A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, novembro 29, 2003

Duas de Viktor Frankl

Do homo patiens

"Situado diante do abismo, o homem vê a profundidade, e o que ele percebe no fundo do abismo é a estrutura trágica da existência. O que se lhe revela é que a existência humana, em última instância, é uma paixão, que a quintessência do homem consiste em ser uma pessoa que sofre, um homo patiens.

Qual era a imagem do homem na moldura bioligicista ? O mamífero mais superiormente desenvolvido ? O mamífero que se deslumbrou com o andar ereto ? Seu imperativo consistia em sapere aude; ousa ser razoável ! Pois bem, ele ousou. Ousou absolutizar a razão; o iluminismo converteu literalmente a ratio em deusa.

A essa imagem biológica do homem, nós opomos uma imagem noológica. Ao homo sapiens opomos o homo patiens. Ao imperativo sapere aude, opomos o pati aude, ousa sofrer !

Essa ousadia, essa galhardia diante do sofrimento, eis o que importa.

Desse modo, a realização de valores atitudinais se revela verdadeiramente como a realização do sentido possível do sofrimento necessário.

O escapista foge do sofrimento necessário. O masoquista procura o sofrimento desnecessário.

Em que consiste, pois, a essência do masoquismo ? Ele falseia o desprazer transformando-o em prazer. Em contraponto ao masoquista, está o homem que converte o sofrimento em ação. Eqüidistante do masoquismo e do escapismo, esse homem propende ao sofrimento, em oposição ao escapista; todavia, não propende a ele como o masoquista, como um fim em si; pois, ao propender ao sofrimento, já o transcende, perseguindo, por meio do sofrimento, aquilo em sacrifício do qual ele sofre, numa palavra, sacrificando-se. Com essa dádiva do sentido do sacrifício, ele transpõe o sofrimento, do nível do fáctico para o nível do existencial."

Do homem espiritual

"Todo humano é limitado. E só é realmente humano à medida que se eleva sobre sua própria limitação, superando-a e, portando, transcendendo-a. Desse modo, um homem em geral só é um homem porque - como ser espiritual - está acima do seu ser corporal e psíquico.

O homem, como ser espiritual, não só se encontra confrontado com o mundo - tanto com o meio ambiente como com seu mundo interior - como também toma posição diante dele. Em qualquer momento de sua existência, o homem toma posição tanto em relação ao meio ambiente natural e social, como diante do mundo psicofísico vital. Designamos exatamente como espiritual no homem aquilo que pode se confrontar com todo o social, o corporal e inclusive o psíquico nele. Por definição, o espiritual é só o livre no homem. Chamamos "pessoa" só aquilo que pode se comportar livremente, sejam quais forem as circunstâncias. A pessoa espiritual é aquela parte do homem que se pode confrontar sempre e a qualquer momento.

Não tenho necessidade de tolerar tudo de mim mesmo. Posso me distanciar daquilo que se encontra em mim, não só do psíquico normal, mas também, até certo ponto - dentro de limites flexíveis - , do psíquico anormal que existe em mim. Assim, não sou categoricamente dependente de coisas como, por exemplo, o tipo biológico que represento ou o caráter psicológico. Pois um tipo ou um caráter, eu simplesmente "tenho", ao passo que o que eu sou é a "pessoa". E esse meu ser pessoa significa liberdade, liberdade para transformar-se em personalidade. Liberdade para ser assim e liberdade para transformar-me em algo diferente."

Quem conhece a biografia de Viktor Frankl, pode comprovar que este foi um homem que sabia do que estava falando.