproveite para não ver por vontade própria. É muito mais saboroso.

sábado, novembro 22, 2003

Duas de Oswaldo

Seja lá o que achem de Oswaldo Montenegro e de sua música, o fato é que ele tem algumas tiradas muito boas, como essas :

Quando vejo aquelas pessoas na praia, tomando cerveja numa mesa de bar sob o sol de meio dia, com o corpo todo banhado de suor, tenho saudades da Irlanda, onde nunca estive.

A impressão que tive quando fui fazer um show em Salvador foi a de que ele aconteceria de qualquer jeito; se eu ia cantar ou não, era apenas um detalhe a mais.

Sobre a última, posso dizer, por experiência própria, que a impressão que dá é exatamente essa.

quinta-feira, novembro 20, 2003

Os Orgulhos da Revolução Científica

Um dos maiores orgulhos dos indivíduos responsáveis pela Revolução Científica era o de terem tornado o saber uma coisa pública, não mais algo exclusivamente restrito a iniciados, que precisavam adquiri-lo com as pessoas certas e na hora certa, como acontecia na Idade Média. A linguagem usada passou a ser a mesma - a matemática - e os experimentos eram reprodutíveis, de forma que o conhecimento pôde se difundir rapidamente.

Mas, atualmente, nenhum cientista pode mais se gabar disso. A excessiva especialização da ciência formou inúmeros guetos dentro dela, onde tanto a linguagem quanto os experimentos só são totalmente compreensíveis pelos poucos iniciados que se interessaram em entendê-los. O debate e a troca de conhecimento entre cientistas de diferentes áreas tornou-se cada vez mais complicado, pois os termos usados são cada vez mais específicos à sua área de atuação.

Outro grande orgulho desses cientistas revolucionários era o de terem demolido a ingênua visão do mundo de origem aristotélica, em que havia uma nítida divisão entre o mundo sub-lunar e o supra-lunar, pois conseguiram mostrar que ambos eram constituídos da mesma matéria e estavam submetidos às mesmas forças.

Mas, depois desse trabalho todo, concluíram que o Universo funcionava como um mecanismo de relógio, e que bastava que o homem adquirisse o conhecimento de algumas tantas variáveis, para que se deduzissem todas as outras, e não haveria mais quase nenhum segredo a ser descoberto. Alguns podem discordar de mim, mas essa hipótese é infinitamente mais ridícula e tola que a do mestre grego.

Também os orgulhosos cientistas se gabaram de terem tornado possível um rápido progresso da ciência ao eliminarem do seu campo de investigação os fatores sensíveis não quantificáveis ou não mensuráveis. Disseram isso sem o mínimo remorso de terem desistido de um tipo de conhecimento muito importante para o homem, pois é principalmente através dessas sensações que ele se comunica com o mundo. Ao contrário, anunciaram que agora a ciência cuidaria apenas da "realidade objetiva".

Depois tiveram que voltar atrás quando a Física Quântica nos revelou que o experimento envolvia o experimentador. Houve choro e ranger de dentes, e o próprio Einstein, um dos que mais havia contribuído para que se chegasse àquele resultado, teimou em não acreditar nele.

Estou aqui debochando da ciência ? De forma alguma. Apenas estou tentando mostrar o quanto faltou de humildade a esses cientistas revolucionários. Estou aqui desprezando os benefícios trazidos por ela ? Também não, apenas enfatizo que o bem-estar material não é tudo, e é preciso lembrar que até hoje nada do que essa ciência produziu se compara aos benefícios espirituais gerados a partir da sabedoria dos 3 maiores filósofos gregos. A metafísica que produzem, tanto eles próprios quanto os filósofos modernos - que partem de premissas científicas - parece brincadeirinha de criança perto da monstruosidade que foi a época de ouro da Grécia.

E que não se esqueça que todo o conhecimento científico alcançado até hoje deve quase tudo a Aristóteles, que criou e estudou boa parte das ciências ainda em prática hoje.

terça-feira, novembro 18, 2003

As Crianças no Poder

Quem já teve a oportunidade de conviver com uma criança de 5 anos, sabe como ela reage a críticas e derrotas : "seu chato, não quero mais brincar com você", ou então "eu sei sim, você que não sabe, seu burro; não fale mais comigo".

E são essas crianças que nos governam hoje.

Criticado pelos petistas, assim reagiu José Dirceu : a culpa é da imprensa. Seus chatos, não falo mais com vocês, viu ? Vou brincar de trenzinho sozinho ! Nem venham que o brinquedo é meu !

E nosso presidente, quando Parreira reagiu às suas críticas à seleção brasileira : a culpa é da imprensa. Seus chatos, não falo mais de futebol com vocês. E me dê a bola que fui eu que comprei. Pronto, ninguém mais vai jogar !

E nós temos que assistir a esses bebês chorões espernearem. Haja paciência !

segunda-feira, novembro 17, 2003

Ah Se Os Guias de Turismo fossem Jornalistas !

Em minhas poucas viagens pelo Brasil, pude constatar uma coisa : os guias de turismo não estão contaminados pelas 2 principais bactérias que infectam o cérebro nacional : Marx e Gramsci, pelo menos no que se refere ao exercício de sua profissão.

É impressionante como eles nos dão informações detalhadas sobre certos aspectos da história do Brasil que estão sendo solenemente omitidos dos livros didáticos e da fala e da escrita dos principais articulistas brasileiros.

Em minha viagem a Porto Seguro, por exemplo, o guia expôs toda uma intricada articulação feita por uma ONG para lucrar com a posse de uma determinada área que, segundo ela, necessitaria de proteção ambiental.

Tentarei reproduzir aqui o que disse o guia :

" Há algum tempo, uma ONG conseguiu para si uma reserva de Mata Atlântica, com a justificativa de que os moradores estavam destruindo as plantas locais e acabando com o que restava dessa Mata. Pois bem, cercaram o local e proibiram a entrada, que era livre. Só eles tinham acesso ao lugar. Então, depois desse ato de imensa bondade, contrataram um laboratório alemão para explorar o lugar e fabricarem medicamentos a partir de algumas espécies da Mata. Lucraram milhões com o negócio e o laboratório fabricou um medicamento que hoje é vendido para o Brasil por um horror de dinheiro. Quem saiu perdendo ? O Brasil, que não pôde explorar a Mata, porque a ONG achava um absurdo destruir as pobres plantinhas, e ainda teve de pagar por um medicamento que poderia ser produzido aqui mesmo, e a baixo custo. Mas só quem poderia destruir as plantinhas era o laboratório alemão, pois iriam pagar uma boa soma de euros, enquanto os laboratórios brasileiros não iriam pagar nada à ONG, pois a terra não era dela, só ficou sendo porque o idiota do governo acreditou no conto de carochinha e cedeu as terras para serem protegidas pelos espertinhos da ONG. "

Agora, digam-me vocês, quantos jornalistas já leram que tenham escrito algo que não fosse para elogiar uma ONG ecológica ? E quantos procuram saber os verdadeiros interesses dessas organizações e as conseqüências de suas atuações ?

Esqueçam os jornalistas. Querem saber o que se passa no Brasil ? Procurem um guia de turismo.

Avisos :
O César agora também é um wunderblogger.
Vale a pena conferir o Zadig - já está aí do lado.
O Fabio Ulanin está de volta, com a mesma classe de sempre.

sábado, novembro 15, 2003

Diversidade Sexual

Sempre achei que a única forma de diversidade sexual é o heterossexualismo. Afinal, apenas os heterossexuais fazem sexo com pessoas de outro sexo. O homossexualismo, por exemplo, é um caso óbvio de uniformidade sexual. Quando Roger canta que gosta de mulher e Ana Carolina repete a mesma coisa, não é uma chatice ? Tudo bem, seria uma chatice de todo jeito, mas assim fica maior ainda.

Os bissexuais e os transexuais também não podem fazer sexo com pessoas de outro sexo, porque, de alguma forma, o sexo delas também é um pouco do seu, se considerarmos tudo do ponto de vista psicológico, como querem os moderninhos.

Portanto, isso aqui é, na verdade, uma tentativa de uniformização sexual, e não o que a manchete indica.

quinta-feira, novembro 13, 2003

Da Série Diálogos

- Meu problema é a Pressão Alta, doutor
- Você caminha ?
- É claro, o senhor mesmo viu. Eu entrei aqui caminhando.
- Não, não. Estou perguntando se pratica caminhadas regularmente.
- Bem, eu caminho todo dia. Vou e volto do trabalho andando.
- Não, não serve. O senhor tem que tirar uma hora só para isso. Sem destino, apenas andar por andar.
- Para que ? Eu gosto de caminhar quando estou indo para algum lugar. Sem ter aonde ir, perde todo o sentido.
- Mas é para sua saúde !
- Acho muito mais saudável caminhar para chegar a algum lugar do que caminhar em vão. Sair andando por aí é coisa de maluco.
- Assim o senhor não está colaborando. Sem caminhar, sua Pressão não vai baixar.
- Está bem, onde o senhor quer que eu caminhe ?
- Sei lá, o senhor que escolhe o lugar.
- Espere aí. Se qualquer lugar serve, estão vou escolher o trecho da minha casa para o trabalho.
- Já disse que esse não serve !
- Mas o senhor não tinha dito que eu poderia escolher ?
- O senhor já está me irritando ! Se não quer caminhar, não caminhe ! Pelo menos, tome a medicação.
- Sim, sim, vou tomar. Posso caminhar dentro da casa de praia da Regina ?
- Claro que pode !
- Então vou logo avisar à minha mulher. Ela detesta a Regina, mas sabendo que é para minha saúde e que foi o senhor que mandou, talvez ela não se incomode ...

terça-feira, novembro 11, 2003

Jogo da Verdade

Começou a brincar assim que ganhou aquele estranho presente.

Cada jogador apagava um país do mapa e apareciam na tela as conseqüências daquela retirada. O objetivo era tentar manter a ordem mundial mesmo sem aquela nação.

Mas começou a achar estranho quando apagou a Inglaterra. Porque foi até a cozinha e todos os seus eletrodomésticos haviam desaparecido. Colocou-a de volta e deu mais uma olhada : estavam todos lá novamente. Quis fazer mais um teste : apagou a África inteira. Nada aconteceu. Foi um delírio, então ! Espere aí, agora o Brasil. Nada !

Ele sabia que não devia, mas não resistiu : apagou os EUA e o joguinho sumiu.

segunda-feira, novembro 10, 2003

Causas da Perda de Sentido da Vida

Em um dos seus vários livros, Viktor Frankl nos diz : "Hoje a frustração existencial desempenha um papel mais importante do que nunca. Pensemos simplesmente o quanto o homem de hoje sofre não só com a perda progressiva do instinto mas também com a perda da tradição : na dimensão vital, as missões da vida são determinadas por instintos, e na dimensão social por tradições. Mas, ao homem que foi expulso do paraíso, onde havia abrigo e segurança proporcionados pelos instintos, e especialmente ao homem atual, que além da perda de instintos ficou entregue a si mesmo depois da perda da tradição, não é indicado pelos instintos o que ele tem que fazer nem pelas tradições o que ele deve fazer : a sua busca de sentido ainda lhe diz que ele quer o dever. Mas ele freqüentemente não sabe mais nada o que deva querer. É o vácuo existencial, o vazio interior e a falta de conteúdo, o sentimento de perda do sentido da existência e do conteúdo da vida."

Aqui se encontram as causas, sendo a primeira a perda dos instintos. Em verdade, esta não é bem uma causa, mas algo intrínseco ao ser humano, que o diferencia dos outros animais. Estes são guiados pelos instintos, e tudo que fazem depende deles. O homem, sendo um animal racional e espiritual, não pode se guiar exclusivamente pelos instintos, pois ele é capaz de julgar e entender as conseqüências dos seus atos. Ou seja, para o ser humano a pura inocência do animal não pode mais ser aplicada devido a sua própria estrutura ontológica. O próprio Frankl, citando Novalis, explica-nos melhor isso : "no caminho de seu desenvolvimento ascendente, a escada pela qual o homem subiu veio abaixo - já não há volta para a existência puramente animal. Em outras palavras : o puramente natural seria para o homem o menos natural." Mais adiante, ele encerra a questão : "a natureza do homem é completamente espiritual, e quando não o é decaiu ao nível do não espiritual, que não pode ser confundida com a não-espiritualidade do animal." Em síntese : a perda dos instintos é própria do ser humano, e não um defeito. Ela retira dele a inocência pura dos animais, mas injeta-lhe responsabilidade e possibilita que ele penetre no campo espiritual e encontre a Deus.

E é aí que entra a verdadeira causa do vácuo existencial que assola a modernidade : a perda das tradições. O homem moderno perdeu seu principal guia. Quando separou a inteligência da moral, o homem também separou o espírito da razão. Eles se encontravam unidos nas tradições. Hoje o homem se guia unicamente pela razão, sem entender que ela sozinha, sem uma base onde se sustentar, é o puro caos. E essa base é o espírito. É ele que faz o homem perceber a eternidade e a imutabilidade que sustenta a transitoriedade da vida. Enfim, é ele que nos possibilita ter fé em Deus.

É por acreditar nele próprio como orientador que o ser humano de hoje resolve tudo em convenções : convenciona-se o que é moral e o que é imoral, o que é certo e o que é errado, baseando-se nas opiniões de um ser reconhecidamente defeituoso. Não é de admirar que essas convenções mudem constantemente e que a imoralidade de hoje se torne a moralidade de amanhã. Um ser que pretende ter como guia a transitoriedade e o defeito é um ser que abdica de encontrar a verdade. Eu não quero dizer que aquele que se guia pelo espírito seja perfeito. O que quero enfatizar é o óbvio : a busca da verdade tem que tomar por pressuposto a própria existência da verdade. E acreditar na verdade é acreditar numa única verdade, ou seja, não podem existir duas ou mais verdades, pois uma anularia a outra, nem pode a verdade mudar de uma hora para outra, pois também deixaria de ser a verdade. Portanto, a existência de Deus, Verdade única e imutável, não é apenas lógica e necessária, ela é essencial para que o homem acredite nele próprio.

Portanto, a perda das tradições, ou seja, a impossibilidade de se guiar pelo espírito, tornou o homem um nada. Não podendo voltar a se guiar pelos instintos, pois a sua condição de ser humano o impossibilita, nem podendo ter a Verdade como orientadora, o homem moderno se perde num labirinto de contradições, tendo que buscar consolo na própria transitoriedade da vida.

domingo, novembro 09, 2003

O deus de Descartes

O deus de Descartes era mais necessário para salvar o próprio filósofo do que para salvar o mundo.

Liberdade e Escravidão

Quem louva a Deus, ganha a liberdade. Quem louva ao homem, torna-se seu escravo.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Sobre a prova da existência de Deus - segunda parte

Quando disse que a primeira condição para que se possa provar algo a alguém é a de que esse alguém considere possível a existência daquilo que se possa demonstrar, Fábio Danesi Rossi respondeu que "só é possível provar algo a alguém se este alguém estiver disposto a admitir a possibilidade da improbabilidade do objeto". Isso é verdade na maioria das vezes, mas nem sempre. Se admitirmos que temos que duvidar de tudo, cairemos no erro de Descartes. Há coisas que temos certeza que existe, e essa certeza depende do grau de conhecimento do indivíduo. Quando alguém tenta provar a outro que o homem foi à lua, por exemplo, só um deles tem dúvida, o outro tem certeza do que está dizendo. Mas se o que não acredita no fato disser que nada o convencerá do contrário, então não adianta ninguém tentar convencê-lo.

Então, na verdade, para haver uma discussão, é necessário que pelo menos um deles esteja em dúvida e que pelo menos um deles admita a possibilidade daquilo existir. Sim, porque se os 2 não tiverem nenhuma dúvida ou se os 2 tiverem certeza do que estão dizendo, então não há sobre o que discutir.

Neste caso específico, vou explicar por que, na minha introdução, não me referi à questão levantada pelo Fábio. O problema é que aquele que acredita em Deus não pode ter dúvida sobre isso, porque, se tem dúvida, é porque não acredita. Então, poderiam me dizer : "mas quem não acredita também pode alegar que não acredita e pronto !" É verdade, mas não estará fazendo isso porque seja intrínseco ao fato de não crer em Deus, mas por vontade própria, enquanto o crente não pode ter dúvida sem, intrinsecamente, declarar que não acredita em Deus. O que isso significa ? Que só pode haver discussão sobre a existência de Deus em 2 casos : 1) Entre 2 pessoas que não acreditam Nele, mas que admitem que Ele possa existir; 2) Entre uma pessoa que tem certeza que Ele existe e outra que não acredita mas admite que Ele possa existir. Não pode haver discussão nem entre uma que tenha dúvida da Sua existência e outra que tenha certeza da Sua inexistência, nem entre uma que tenha certeza da Sua existência e outra que tenha certeza da Sua inexistência.

Então quer dizer que quem acredita em Deus é intransigente ? Não ! Quer dizer que é impossível crer em Deus e, ao mesmo tempo, colocar em dúvida a Sua existência, porque uma coisa implica na negação da outra.

Nós, crentes, só podemos discutir com aqueles que estão em dúvida sobre a existência de Deus. Aqueles que têm certeza de Sua inexistência não aceitarão nenhum argumento em contrário.

E é aí que a coisa fica interessante, porque, pelo argumento de Santo Anselmo, a simples admissão da possibilidade de Deus existir, já implica que Ele existe. E o argumento é irrefutável. Infelizmente, este post ficaria muito longo se eu tentasse explicar o porquê.

Portanto, se você tem dúvida a respeito da existência de Deus, leia um pouco de filosofia e tente entender o argumento de Santo Anselmo. Os de Santo Tomás de Aquino também são muito bons.

Observação : as questões sobre o porquê de só Deus ser eterno e de só Ele poder ser causa de tudo e não causado por nada são fáceis de serem respondidas, mas exigem algum conhecimento filosófico, de forma que posso aconselhar a leitura de alguns livros que abordam o tema. Os que estiverem interessados, entrem em contato.

quarta-feira, novembro 05, 2003

Uma incrível suspeita

EUA suspeitam de células terroristas no Cone Sul. É mesmo ? Gostaria de saber quem foi o gênio que elaborou essa hipótese. É algo completamente inacreditável ! Estou estupefato !



Ajudando a quem ?

O sujeito chega num asilo e diz : "Quero ajudar vocês. Vou doar metade de um palácio, só precisam pagar a outra metade." Não é uma beleza ? É o caso do nosso presidente, que, através do Ministro do Desenvolvimento, acaba de prometer tarifa zero de imposto para os produtos angolanos, "só não soube dizer que tipo de produto o país africano, que acaba de sair de décadas de guerras, seria ou será capaz de exportar para o Brasil."

É isso aí, presidente, jogue duro com Tio Sam, que só pode nos vender as últimas novidades, e libere as sucatas de Angola para nós, porque o brasileiro é mesmo muito nostálgico. Tem gente que ainda tem vitrola e ouve disco de vinil. Vê se esses caras mandam algumas daquelas em 78 rotações.



Lula briga com o próprio braço

"O crime organizado é mais difícil de combater porque tem o seu braço político, o seu braço judiciário, o seu braço empresário, o seu braço na sociedade civil", afirmou Lula.

Lembrei de um personagem de Jô Soares que ficava dando tapa na própria mão para não roubar as coisas.

Sendo um dos braços citados, pode-se dizer que é a primeira vez que nosso presidente dá uma declaração sóbria, baseada na sua experiência de vida.



Quando Malebranche conheceu Peter Singer ...

A primeira coisa que ele disse foi : "Quando um homem prefere a vida de seu cavalo à de seu cocheiro, tem suas razões, mas são razões particulares, que horrorizam qualquer homem razoável. São razões não razoáveis, porque não estão conformes à suprema razão, ou à razão universal que todos os homens consultam."

Se esse cara tivesse nascido antes de Descartes, teria sido um grande filósofo.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Sobre a prova da existência de Deus

Numa conversa com meu amigo Nogy, ele me perguntou se achava possível provar a existência de Deus. Na hora, respondi meio sem pensar, mas a resposta me fez refletir, e acabei desenvolvendo-a da forma como apresento agora.

Só é possível provar algo a alguém se este alguém estiver disposto a admitir a possibilidade da veracidade do objeto. Um sujeito que não admite que possa existir um foguete não vai se convencer da sua existência nem mesmo viajando dentro de um.

Portanto, só podemos provar que Deus existe àqueles que admitem que possa exista um Deus. Mas qual a diferença entre provar a existência de Deus e provar qualquer outra coisa ? Qualquer outra prova terá por objeto algo que seja compreensível ou que pode ser compreensível, enquanto Deus nos será sempre incompreensível. O fato de algo ser incompreensível não impossibilita que provemos a sua existência. Há várias coisas que o homem não compreende e que ele sabe que existe. A diferença está no fato de que o próprio conceito humano de Deus já é de algo que será sempre incompreensível. Ora, mas se algo é incompreensível agora e existe, por que algo que é incompreensível agora e sempre não pode existir ? A eterna incompreensibilidade de Deus pelo homem não torna a prova de sua existência impossível, pois, se assim fosse, também não se poderia admitir a existência de coisas que agora nos são incompreensíveis, e só poderíamos admitir isso quando passássemos a compreendê-las.

Só para relembrar : para provarmos a alguém a existência de Deus, precisamos que ele aceite a possibilidade de Deus existir e aceite o fato d'Ele ser incompreensível. É bom ressaltar : a prova é compreensível, Deus é que não é.

Percebam : as 2 condições se aplicam a qualquer caso. Não se pode provar nada a ninguém sem que se aceite a possibilidade do objeto ser verdadeiro, nem a incompreensibilidade de algo é razão suficiente para que não se aceite uma prova de sua existência.

A prova, então, torna-se muito simples, e é a de Santo Anselmo : o ser necessário existe necessariamente. É impossível refutar essa prova sem negar a possibilidade da existência de um ser necessário, seja pela simples negação mesmo ou pela alegação de que ele é incompreensível. As 2 formas de refutar recaem nos erros já apontados na longa introdução que fiz. Portanto, o ser necessário existe necessariamente, e esse ser é Deus.

Espero que tenha ficado claro. A afirmação de que o ser necessário existe necessariamente não pode ser negada sem que se impossibilite ao homem provar a existência de qualquer outra coisa. O que significa dizer que o ser necessário (Deus) faz parte da estrutura da existência humana. Negar a Sua existência é negar a própria realidade.

sábado, novembro 01, 2003

Genoino deseja vida longa ao PFL na oposição

Deveria ter desejado ao PSDB também. Com uma oposição assim, quem precisa de aliados ?