A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, dezembro 16, 2003

Uma História de Mundo Novo

Quem conseguir ler até o final, ganha uma fatia de torta de jaca mole ou meio quilo de umbu sem maionese.

Dúvidas, queixas ou reclamações, favor se dirigir à banca examinadora.

Diziam muitas coisas de seu Turrão, mas agora todos achavam que estava passando dos limites. Famoso por sua teimosia e poder de persuasão, ganhou o apelido com justiça. Às vezes negava algumas histórias, quando costumava piscar o olho esquerdo, deixando-o entreaberto, e puxar o canto da boca para o mesmo lado em direção oblíqua superior, num ar de desdém e desaprovação. Entre verdades e mentiras, as lendas foram se criando e impregnando o inconsciente popular daquele pequeno lugar. Mundo Novo era um minúsculo povoado a 30 minutos da cidade, Japaratuba, que distava 60 quilômetros da capital, local realmente apropriado para a rápida difusão de casos inacreditáveis.

Diferentemente do que muitos pensavam, seu Turrão era um homem bem humorado, e costumava distrair a vizinhança em noites de lua cheia. Quase sempre o papo prosseguia amistosamente até que ele resolvia defender uma de suas teses maravilhosas, deixando os ouvintes estupefatos. E quão estranhas e inéditas eram estas !

Podia prever as chuvas baseando-se no barulho das chaleiras das casas da região nos últimos dias. E justificava a ausência das águas pela passagem de algum avião que teria desfeito a concentração do vapor. Sabia tudo sobre a NASA e as viagens espaciais. As crianças sonhavam noites e noites com o jogo de bola de gude na lua, pois não havia outro terreno mais apropriado para a brincadeira. Era cheia de buracos e não era necessária muita força para lançar a bolinha longe. Os participantes tinham que ficar a quilômetros de distância uns dos outros, comunicavam-se por um aparelho portátil e o vencedor era conhecido através de um relato feito por um observador a uma altitude inimaginável, portando lentes de aumento poderosíssimas. Algumas teorias eram bastante complexas. A Terra havia acelerado seu movimento de rotação nos últimos milhares de anos, o que estava causando um desgaste nos pólos e a deixando cada vez mais achatada. Em pouco tempo isso comprimiria o magma de seu interior e o planeta implodiria subitamente. Já se falou sobre muitas formas de fim do mundo, mas esta era realmente inovadora. Os presentes ficavam perplexos e tendiam a acreditar. Seu Turrão ainda reforçava que aquilo já era de total conhecimento dos cientistas, que não abriam o jogo apenas para evitar tumultos desnecessários.

Mas desta vez ele realmente estava indo longe demais: provar que Deus era brasileiro e, acima de tudo, era de Mundo Novo. Aquilo transformava aquele pequeno povoado no lugar mais importante que existia. Antes mesmo de saber do que se tratava, todos já estavam com a auto-estima elevada. Alguns moradores sorriam à toa, outros faziam pouco caso das pessoas quando iam à cidade. Consideravam-nas seres inferiores, sem nenhum prestígio. O boato logo se propagou e chegou ao conhecimento dos japaratubenses. Uma parte dizia não ter nascido ali e que era descendente de cidadãos de Mundo Novo. Outros tentavam explicar que sempre tiveram umas terrinhas por lá e que agora procurariam construir sua morada definitiva naquele pacato lugar. Ou, pelo menos, fazer uma pequena roça, de onde tirariam seu sustento. Mundo Novo começou a crescer a todo vapor. Vários comerciantes foram praticamente obrigados a abrir filiais. Muitos diziam que não valeria a pena, pois o transporte era difícil e o custo dos produtos não encontraria compradores à altura. Um sacrilégio ! Mas a prefeitura resolveu intervir. Selecionou algumas bestas para realizar a movimentação dos artigos até o pitoresca região. Turistas que chegavam à cidade não permaneciam minutos e já se dispunham a partir para desvendar os segredos do lugar tão falado. Dizer que houve uma inversão de importância entre a cidade e o povoado seria um exagero, mas a concretização da história de seu Turrão certamente o faria.

A data da apresentação da prova estava marcada para o Natal. Ninguém enfeitou árvores ou colocou presentes em seus pés, nem houve reuniões de família, nada. Todos se dirigiram à praça principal de Mundo Novo, local marcado pelo profeta para a exibição. As pessoas se entreolhavam. As nativas torciam para que não houvesse decepções, as da cidade ganharam aquele olhar meio desconfiado, meio vingativo. Seu Turrão mandou construir uma cerca em volta da praça e, do seu centro, comandou o espetáculo. Havia grande aglomeração e a multidão já quase derrubava as estacas. Iniciou o discurso dizendo que aquele seria um momento inesquecível tanto para Mundo Novo quanto para o Novo Mundo que surgiria a partir dali. De repente, houve como que uma paralisia generalizada, tanto de fala como de gestos. O discurso aterrador havia sido pronunciado :

- Deus não é apenas brasileiro, como muitos gostam de dizer, mas também é cidadão desta cidade e deste povoado, porque eu sou Ele, ou se preferirem, Deus sou eu.

Dito isto, seu Turrão sumiu debaixo da Terra sob o olhar incrédulo dos espectadores. Tentava-se pular a proteção, mas, enquanto isso, o homem divino já gritava a 50 metros do palco em cima de uma pequena caixa de madeira. No entanto, após o primeiro berro, caiu ao chão. Todo o povo presente correu em sua direção, mas um médico da cidade teve a preferência da aproximação. Tomou os pulsos e fez uma ausculta cardíaca. Estava morto. Um provável infarto do miocárdio fulminara sua existência num momento célebre.

Em Mundo Novo, todos eram cristãos fervorosos, mas, depois daquele dia, muitos também passaram a ser turronistas, algo que, se não poderia ser considerado como religião, era, pelo menos, uma crendice levada muito a sério. O natal passou a ser o dia do nascimento de Jesus e o da morte de seu Turrão. Às vezes grandes discussões surgiam entre os adeptos e os críticos da seita :

- Deixa disso, você está sendo enganado. Não consegue enxergar isso ? Já foi provada a existência do antigo túnel desconhecido de todos e que deu acesso a seu Turrão para se transportar para fora da praça. Não houve milagre. Foi tudo um truque.

- Você é que não quer ver o óbvio. Como justificar a morte e a ascensão aos céus em forma de raios ?

- Raios ? Ascensão ? Como é ?

- Vejo que você nada sabe sobre o turronismo. Não lhe disseram ainda sobre o túnel formado de buracos negros que conduziu o grande mestre à eternidade ? Hoje sei que muitos túneis aparecem em nossas vidas. Precisamos ter a coragem suficiente para atravessá-los, mesmo que depois da travessia, não suportemos a dor do que encontrarmos.

A filosofia estava se formando ...