A Barbárie dos Tempos Modernos

segunda-feira, dezembro 01, 2003

A Culpa é de Descartes

Se me pedissem para escolher um bode expiatório no qual se pudesse colocar toda a culpa dos males do mundo moderno, não hesitaria em apontar René Descartes.

Inconformado com as incertezas do conhecimento que recebeu, ainda de influência escolástica, e maravilhado com algumas descobertas científicas de sua época, o filósofo resolveu que daria um outro rumo aos seus estudos. Por ser a matemática a única ciência realmente confiável, partiu dela para construir seu edifício filosófico.

Mas o problema diante do qual se encontrava Descartes não era muito diferente do que se defrontaram os 3 maiores filósofos gregos. Apesar da certeza proporcionada pela matemática, ela não diz respeito ao mundo concreto. O método criado por Sócrates tentava aumentar o grau de certeza da investigação dos problemas do mundo real. Ele sabia que isso não poderia ser feito através da matemática, mas ela servia de parâmetro do tipo de conhecimento perfeito.

Descartes seguiu o caminho inverso : resolveu aplicar a matemática ao mundo concreto, e, para ter sucesso, descartou da investigação tudo aquilo que atrapalhasse a aplicação da matemática.

O que ele fez, então, foi desistir de conhecer grande parte do "conteúdo" do mundo e se conformar com uma pequeníssima porção dele.

Mas é claro que era preciso justificar isso tudo, afinal, se a coisa fosse dita assim, quantos não perguntariam pelo que seria feito da possibilidade de conhecimento que foi abandonada ? Então Descartes criou sua metafísica, através da qual nos explicou que o mundo é dividido em res extensa e res cogitans, ou em mundo material e mundo espiritual, e que um nada tem a ver com o outro. No mundo material, só o que existe é a extensão, portanto uma dimensão que pode perfeitamente ser estudada em linguagem matemática, o que possibilitou que o conhecimento humano da realidade se tornasse algo perfeito. Em resumo, e simplificando bastante, para conhecer o mundo bastaria medi-lo. E haja régua ! Bom, mas o que não faltaram foram réguas. Até hoje o que mais diverte alguns cientistas é criar mais e mais réguas, ou seja, instrumentos que possibilitem o estudo matemático do mundo.

E quanto mais essa ciência se desenvolveu, mais sucesso alcançou na produção de aparelhos que possibilitaram não apenas a medição do mundo mas que também trouxeram imenso conforto ao homem.

E qual o grande problema disso tudo ? O fato é que, ao desistir de conhecer a realidade e se conformar em entender apenas uma ínfima parte dela, o homem, na verdade, foi se tornando cada vez menos capaz de compreendê-la, mas sem perder a capacidade de agir sobre aquela fatia que estudou em profundidade. Ou seja, a extensão é mesmo uma parte da realidade, e o conhecimento obtido do estudo da extensão, apesar de não servir para compreender o mundo concreto, servia para que se pudesse agir sobre ela por essa via.

O que ocorreu, então, foi que o ser humano passou a agir sobre a realidade sem antes compreendê-la. E como era a extensão a única parte compreendida, foi também o único benefício que o homem teve : naquilo que é mensurável, seu mundo melhorou bastante. Desde a revolução industrial, é impossível negar o quanto melhorou a condição de vida material do homem.

Mas em Descartes nada disto estava explícito. Ele acreditava que a realidade era mesmo pura extensão e que, ao estudá-la, estaria compreendendo-a. Quem acabou com a farsa de uma vez por todas foi Marx, que, não percebendo que a coisa já estava nesse nível desde Descartes, revoltou-se contra o que não havia para se revoltar e decretou que o homem não precisaria compreender o mundo, bastaria transformá-lo.

Depois de tudo já tão explícito, a chance da humanidade era a de rever a situação e tentar mudar o rumo dos acontecimentos. Mas o que está ocorrendo é que cada vez mais o homem aumenta o abismo entre a realidade e a fantasia. Só que este já é um assunto para um próximo post, provavelmente uma continuação deste aqui.