A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, dezembro 06, 2003

Ainda sobre a missa

Por acaso, relendo A Origem da Linguagem, de Eugen Rosenstock-Huessy, deparei-me com este trecho, que tem tudo a ver com o post anterior (os grifos são meus) :

A despeito das aparências, todas as línguas conferem ao mundo físico um segundo significado : elas criam associações que não existem no mundo dos cinco sentidos individuais. A linguagem cria o senso comum. Porque se pretende que seja um senso comum a todos, ele deve abstrair-se de quaisquer percepções sensoriais ou humores individuais. A linguagem cria associações permanentes e comuns. E o que nossos semânticos e lógicos rejeitam desdenhosamente como metáfora, imaginário, pensamento associativo, simbolismo ou misticismo, tem, ao longo das eras, associado o homem ao próximo em sociedades cada vez mais numerosas através dos tempos.

Ao falar, associamos ou dissociamos. A falácia da mente reside no otimismo sem garantias de que o homem pode, por um lado, falar com franqueza e, por outro, associar e dissociar, em dois procedimentos separados. Ao dar por pressuposto que a linguagem é inata ou natural ao homem, a razão ignorou a existência da fala como sangue da comunidade humana. Se o falante nega a comunidade, seu sangue é derramado. Numa tribo, a fala praticada fora da ordem política torna-se feitiçaria. Arbitrariamente cantadas, as canções solenes tornam-se vazias e fazem enlouquecer as pessoas, em vez de lhes dirigir as ações.

Comentário de Olavo de Carvalho sobre o último parágrafo :

Os católicos deveriam pensar nisso antes de festejar qualquer inovação litúrgica, por mais arbitrária e de mau gosto, como um sinal de "progresso" da religião. Quando S. Pio V, ao reunir e fixar o cânone da missa, lançou todas as maldições possíveis sobre quem alterasse uma só palavra do conjunto, ele sabia o que estava fazendo. É muito fácil para as pessoas que ignoram o que seja um ritual, e que nada enxergam fora da ótica estreita de uma política reduzida ao confronto estereotipado entre conservadores e progressistas, julgar que tudo pode ser explicado nesses termos. Mas as alterações num rito têm conseqüências que se prolongam para muito além da atualidade midiática e que dizem respeito à sanidade espiritual da espécie humana. A atmosfera de loucura e a criminalidade crescente das últimas décadas têm muito a ver com reformas litúrgicas, com a banalização da missa, bem como com o uso fragmentário, pelo show business, de canções solenes fora do contexto ou num contexto invertido.