A Barbárie dos Tempos Modernos

quarta-feira, dezembro 31, 2003

Só mais isso

Que 2004 seja uma ano de luta contra o mal que está dentro de cada um de nós.

Deixo este trecho de um texto que escrevi sobre uma passagem de O Senhor dos Anéis :

Gandalf, juntamente com Frodo e seus aliados, enfrenta um bicho com formato de dragão. Na superfície de uma ponte, após todos já a terem atravessado, ele derruba o monstro no abismo e respira aliviado. Mas, ainda caindo, o bicho joga a cauda e puxa o mago pela perna, levando-o com ele. A luta prossegue até que Gandalf, na escuridão do abismo, derrota-o definitivamente. Depois disso, ele reaparece e luta contra Saruman, o mago do mal, que controlava o corpo do rei de Horan, e vence-o . Na primeira parte ele, já havia lutado contra Saruman, mas não havia conseguido vencê-lo, só agora consegue.

O dragão representa o mal que ainda havia dentro de Gandalf. Quando ele, na superfície da ponte, derrota-o, a derrota é falsa, pois ninguém vence o mal lutando com ele na superfície. Essa luta serve apenas de fachada, para que mostremos para os outros que estamos agindo bem, mas na verdade não estamos; dentro de nós sabemos que não. É por isso que nessa hora tem muita gente olhando a luta. Mas somente quando Gandalf desce até as trevas é que ocorre a verdadeira luta, a luta solitária, em que está apenas você e o mal, e mais ninguém. É aí que é preciso vencê-lo, pois é a única forma de eliminá-lo. Somente depois de descer até as trevas é que se pode enxergar a luz. É assim que Gandalf adquire força suficiente para derrotar Saruman ( sem mais nenhum mal dentro dele ) e se torna o mago branco (puro), pois antes era conhecido como o mago cinzento (a parte escura do cinzento simboliza o resto do mal que ainda havia nele).


Agora sim : Feliz Ano Novo a todos.

terça-feira, dezembro 30, 2003

Feliz Ano Novo

O nada é um ponto de convergência, como o ser, e até mais sedutor. É difícil "cair para cima" no Princípio do Ser. Cair no nada está ao alcance de qualquer um: basta-lhe deixar tudo correr. Mas, para saborear a vertigem do vácuo, é preciso fazê-lo em torno de si.

Marcel de Corte

Uma dica :

Se você acha fácil compreender sua vida e tem justificativas para tudo que vem acontecendo com você, este é um bom sinal de que está fugindo da realidade. E quem foge da realidade, mergulha cada vez mais no nada e se afasta cada vez mais do Ser.

Se você quer uma história totalmente compreensível, leia um romance. É melhor e mais prudente. Mas não fuja da realidade.

A flor é uma visão porque não é só uma visão. Ou, se se preferir, é uma visão porque não é um sonho. É isso que constitui para o poeta a estranheza das pedras, das árvores e das coisas sólidas : elas são estranhas porque são sólidas.

G. K. Chesterton

Feliz Ano Novo a todos !

segunda-feira, dezembro 29, 2003

Alunos brilhantes

Amigos,

Venho, através deste post, defender os alunos da oitava série deste país. Não é possível que tenham julgado tão mal alunos tão aplicados.

Adianto que os critérios de avaliação foram os seguintes :

- diferenciar fatos de opinião
- perceber o sentido da pontuação
- distinguir linguagem forma de informal
- compreender poemas modernistas
- compreender editoriais de jornais e revistas

Como diferenciar fato de opinião num país em que a opinião é um fato e o fato só é válido se for uma criação de quem opina ?

Como perceber o sentido da pontuação de um texto sem sentido ?

Fazer um aluno não conseguir notar a diferença entre a linguagem formal e a informal é o sonho de todo professor moderno.

Quem, em sã consciência, poderia condenar um aluno por não compreender coisas totalmente incompreensíveis, como poemas modernistas e editoriais de jornais e revistas ?

Se fosse o avaliador, só reprovaria os 10,29% que foram aprovados.

Mas a minha esperança de um dia poder dizer que aprovaria 100% deles é grande, porque a solução já foi dada e está em curso, graças a Deus. Só espero que deixem tudo acontecer como previsto e não impeçam que o "risco" finalmente se concretize.

Teimando em ir à missa

Já falei aqui sobre minhas experiências com missas. Volto ao assunto porque, teimoso que sou, resolvi passar por mais uma. Afastado de casa, pedi informações à minha irmã e fui a uma Igreja próxima. O padre começou bem, discorrendo sobre obediência, perdão e amor. Citou Santo Agostinho, Santo Irineu e São Justino. Explicou como a falta de autoridade dos pais vem criando verdadeiros monstrinhos em nossa sociedade. Nem conseguia acreditar. Aquilo era mesmo uma maravilha ! Seria mesmo possível ? Não era sonho ?

Sim, era. E virou pesadelo logo em seguida : como vocês sabem, a mãe não tem a mesma importância do pai devido ao machismo daquele tempo. O machismo contaminou até mesmo o Gênesis, onde Eva não apenas aparece como um mero acessório de Adão, como também é considerada culpada por ceder à tentação. Será que aquele senhor percebeu que chamou Deus de machista ? Tenho minhas dúvidas, porque ele disse tudo sorrindo. Não consegui mais me concentrar. Passei o resto da celebração rezando e pedindo a Deus que me ajudasse a não cair em desespero.

domingo, dezembro 28, 2003

O melhor e o pior da virada do ano

O melhor é lembrar que já passou um ano do Governo Lula e ainda estamos vivos. O pior é saber que ainda restam 3.

A Fé

Não é a fé que diferencia o homem dos animais. É a inteligência. Também não é a fé que distingue ou iguala os homens. Mas é pelo teor da fé que se sabe até onde pode chegar um ser humano.

sábado, dezembro 27, 2003

Homem-Almadén

Para que serve um vinho seco de má qualidade ? Para nada. Ou só para isso : para que os que nada entendem de vinho digam que ele é melhor do aquele vinho doce de 3 reais que aquela senhora de vestido vermelho pregueado estava tomando num cantinho da festa de ontem.

Se o vinho é ruim, é melhor que seja doce, porque proporciona um pouco de prazer a senhoras de vestido vermelho pregueado. E é sempre um prazer sincero. Estúpido, mas sincero.

Já vinhos como o Almadén, nem agradam aos bons apreciadores nem a senhoras de vestido vermelho pregueado, servem apenas para que bobões fiquem sorrindo dela sem saber que eles sequer são dignos de que se gaste uma risada.

Os intelectuais brasileiros são como vinhos Almadén. Para nada servem, a não ser para que bobões que os apreciam saim por aí dando risada de outros que não os conhecem e que, por isso, ainda consomem vinho doce, tipo livros de auto-ajuda e coisas do gênero.

Pois eu prefiro os que curtem vinho doce. É claro que, se pudesse, todos os dias bateria um papo reagado a um bom vinho. Mas nessa impossibilidade, prefiro as senhoras de vestido vermelho pregueado aos Homens-Almadén. Tome vinho doce com elas e às vezes até descubro algum sabor oculto especial. Já os Homens-Almáden não me descem bem. Sempre engasgo e acabo cuspindo.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Feliz Natal a todos

O Espírito do Mal, Lúcifer, chama-se Luz. E a Árvore do Bem e do Mal chama-se Ciência, que significa também Luz. Como se houvesse na Luz um perigo mortal para o Anjo e para o Homem. Na ordem material, alguns raios sutis decompõem o corpo, destroem a vida.
Em estado puro a Luz mata.
Só existe vida, ela só é possível, onde a Luz se atenua e se turva.
Só Deus, que é Luz, suporta a sua Luz. Quando Deus criou a Vida, criou a sombra. A sombra é a misericórdia da Luz que se acalma para poupar a criatura. E o mistério é o véu que Deus joga sobre Deus para aliviar o Homem. Pois "aquele que vê a Deus - Luz - deve morrer".
No primeiro jardim crescem e se opõem as duas árvores: a Árvore da Vida e a Árvore da Ciência.
A Árvore da Vida: Luz de Deus, misturada de sombra, dada como alimento ao homem segundo a capacidade do homem, como o sangue da mãe torna-se leite para a criança. E esta Luz cheia de sombra misericordiosa, este Deus reduzido ao Homem, chama-se Graça.
E a Árvore da Ciência?..."Colha o fruto, roubem a luz, sereis como Deus..." (Gn,3)
E morrereis.


Marie-Nöel

terça-feira, dezembro 23, 2003

Cristão e marxista ?

Não sei o que pensam os ateus sobre este assunto, mas a verdade é que nunca li um único pensador ateu que tivesse algo de profundo a dizer sobre a vida. Não que só tenham dito bobagem, mas jamais ultrapassaram o limite da superficialidade decorrente do ponto de vista que observam o mundo.

Não consigo lembrar de um único filósofo ateu. Pseudo-filósofos há muitos. O que não quer dizer que todos que acreditaram em Deus foram verdadeiros filósofos. Mas quase todos que cometeram o erro da auto-referência eram ateus. Exemplos : Hume, Marx, Freud. Os que não eram ateus, eram deístas : Spinoza, Kant e vários iluministas.*

Mas o que mais me impressiona é como muitos que se dizem cristãos levam esses caras a sério. Isso decorre, é óbvio, da crença de que uma coisa é a vida e outra como se vê a vida. Não, sua vida é como você a vê, cara-pálida. Se você é ateu, tem todo direito de levar a sério Marx, Hume e Freud, mas se é cristão não tem. Você pode até considerar certos aspectos da filosofia deles, mas nunca aquilo que há de mais importante.

Portanto, se você é cristão, aproveite o Natal para rever sua vida, para pensar se muitos dos erros que tem cometido não são decorrentes dessa postura fragmentária, dessa visão desintegrada de você mesmo e do mundo. Pare para se analisar um pouco e perceberá que ser cristão é algo que carrega em si uma série de conseqüências das quais você não pode fugir. Ore e peça a Deus que o oriente nessa empreitada.

* O erro de auto-referência se dá quando o filósofo enuncia algo que torna inválido aquilo mesmo que ele enunciou. Exemplo : Hume diz que nada tem explicação, é tudo questão de pura associação por hábito. Ora, então esta explicação que ele dá também não é explicação nenhuma. E, portanto, ninguém deve levá-la a sério. Outro exemplo : Freud diz que tudo que pensamos e fazemos se deve a problemas sexuais da infância. Ora, se é assim, é óbvio que isto também se aplica a ele. E quem é que vai acreditar num sujeito que elaborou uma teoria devido a frustrações sexuais ?

Post-Scriptum :

Resolvi complementar este post com esse trecho genial de Alexandre Soares

O breve piquenique dos ateus
Deus não deu a Graça aos enciclopedistas - mas deu graça. Muita, até; graça e elegância, para ver até onde iam. Não foram longe, sendo ateus; ateus não podem ir longe, sendo por definição aqueles que ficam negando que haja um longe. Foram perto, mas foram perto belamente; dançando jiga intelectualmente, deslumbrando e agradando o mundo todo com aquela espécie de inteligência típica dos franceses de antigamente: superficial, brilhante, agradável como um piquenique. Toda a mentalidade atéia é um piquenique: negando que haja um longe, sentaram na grama e fizeram um piquenique. Vamos nos divertir na grama, eles dizem. O céu é feito de ar, tanto a um metro do chão como a um quilômetro; e não há nada nesse céu, só mosquitos. Vamos nos divertir, somos livres; vamos enfiar partes estranhas dos nossos corpos nos buracos uns dos outros, c’est amusant; quem sabe se eu passar geléia de framboesa na ponta do dedo e enfiar na sua narina esquerda, assim? Hein, não? E depois vamos apodrecer na outra colina.

segunda-feira, dezembro 22, 2003

Dias Especiais

De hoje ao dia 25, todos os posts se referirão ao Natal.


O Anjo Anunciador

— Ouve, Maria, a nossa
(não, não te assustes!) é uma luminosa
tarefa: retecer
o pequeno clarão que abandonaram,
o lume que anda oculto pela treva!
Porque irás conceber!
Porque a mão, desejosa
e tosca, que O tentara
reter, ainda que leve,
desfez-se ao toque, assim como uma vez
tocado o sopro se desfaz a avara,
a dura contração do peito ansiado...
Mas a haste, o jasmim despetalado,
é tudo o que ainda resta
dos canteiros do céu aqui na terra,
que um seco vento cresta
e uma longa agonia dilacera.
No entanto a morte há de morrer se tu quiseres,
ó gota concebida
bendita entre as mulheres
para que houvesse vida
outra vez, e nascesse desse fundo
obscuro do mundo,
o ninho incompreensível do teu ventre.

Não, não toques ainda
nem a fímbria do manto nem o centro
do mistério que anima a tua túnica:
aguarda, ó muito séria, a ave mansa
e recebe em teu corpo de criança
a Verônica única,
a enxurrada de pétalas te abrindo.

Em tumulto reunidas,
as cores da perdida Primavera
vão retornar, virão
numa enchente de asas, aluvião,
púrpura, sempre-viva, nascitura
estranheza do amor da criatura,
constelação descendo ao rosto teu:
é Ele, é O que reúne o coração
e o grande anel da esfera,
o fogo, a língua ardendo, o incêndio vivo,
a coluna de luz, o capitel que se perdeu...
Que eu

venho anunciar apenas a um esquivo,
humílimo veludo, a frágil chama
que há de crescer em ti, que hás de ser cama
ao parto do Perfeito, e hás de ser cântaro
e fonte e ânfora e água,
hás de ser lago
em que as sombras se afogam, que naufragam
no imenso, ó jovem branca como um lenço;
hás de conter a lágrima
do Infinito, o Seu vulto
e os tumultos da luz na travessia
entre a dádiva, a perda e a renúncia:
quando de um certo dia
cheio de luz amarga

em que serás enfim a sombra esguia
que O deu à luz e que O assistiu morrer...
Atravessa, ó Maria,
os abismos do ser,
ouve este estranho anúncio
e deixa-te invadir para colher,
mais fundo que a razão
e o corpo, o sopro cálido, o prenúncio
da mais viva alegria:
entreabre-te ao clarão
da visita suave,
mas terrível, terrível, deixa a ave
do imenso sacrifício te ofender.

Ó pétala intocada,
hás de sofrer
intensa madrugada
e num lago de luz como afogada
hás de durar suspensa
entre a graça imortal e a dor imensa.

Mas canta, canta agora
como a fonte borbulha, como a agulha
atravessa o bordado,
canta como essa luz pousa ao teu lado
e te penetra e tece a nova aurora,
a nova Primavera e a tessitura
do ramo que obedece e se oferece
para o mistério e pela criatura.

Canta a alucinação,
o toque enfim possível dessa mão
que há de colher para perder e ter
o infinito que nasce do deserto
e a semente que morre se socorre
tudo o que no estertor tentava ser.

Canta a canção do lírio e do alecrim,
essa canção que és e que na treva,
na escuridão da carne, andava perto
da imensidade que te invade. E assim
como o imenso te ampara,
ó voz tão clara
que consolas e elevas,
vem, desperta,
matriz da eternidade e d'O sem-fim,
ó mãe de Deus, canta e roga por mim

Bruno Tolentino

sábado, dezembro 20, 2003

Antídotos para alguns males do Iluminismo

1) Os motivos de Diderot para não levar a sério a religião cristã.

Segundo ele, é a Igreja que estabelece a divindade da Escritura, mas a própria Igreja se funda na divindade da Escritura, tornando o argumento circular. Com isso, levanta a questão abordada por Olavo de Carvalho na sua aula 8. E aqui está o antídoto.

Conforme explica o filósofo brasileiro, a fé não é justificada pela própria fé. Como podemos saber que Jesus é o filho de Deus ? Simplesmente tendo fé ? Não, é a história da vida de Jesus que nos mostra isso. Qualquer um que tentar explicar a vida de Jesus eliminando dela tudo aquilo que parece inexplicável para nós homens terá que criar uma cadeia de improbabilidades infinitamente maior do que a de simplesmente acreditar que Jesus é o filho de Deus e veio à terra para nos salvar. Para que tenhamos fé em algo, é preciso que Deus nos dê indícios de que devemos ter fé naquilo. Não vou dar mais detalhes. Quem estiver interessado, compre a fita.

2) A afirmação de d'Holbach de que o homem é prisioneiro de suas paixões.

"O homem não é livre em cada instante de sua vida, sendo necessariamente guiado em cada passo pelas vantagens reais ou fictícias que atribui aos objetos que excitam suas paixões" E mais : "Serei eu livre para não desejar um objeto desejável ?"

Antídoto : Viktor Frankl

"Designamos exatamente como espiritual no homem aquilo que pode se confrontar com todo o social, o corporal e inclusive o psíquico nele. Por definição, o espiritual é só o livre no homem. Chamamos 'pessoa' só aquilo que pode se comportar livremente, sejam quais forem as circunstâncias. A pessoa espiritual é aquela parte do homem que se pode confrontar sempre e a qualquer momento."

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Da série Diálogos

- Seus exames estão muito bons, parabéns !
- Mas doutor, não é possível, deve haver algum engano.
- Não, está tudo bem com você. Acredite em mim.
- Era isso que eu temia.
- Essa é a primeira vez que o senhor me traz exames normais. Deveria estar alegre e não triste.
- É que eu parei de beber, doutor. Fiz os exames na esperança de que o resultado desse ruim como sempre, assim eu poderia continuar bebendo com a consciência tranqüila ...

quarta-feira, dezembro 17, 2003

O único deus bom

Do Estadão :

Durante anos, Caetano amargou a tristeza que lhe causou a má acolhida dos críticos ao único filme que dirigiu. Cinema Falado, 17 anos depois, está sendo lançado em DVD justamente pela Universal, que fez todo um trabalho de restauração do original, acrescendo ao disco várias horas de material extra.

Caetano soltou o verbo. Elogiou o próprio filme, produto da sua lucidez, e não poupou críticas aos críticos, à imprensa nem a colegas diretores. No final, disse que havia sido equilibrado e que, eventualmente, uma ou outra coisa que disse poderia ser usada fora de contexto e provocar discussões.

Caetano falou mal de Deus - disse que Deus é sempre nocivo, tanto faz que seja o de Osama Bin Laden ou de outro qualquer. Disse também que seu filme é profético e que antecipa qualidades e problemas que o cinema brasileiro apresenta neste ano em que atinge 20% de ocupação do próprio mercado, a maior taxa de a retomada da produção após a era Collor.


Resumindo : o único deus bom é Caetano.

terça-feira, dezembro 16, 2003

Uma História de Mundo Novo

Quem conseguir ler até o final, ganha uma fatia de torta de jaca mole ou meio quilo de umbu sem maionese.

Dúvidas, queixas ou reclamações, favor se dirigir à banca examinadora.

Diziam muitas coisas de seu Turrão, mas agora todos achavam que estava passando dos limites. Famoso por sua teimosia e poder de persuasão, ganhou o apelido com justiça. Às vezes negava algumas histórias, quando costumava piscar o olho esquerdo, deixando-o entreaberto, e puxar o canto da boca para o mesmo lado em direção oblíqua superior, num ar de desdém e desaprovação. Entre verdades e mentiras, as lendas foram se criando e impregnando o inconsciente popular daquele pequeno lugar. Mundo Novo era um minúsculo povoado a 30 minutos da cidade, Japaratuba, que distava 60 quilômetros da capital, local realmente apropriado para a rápida difusão de casos inacreditáveis.

Diferentemente do que muitos pensavam, seu Turrão era um homem bem humorado, e costumava distrair a vizinhança em noites de lua cheia. Quase sempre o papo prosseguia amistosamente até que ele resolvia defender uma de suas teses maravilhosas, deixando os ouvintes estupefatos. E quão estranhas e inéditas eram estas !

Podia prever as chuvas baseando-se no barulho das chaleiras das casas da região nos últimos dias. E justificava a ausência das águas pela passagem de algum avião que teria desfeito a concentração do vapor. Sabia tudo sobre a NASA e as viagens espaciais. As crianças sonhavam noites e noites com o jogo de bola de gude na lua, pois não havia outro terreno mais apropriado para a brincadeira. Era cheia de buracos e não era necessária muita força para lançar a bolinha longe. Os participantes tinham que ficar a quilômetros de distância uns dos outros, comunicavam-se por um aparelho portátil e o vencedor era conhecido através de um relato feito por um observador a uma altitude inimaginável, portando lentes de aumento poderosíssimas. Algumas teorias eram bastante complexas. A Terra havia acelerado seu movimento de rotação nos últimos milhares de anos, o que estava causando um desgaste nos pólos e a deixando cada vez mais achatada. Em pouco tempo isso comprimiria o magma de seu interior e o planeta implodiria subitamente. Já se falou sobre muitas formas de fim do mundo, mas esta era realmente inovadora. Os presentes ficavam perplexos e tendiam a acreditar. Seu Turrão ainda reforçava que aquilo já era de total conhecimento dos cientistas, que não abriam o jogo apenas para evitar tumultos desnecessários.

Mas desta vez ele realmente estava indo longe demais: provar que Deus era brasileiro e, acima de tudo, era de Mundo Novo. Aquilo transformava aquele pequeno povoado no lugar mais importante que existia. Antes mesmo de saber do que se tratava, todos já estavam com a auto-estima elevada. Alguns moradores sorriam à toa, outros faziam pouco caso das pessoas quando iam à cidade. Consideravam-nas seres inferiores, sem nenhum prestígio. O boato logo se propagou e chegou ao conhecimento dos japaratubenses. Uma parte dizia não ter nascido ali e que era descendente de cidadãos de Mundo Novo. Outros tentavam explicar que sempre tiveram umas terrinhas por lá e que agora procurariam construir sua morada definitiva naquele pacato lugar. Ou, pelo menos, fazer uma pequena roça, de onde tirariam seu sustento. Mundo Novo começou a crescer a todo vapor. Vários comerciantes foram praticamente obrigados a abrir filiais. Muitos diziam que não valeria a pena, pois o transporte era difícil e o custo dos produtos não encontraria compradores à altura. Um sacrilégio ! Mas a prefeitura resolveu intervir. Selecionou algumas bestas para realizar a movimentação dos artigos até o pitoresca região. Turistas que chegavam à cidade não permaneciam minutos e já se dispunham a partir para desvendar os segredos do lugar tão falado. Dizer que houve uma inversão de importância entre a cidade e o povoado seria um exagero, mas a concretização da história de seu Turrão certamente o faria.

A data da apresentação da prova estava marcada para o Natal. Ninguém enfeitou árvores ou colocou presentes em seus pés, nem houve reuniões de família, nada. Todos se dirigiram à praça principal de Mundo Novo, local marcado pelo profeta para a exibição. As pessoas se entreolhavam. As nativas torciam para que não houvesse decepções, as da cidade ganharam aquele olhar meio desconfiado, meio vingativo. Seu Turrão mandou construir uma cerca em volta da praça e, do seu centro, comandou o espetáculo. Havia grande aglomeração e a multidão já quase derrubava as estacas. Iniciou o discurso dizendo que aquele seria um momento inesquecível tanto para Mundo Novo quanto para o Novo Mundo que surgiria a partir dali. De repente, houve como que uma paralisia generalizada, tanto de fala como de gestos. O discurso aterrador havia sido pronunciado :

- Deus não é apenas brasileiro, como muitos gostam de dizer, mas também é cidadão desta cidade e deste povoado, porque eu sou Ele, ou se preferirem, Deus sou eu.

Dito isto, seu Turrão sumiu debaixo da Terra sob o olhar incrédulo dos espectadores. Tentava-se pular a proteção, mas, enquanto isso, o homem divino já gritava a 50 metros do palco em cima de uma pequena caixa de madeira. No entanto, após o primeiro berro, caiu ao chão. Todo o povo presente correu em sua direção, mas um médico da cidade teve a preferência da aproximação. Tomou os pulsos e fez uma ausculta cardíaca. Estava morto. Um provável infarto do miocárdio fulminara sua existência num momento célebre.

Em Mundo Novo, todos eram cristãos fervorosos, mas, depois daquele dia, muitos também passaram a ser turronistas, algo que, se não poderia ser considerado como religião, era, pelo menos, uma crendice levada muito a sério. O natal passou a ser o dia do nascimento de Jesus e o da morte de seu Turrão. Às vezes grandes discussões surgiam entre os adeptos e os críticos da seita :

- Deixa disso, você está sendo enganado. Não consegue enxergar isso ? Já foi provada a existência do antigo túnel desconhecido de todos e que deu acesso a seu Turrão para se transportar para fora da praça. Não houve milagre. Foi tudo um truque.

- Você é que não quer ver o óbvio. Como justificar a morte e a ascensão aos céus em forma de raios ?

- Raios ? Ascensão ? Como é ?

- Vejo que você nada sabe sobre o turronismo. Não lhe disseram ainda sobre o túnel formado de buracos negros que conduziu o grande mestre à eternidade ? Hoje sei que muitos túneis aparecem em nossas vidas. Precisamos ter a coragem suficiente para atravessá-los, mesmo que depois da travessia, não suportemos a dor do que encontrarmos.

A filosofia estava se formando ...

domingo, dezembro 14, 2003

Paradoxal ?

A grande tradição intelectual que chega até nós a partir de Pitágoras e de Platão nunca se interrompeu nem se perdeu por causa de coisas insignificantes como o saque de Roma, o triunfo de Átila ou todas as invasões bárbaras ocorridas durante a Idade das Trevas. Ela só se perdeu após a introdução da imprensa, a descoberta da América, a fundação da Royal Society, a academia britânica das ciências e toda a iluminação do Renascimento e do mundo moderno.

G. K. Chesterton

sábado, dezembro 13, 2003

Catatonia pré-natalina

Nunca escrevi um só texto neste meu pequeno espaço virtual movido predominantemente pela emoção. Mas acho que é chegada a hora.

Mais um Natal se aproxima. As pessoas notam que ando calado, meio aéreo. Não que seja normalmente falante, mas minha voz tem sido ainda menos ouvida ultimamente. É verdade que tenho rompantes de tagarelice, principalmente quando me fazem perguntas sobre temas que são do meu interesse. Começo a tirar conclusões em cima de conclusões e percebo que muitas delas são novas para mim. Só deixo meu interlocutor pronunciar algumas poucas palavras, o suficiente para que eu chegue a uma dezena de implicações decorrentes daquele simples comentário.

Mas isso é raro. Raríssimo. Apenas minha esposa e uns dois amigos conseguem me tirar da catatonia.

O Natal é hoje uma das maiores provas do mal que assola a humanidade. Não conheço uma única pessoa que aproveite a ocasião para mergulhar na sua fé, para se aprofundar no estudo do cristianismo. Todos só falam em presentes e festas. E a caridade ? Não há ocasião melhor que o Natal para refletirmos sobre isso. O que podemos fazer pelo próximo além do que fazemos, se é que fazemos ?

Nenhuma palavra.

Não me importo que deturpem o que vou dizer, mas o fato é que não é o socialismo nem o nazismo nem o fascismo, que são muito posteriores, mas sim o liberalismo pagão que vem destruindo os valores cristãos, colocando a economia como ponto de partida para analisar o mundo. Que se entupam de jóias, fico com minhas orações.

Só para ficar claro

Para os que não perceberam a gravidade do tema que abordei de forma humorística no penúltimo post, leiam isso aqui para entenderem exatamente do que se trata.

sexta-feira, dezembro 12, 2003

Quem é o homem

Excepcionalmente, este texto está sendo postado novamente. Foi a última exceção. Daqui em diante, todos os posts serão novos.

Nem racional, nem político. Religioso. O homem é um animal religioso. Ele pode viver para afirmar ou para negar essa condição, mas nunca conseguirá fugir dela.

Sempre que você encontrar um sujeito que tem um carro rebaixado, estará diante de um exemplar de um homem religioso tentando negar a sua condição. Também quando encontrar uma senhora que não permite que sentem no seu sofá novo. E novamente quando vir um livro grosso e famoso enfeitando a biblioteca da casa do seu amigo, sem nunca ter sido lido.

Podemos classificar os homens, então, em conformados e inconformados. Os primeiros são os que aceitam sua natureza e vivem em sintonia com ela, e os últimos os que tentam, de alguma forma, compensar o fato de negá-la, substituindo o único objeto verdadeiro de um culto – Deus – por fantasias materiais ou mesmo espirituais.

O interessante é a forma como o objeto de culto desses inconformados se transforma ao longo do tempo e, mesmo assim, eles não percebem a contradição de sua crença. É impressionante como não se apercebem que, em última instância, estão sempre cultuando algo. E ainda se acham mais práticos, mais dinâmicos, mais verdadeiros.

Fico pensando no dia em que algum homem realmente conseguir viver sem cultuar nada : transformar-se-á numa rã ou num sapo e passará a cultuar os homens.

quarta-feira, dezembro 10, 2003

Um Blog Engajado

A partir de hoje, este blog passa a fazer parte do GADI (Grupo de Apoio à Democratização da Internet).

Diferentemente do que você possa achar, a internet não é democrática, mesmo nos EUA ou na Europa, porque tem muita gente escrevendo bobagem através dela, e bobagem não é bom para a democracia. Tem até gente dizendo que ela é o único veículo de informação totalmente democrático. Vejam que absurdo ! Temos que fazer algo para evitar que essas pessoas continuem dizendo isso, afinal temos que colocar a democracia em prática !

As alterações que farei se devem à coleta de alguns dados estatísticos que mostram um enorme desequilíbrio na rede. E como democracia é sinônimo de igualdade e não de liberdade, procurarei dar a minha contribuição para amenizar essas diferenças.

Mudanças :

1) Língua a ser usada : o quimbundu, desprezada por quase todos os sites. Se você tem alguma dificuldade em se comunicar nessa língua, disponibilizarei um tradutor on-line.

2) Assuntos abordados : darei preferência à polêmica sobre a dúvida de ter havido ou não um relacionamento sexual entre Tarzan e a macaca Chita. Foi o assunto menos debatido em todos os blogs que consultei, sem nenhum motivo. Em segundo lugar, procurarei abordar a razão pela qual as autoridades nada têm feito para acabar com a prolongada onda de frio que vem castigando a Antártida.

3) Links preferidos : ainda não tenho a nova lista, mas posso adiantar que muitos destes aqui serão incluídos.

4) Comentários : só responderei aos que aderirem à causa do GADI, escrevendo em quimbundu.

5) Contribuições : será disponibilizada uma conta bancária para os que quiserem contribuir com doações. Estas sim serão aceitas do jeito que vierem. Não será feita nenhuma restrição.

terça-feira, dezembro 09, 2003

Os Dez Mandamentos da Felicidade

Ser belo - dica : faça uma plástica facial de forma que fique parecendo uma mistura de Fábio Assunção com Brad Pitt. É garantia de sucesso nacional e internacional.

Estar em forma - dica : faça pelo menos 4 horas de exercícios aeróbicos e 2 horas de musculação por dia. Caso lhe falte um tempinho, há alguns profissionais cobrando menos de 300 mil dólares para realizar uma lipoaspiração global.

Parecer inteligente - não é necessário ser inteligente, basta parecer que é. Dica : dê respostas vagas para todas as perguntas que lhe fizerem, mas sempre inclua "social" no final das frases e conclua com algo que comece com "a sociedade como um todo".

Praticar sexo com mulheres bonitas - dica : primeiramente, siga todas as dicas anteriores, já será meio caminho andado. Depois, dê um jeito de ficar famoso e aparecer na TV no mínimo duas vezes por semana.

Ser esperto - a dica é desnecessária, pois, se você comprou este livro, é porque é esperto.

Evitar a depressão - dica : tome diariamente dois comprimidos de Prozac e um de Efexor. Se isto lhe deixar muito agitado, tome Diazepam.

Não ler - dica : procure nunca seguir o conselho de amigos esquisitos, desses que não vão a festas nem vivem em farras. São perigosos, não se aproxime deles. Se lhes der atenção, pode acabar lendo Dostoiévski, Cervantes, Proust ou Machado de Assis, a aí nenhuma dica anterior funcionará.

Rezar somente o necessário - dica : peça a Deus que lhe ajude a atingir todos os objetivos que listei aqui, mas não se exceda, uma oração por mês é suficiente. O que as pessoas vão pensar de você ? Nós vivemos no mundo da ciência e da tecnologia. Contenha-se !

Ser antenado - dica : procure ler as manchetes dos principais jornais diariamente. Você sempre terá assunto para conversar em festas e bate-papos com amigos e nunca parecerá um cara chato.

Parecer estar sempre animado - dica : mesmo que não esteja gostando do ambiente, nunca demonstre. Ria sempre daquela piada horrível que você já ouviu trezentas mil vezes e conte uma mais antiga ainda logo em seguida, mas não esqueça de antes olhar para seus amigos com um ar de "não fui eu que comecei, agora agüentem".

domingo, dezembro 07, 2003

Duas de Dostoiévski

Trechos retirados de duas falas de personagens do romance O Idiota :

[...] se até o senhor acabou de declarar que o próprio defensor declarou em um julgamento que não existe nada mais natural do que matar seis pessoas movido pela pobreza, então é o final dos tempos. Isso eu ainda não tinha ouvido falar.

[...] o assassino mais inveterado e impenitente ainda assim sabe que é um criminoso, isto é, por questão de consciência acha que agiu mal, ainda que não demonstre qualquer arrependimento. E assim é qualquer um deles; mas estes de que Ievguiêni Pavlitch estava falando não querem sequer se considerar criminosos e pensam consigo que tinham o direito e... até agiram bem, ou seja, é quase assim. [...] E observem que todos são jovens, ou seja, estão justamente naquela idade em que a pessoa é mais vulnerável e mais indefesa para se deixar levar pela deformação das idéias.


Não tem tudo a ver com isto aqui ?

sábado, dezembro 06, 2003

Ainda sobre a missa

Por acaso, relendo A Origem da Linguagem, de Eugen Rosenstock-Huessy, deparei-me com este trecho, que tem tudo a ver com o post anterior (os grifos são meus) :

A despeito das aparências, todas as línguas conferem ao mundo físico um segundo significado : elas criam associações que não existem no mundo dos cinco sentidos individuais. A linguagem cria o senso comum. Porque se pretende que seja um senso comum a todos, ele deve abstrair-se de quaisquer percepções sensoriais ou humores individuais. A linguagem cria associações permanentes e comuns. E o que nossos semânticos e lógicos rejeitam desdenhosamente como metáfora, imaginário, pensamento associativo, simbolismo ou misticismo, tem, ao longo das eras, associado o homem ao próximo em sociedades cada vez mais numerosas através dos tempos.

Ao falar, associamos ou dissociamos. A falácia da mente reside no otimismo sem garantias de que o homem pode, por um lado, falar com franqueza e, por outro, associar e dissociar, em dois procedimentos separados. Ao dar por pressuposto que a linguagem é inata ou natural ao homem, a razão ignorou a existência da fala como sangue da comunidade humana. Se o falante nega a comunidade, seu sangue é derramado. Numa tribo, a fala praticada fora da ordem política torna-se feitiçaria. Arbitrariamente cantadas, as canções solenes tornam-se vazias e fazem enlouquecer as pessoas, em vez de lhes dirigir as ações.

Comentário de Olavo de Carvalho sobre o último parágrafo :

Os católicos deveriam pensar nisso antes de festejar qualquer inovação litúrgica, por mais arbitrária e de mau gosto, como um sinal de "progresso" da religião. Quando S. Pio V, ao reunir e fixar o cânone da missa, lançou todas as maldições possíveis sobre quem alterasse uma só palavra do conjunto, ele sabia o que estava fazendo. É muito fácil para as pessoas que ignoram o que seja um ritual, e que nada enxergam fora da ótica estreita de uma política reduzida ao confronto estereotipado entre conservadores e progressistas, julgar que tudo pode ser explicado nesses termos. Mas as alterações num rito têm conseqüências que se prolongam para muito além da atualidade midiática e que dizem respeito à sanidade espiritual da espécie humana. A atmosfera de loucura e a criminalidade crescente das últimas décadas têm muito a ver com reformas litúrgicas, com a banalização da missa, bem como com o uso fragmentário, pelo show business, de canções solenes fora do contexto ou num contexto invertido.

quinta-feira, dezembro 04, 2003

Resultado das minhas tentativas de freqüentar a missa

Primeira tentativa : ao entrar na igreja, entregaram-me um papel contendo algumas informações sobre o local e um editorial praticamente sugerindo que o fiel votasse no PT. Tudo bem, tenho boa vontade. A missa e o padre não devem ter nada a ver com essa história. Procurei me concentrar e me sentei. Outro papel : músicas que seriam cantadas naquela celebração. Dei uma olhadinha : quase todas da autoria de Nizan Guanaes. Quem ? Nizan ? E me responderam : sim, aquele mesmo. Baixei a cabeça e comecei a rezar antes da missa começar. Começou : o padre leu um trecho do Novo Testamento e o interpretou : Jesus Cristo fazia o papel de um revolucionário marxista.

Dei azar : era época de eleição. Vou esperar passar essa fase para ir numa missa mais tradicional. E fui.

Segunda tentativa : era dia de São Francisco de Assis. Na igreja, bem antiga, só tinha velhinhos e velhinhas. O padre era mais velhinho ainda. Dessa vez eu acertei ! Aquela voz macia do sacerdote me agradava. Começou contando a história de São Francisco. Quem de vocês teria coragem de fazer o que ele fez ? Largar tudo ! Hein ? Pressenti que a coisa não ia acabar bem. O senhor ficou agressivo e, depois de colocar a culpa da pobreza nos empresários inescrupulosos, terminou conclamando os fiéis a dar um fim em Bush. Saí antes do final e fui rezar lá pela alma daquele pobre homem.

Terceira Tentativa : consegui encontrar um mosteiro onde os padres não interpretam as leituras do Evangelho, apenas lêem e pronto. Fiquei satisfeito. Vou todos os sábados à tarde.

Partido Regressista

O Partido Regressista seria o único a ter metas objetivas, pois ele não precisaria estipulá-las. Elas já foram atingidas um dia. O Partido Regressista lutaria para que as coisas regredissem até a época do Império, quando chegamos a ter um pouco de liberalismo neste país. E seria engraçado se desse certo. Leríamos nas manchetes : " Partido Regressista progride nas eleições desse ano, aumentando o número de deputados e senadores ". E quando atingisse o objetivo : " D. Pedro I é lembrado após a vitória da Monarquia no plebiscito promovido pelo Partido Regressista ".

Depois começaria novamente a confusão : " Regressistas radicais querem que o Brasil volte a ser dos índios ".

Aí já era ...

terça-feira, dezembro 02, 2003

Ratos americanos lutam contra preconceito tecnológico

Ratinhos da quinta avenida, em Nova Iorque, iniciaram ontem uma passeata contra o uso indevido de sua espécie como parte insignificante da informática.

Bill Gates logo se defendeu, alegando que, na verdade, o mouse é muito importante para os usuários de computador, principalmente após o advento do Windows, que o tornou uma peça obrigatória.

Mas os da ala mais radical não se renderam e prometeram marchar até a Casa Branca enquanto a coisa não for revista.

Os mais moderados argumentaram que já vêm contribuindo para o progresso da civilização há algum tempo, deixando de invadir residências e locais muito habitados, e que, apesar disso, continuam sendo desprezados pela raça humana, que ainda insiste em utilizá-los como cobaias. Aliás, justamente por isso, o único homem convidado para a passeata foi o senhor Peter Singer, que os compreende e os ama tanto quanto aos seus pares, mas não pôde comparecer porque dava uma palestra numa famosa churrascaria da cidade.

Para os que estiverem estranhando a iniciativa dos camundongos, há um boato de que tudo começou após a publicação dessa notícia.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

A Culpa é de Descartes

Se me pedissem para escolher um bode expiatório no qual se pudesse colocar toda a culpa dos males do mundo moderno, não hesitaria em apontar René Descartes.

Inconformado com as incertezas do conhecimento que recebeu, ainda de influência escolástica, e maravilhado com algumas descobertas científicas de sua época, o filósofo resolveu que daria um outro rumo aos seus estudos. Por ser a matemática a única ciência realmente confiável, partiu dela para construir seu edifício filosófico.

Mas o problema diante do qual se encontrava Descartes não era muito diferente do que se defrontaram os 3 maiores filósofos gregos. Apesar da certeza proporcionada pela matemática, ela não diz respeito ao mundo concreto. O método criado por Sócrates tentava aumentar o grau de certeza da investigação dos problemas do mundo real. Ele sabia que isso não poderia ser feito através da matemática, mas ela servia de parâmetro do tipo de conhecimento perfeito.

Descartes seguiu o caminho inverso : resolveu aplicar a matemática ao mundo concreto, e, para ter sucesso, descartou da investigação tudo aquilo que atrapalhasse a aplicação da matemática.

O que ele fez, então, foi desistir de conhecer grande parte do "conteúdo" do mundo e se conformar com uma pequeníssima porção dele.

Mas é claro que era preciso justificar isso tudo, afinal, se a coisa fosse dita assim, quantos não perguntariam pelo que seria feito da possibilidade de conhecimento que foi abandonada ? Então Descartes criou sua metafísica, através da qual nos explicou que o mundo é dividido em res extensa e res cogitans, ou em mundo material e mundo espiritual, e que um nada tem a ver com o outro. No mundo material, só o que existe é a extensão, portanto uma dimensão que pode perfeitamente ser estudada em linguagem matemática, o que possibilitou que o conhecimento humano da realidade se tornasse algo perfeito. Em resumo, e simplificando bastante, para conhecer o mundo bastaria medi-lo. E haja régua ! Bom, mas o que não faltaram foram réguas. Até hoje o que mais diverte alguns cientistas é criar mais e mais réguas, ou seja, instrumentos que possibilitem o estudo matemático do mundo.

E quanto mais essa ciência se desenvolveu, mais sucesso alcançou na produção de aparelhos que possibilitaram não apenas a medição do mundo mas que também trouxeram imenso conforto ao homem.

E qual o grande problema disso tudo ? O fato é que, ao desistir de conhecer a realidade e se conformar em entender apenas uma ínfima parte dela, o homem, na verdade, foi se tornando cada vez menos capaz de compreendê-la, mas sem perder a capacidade de agir sobre aquela fatia que estudou em profundidade. Ou seja, a extensão é mesmo uma parte da realidade, e o conhecimento obtido do estudo da extensão, apesar de não servir para compreender o mundo concreto, servia para que se pudesse agir sobre ela por essa via.

O que ocorreu, então, foi que o ser humano passou a agir sobre a realidade sem antes compreendê-la. E como era a extensão a única parte compreendida, foi também o único benefício que o homem teve : naquilo que é mensurável, seu mundo melhorou bastante. Desde a revolução industrial, é impossível negar o quanto melhorou a condição de vida material do homem.

Mas em Descartes nada disto estava explícito. Ele acreditava que a realidade era mesmo pura extensão e que, ao estudá-la, estaria compreendendo-a. Quem acabou com a farsa de uma vez por todas foi Marx, que, não percebendo que a coisa já estava nesse nível desde Descartes, revoltou-se contra o que não havia para se revoltar e decretou que o homem não precisaria compreender o mundo, bastaria transformá-lo.

Depois de tudo já tão explícito, a chance da humanidade era a de rever a situação e tentar mudar o rumo dos acontecimentos. Mas o que está ocorrendo é que cada vez mais o homem aumenta o abismo entre a realidade e a fantasia. Só que este já é um assunto para um próximo post, provavelmente uma continuação deste aqui.