A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, janeiro 30, 2004

Os cinco gigantes

A pequenez do nosso mundo tem obrigado os grandes a se recolherem a seus casulos. Notamos em seus gestos, em suas falas, em seus escritos uma certa melancolia, às vezes escondida, às vezes escancarada. A melancolia de quem sabe que tem poucos ao seu lado. Ou que ao seu lado mesmo não tem ninguém, porque estão muito distante.

Se é triste ver os grandes tão sós, é animador saber que perdem cada vez menos tempo com bobagens. Que estão ficando tanto mais ranzinzas quanto menos condescendentes. Que se interessam tanto menos pelo mundo quanto mais pelo Espírito. Tento decifrá-los: num baile a fantasia, a sala completamente escura, a música estremecendo as paredes e movimentando os corpos, o sorriso imbecil decorando as faces, os pensamentos pairando sobre as genitálias, o cheiro denunciando a moral; e num canto claro, de onde resplandece uma luz ofuscante, que tenta se espalhar pelo ambiente mas é detida por uma parede de fumaça, onde ninguém os vê, lá estão quatro ou cinco pequeninos homens, numa concentração tamanha que lhes incha o corpo, lhes insufla o Espírito e os torna rapidamente tão gigantes que já não conseguem sequer ouvir a música, enxergar a sala ou sentir o odor abjeto que lhes impregnava as narinas. Em pouco tempo, já são tão altos que não mais enxergam abaixo das nuvens, e apenas o Sol está acima de suas cabeças. E dentro da casa, ninguém ainda percebeu que ela foi destruída, que a música parou e a fumaça se dissipou. Continuam dançando e tentando sorrir como antes, mas o sorriso já não convence mais ninguém. Fingem que nada aconteceu. E procuram imaginar que são tão felizes quanto sempre sonharam.

Sim, esses quatro ou cinco gigantes existem. Mas não são muitos os que conseguem vê-los. É preciso ter bom cheiro, ouvidos imunes ao barulho e, principalmente, saber soprar a fumaça.

O que é o homem ?

Escrito por Ronaldo Castro de Lima Jr.

As definições de Homem podem ser agrupadas a partir do confronto entre o Homem e Deus ; a partir das características ou capacidades próprias do homem ou definições que exprimem a capacidade, do homem, de autoprojetar-se. Qualquer que seja a definição do homem, parece sempre estarmos diante de um paradoxo, pois aquele que pergunta é a própria resposta, conforme o mito de Édipo (o de pés inchados) , que anda em busca do próprio destino.

Não seria então uma espécie de loucura essa busca? Estaríamos condenados qual Sísifo a rolar uma pedra montanha acima, para logo em seguida tê-la de volta sobre nós e novamente a tentativa de elevá-la...? O existencialismo parace ter se fixado nessa imagem encantatória de auto-flagelação dessacralizada. Há outras concepções mais lúcidas.

Cassirer começa logo por afirmar que o conhecimento de si próprio é a meta mais elevada da indagação filosófica. Observamos na história da filosofia que alguns problemas ou teorias foram adiados, negados, esquecidos ou desprezados, e também retomados com novas forças e perspectivas, mas a temática do homem permanece invariável. Qualquer que seja a inquirição , ainda há quem inquire. Mas isso leva a crer que o homem é o próprio fim a que procura? O sentido da busca é a própria busca?

Essa perspectiva excepcionalmente subjetiva inaugurou a nossa modernidade.

Descartes inaugurou a modernidade com seu cogito ergo sum, admitindo a primazia do homem por sobre toda a realidade, acima de qualquer dúvida e a dúvida por cima de toda a realidade. Decartes, ao procurar a única certeza possível acerca do mundo, chegou a conclusão de que poderia duvidar de tudo menos do fato de que duvidava. O deus cartesiano, causa e fundamento da realidade, estaria como que em nenhum lugar , independente , restando-nos o dever de dominar nossos atributos, a razão, e devotá-la toda a nossa força e atenção. O método cartesiano, baseado na dúvida, inaugurou uma postura crítica em relação à natureza, o que revela o forte humanismo da modernidade.

Na história da filosofia , o ceticismo tem sido, com freqüência, simplesmente a contrapartida de um resoluto humanismo.

La plus grande chose du monde c'est de sçavoir etre à soy, escreve Montaigne.

A filosofia moderna ainda muito se debate sobre a Teoria do Conhecimento, visto que sempre esbarramos com o paradoxo do ser que se pensa, como se o conhecimento da própria causa de ser fosse inexpugnável, inconquistável. A psicologia moderna trouxe alguns avanços no campo da introspecção, da percepção imediata de sentimentos, emoções, pensamentos, etc, mas sempre restrito a um aspecto do ser, a fenômenos subjetivos, individuais, restritos, sem uma ampla visão da natureza humana.

A filosofia moderna, que é aristotélica numa lógica cega e platônica num idealismo surdo, restringiu o sentido do conhecimento humano às percepções de seus sentidos.

O próprio Aristóteles está convencido de que o conhecimento científico não é possível apenas através do ato da percepção.

O ponto de vista mais fisiológico ou orgânico , na psicologia, afirma que as primeiras etapas do conhecimento humano concerne exclusivamente ao mundo externo. No entanto, com o desenvolvimento da cultura humana, logo observamos a tendência oposta. Ao despertar da consciência humana, encontramos uma visão introvertida da vida, que deve acompanhar e complementar a extrovertida. Na mitologia encontramos sempre uma antropologia ao lado de uma cosmologia, indicando que o problema da origem do mundo está inextricavelmente entrelaçado com o da origem do homem.

O conhecimento de si mesmo não é apenas uma das inúmeras especulações filosóficas. É uma obrigação fundamental. Em todas as formas superiores de vida religiosa, a máxima Conhece-te a ti mesmo é considerada como um imperativo categórico, lei religiosa e moral básica.

Na Grécia , o pensamento do homem só atingiu plena maturidade em Sócrates, que ainda assim, não critica outras teorias, nem tenciona introduzir uma nova doutrina filosófica. Trata, isto sim, de colocar todos os problemas sob a ótica de um novo centro intelectual. Essa tendência antropológica seguirá a história até nossos dias, permanecendo com a mesma pergunta : Que é o homem ?

Dizem que é aquele que busca a si mesmo, precisando em todos os momentos manter essa busca, essa interrogação, o que seria isto mesmo o verdadeiro valor da vida humana. Uma vida que não é examinada, não vale a pena ser vivida, Sócrates em Apologia.

É por isto que o homem é um ser moral, responsável, pois precisa dar uma resposta a si mesmo e aos outros. Essa necessidade lhe é dada, é natureza de seu ser, por isso não se trata só de aspectos morais, mas de aspectos metafísicos do homem. Sua razão, se defronta com leis, do mundo e de si mesmo, como expressões de um único princípio. Ao mesmo tempo que essa concepção estreita os laços do homem com a natureza, indica sua independência moral. Em algumas linhas de pensamento esse paradoxo é conflituoso, em outras, como no estoicismo, é correlato. No cristianismo, a independência absoluta do homem é considerada vício e erro. Esse dilema segui a história.

S.Agostinho, pioneiro do pensamento medieval e da dogmáica cristã, demonstra que o poder da razão era exaltado como o mais alto poder do homem, mas o que o homem nunca poderia saber, enquanto não fosse iluminado por uma revelação divina, é que a própria razão é uma das coisas mais discutíveis e ambíguas do mundo. Mesmo S.Tomás de Aquino, discípulo de Aristóteles, e que volta às fontes da filosofia grega, não se desvia do dogma fundamental da graça divina.Trata-se de uma revolução, pois antes a razão era objeto do orgulho da dignidade humana, agora torna-se perigo e idolatria.Mais tarde, a modernidade traz novamente o orgulho racionalista governando o mundo. É quando encontramos Pascal que mesmo admitindo que na natureza não há nada que resista à razão, converte-se em paladino extemporâneo da antropologia filosófica medieval. Filósofo que era não se contentava com o aspecto quantitativo do progresso mecanicista.

A religião não nega , nem esclarece o mistério do homem, mas o confirma e o aprofunda . A religião seria pois uma espécide de lógica do absurdo, pois assim consegue entender a absurdidade , a contradição interior, o ser quimérico do homem.O homem é mais inconcebível sem este mistério que este mistério é inconcebível para o homem - Pascal.
Mas a revolução científica, a nova ciência, em sua pretensão de desvendar todos os mistérios, reduzindo-o ao mero desconhecimento de uma mecânica, se torna a base sólida para uma nova antropologia, visto que as novas descobertas não eram respondidas nem pela metafísica clássica nem pela religião ou teologia medieval. O homem numa escala hierárquica, sob uma providência divina não cabia mais na nova cosmologia, que o colocou num espaço infinito e mudo ao lamento humano. O sistema copernicano tornou-se um dos mais vigorosos instrumentos do agnosticismo e ceticismo filosóficos do século XVI.

Mas longe de enfraquecer a razão humana , pelo ceticismo, a modernidade a enalteceu, pois ela passava a estabelecer a confirmar os novos parâmetros. Tal foi a tarefa dos séculos XVI e XVII : transformar a maldição da razão em benção, a dubiedade da razão em instrumento de precisão. O infinito era agora o palco da razão. Os grandes pensadores que se seguiram (Galileu, Descartes, Leibniz, Espinosa,etc) participaram dessa jornada. Descartes começa por encerrar o homem a sua própria consciência, parecendo não haver meios de se sair dessa cadeia nem de se aproximar da realidade.Neste ponto a idéia do infinito se revela o único instrumento para desfazer a dúvida universal, demonstrando a realidade de Deus e, de forma indireta , a realidade do mundo material. Leibniz instrumentaliza essa idéia com a matemática : o cálculo infinitesimal, cujas regras tornam inteligíveis o universo físico. Espinosa tenta solucionar a questão moral também com artifícios lógicos matemáticos, construindo uma nova ética, convencido de construir uma teoria do homem isenta de erros e desvios.

A razão matemática passa a intermediar o homem e o universo. No entanto a glória matemática é interrompida pela biologia ( Darwin e a Teoria das Espécies) que diz não ser necessário desenvolver esquemas mentais para definir o homem, mas tão somente coletar os dados empíricos da evolução do homem. Vale lembrar que Aristóteles já salientara esse aspecto evolutivo, mas sob uma interpretação formal e não material como agora. Mas seria o mundo cultural igual ao orgânico ? Não possui uma teleologia definida e inegável ? Esse era o próximo desafio para os filósofos evolucionistas : provar que a cultura é reduzível a umas poucas causas gerais que são as mesmas para os fenômenos físicos. Aqui encontramos Hippolyte Taine, que diz ser a mesma mecânica que envolve a vida física e a cultural, sentimentos, inclinações, idéias, etc.Mas não é suficiente enumerar nossos impulsos ou características espirituais. É preciso sistematizá-los, encontrar sua estrutura. Todos os autores da época se apoiam em dados , mas a unidade que se busca do homem fica à mercê de interpretações arbitrárias que se complicam. Nietzsche proclamou a vontade do poder, Freud assinala o instinto sexual, Marx entroniza o instinto econômico. Cada teoria passa então a se esticar para caberem nos dados empíricos que sempre exigem interpretações.Hoje temos uma anarquia de pensamento, pois não temos mais um centro em torno do qual as várias visões gravitem. Nem mesmo dentro de uma mesma especialidade há concordâncias gerais. O fator humano passou a prevalecer e o temperamento do escritor a desempenhar um papel decisivo. Continuamos desenvolvendo a quantidade de informações acerca do homem e do mundo, mas carentes de organização e domínio desse conjunto. Ernst Cassirer aponta para o mito ao denunciar essa encruzilhada humana, conclamando encontrar o fio de Ariadne. O mito, radical do infinito, orígem da mística, do mistério, do silêncio da vida pode nos revelar algo. O mito como uma narração do inenarrável indica as estruturas internas do mundo. É por isso que só o silêncio pode nos falar acerca desse grande mistério; é assim que toda revelação é um velar novamente. Assim como em Édipo, que nada compreendendo acerca de seu destino , manda chamar um cego advinho (sinal da transcendência) que tudo via, para solucionar o caso do reino. O cego , Tirésias, responde com mais enigmas, mas que ao fim da trama era a única resposta possível.

"Em nenhum outro período do conhecimento humano o homem se tornou mais problemático para si mesmo do que em nossos dias" - Max Scheler

quarta-feira, janeiro 28, 2004

A Moda Segundo Nivaldo Cordeiro

Comecei a escrever um texto sobre moda, principalmente no que se refere ao vestuário, mas me lembrei desse artigo de Nivaldo Cordeiro e resolvi editá-lo e postá-lo, já que é praticamente tudo que penso a respeito do assunto.

A moda, à parte o seu caráter frívolo e por vezes esnobe, pode ser um bom instrumento para a compreensão sociológica e psicológica dos grupos humanos. Reflete não apenas os costumes, mas também a moral vigente. A moda do vestuário é o invólucro do corpo e, como tal, dá a perceber como as coisas mundanas são vividas pelas pessoas. Na chamada Era Vitoriana, por exemplo, com forte influência do puritanismo religioso, as vestes procuravam ocultar o corpo, em consonância com a máxima de que no mesmo estava o pecado. O corpo era envolvido pelas vestes partindo da suposição de que o mesmo se opunha às coisas do espírito, cabendo portanto ocultá-lo, antes que embelezá-lo. Dito de outra forma, embelezá-lo era ocultá-lo. O pecado afinal é algo feio.

O século XX trouxe o relativismo moral trabalhado politicamente, seja pela chamada revolução sexual, que partiu de certa leitura da obra de Freud por seus epígonos, como Marcuse e Reich, seja pela ação política baseada na obra de Gramsci, a partir da disseminação dos ideais coletivistas de corte marxista. Esses movimentos sempre tiveram os valores cristãos como seu inimigo declarado, especialmente a sua ética individualista, a qual, em tudo e por tudo, opõe-se aos ideais coletivistas.

Meditei sobre isso ao observar as tendências de moda da atualidade. O jeans virou o uniforme de gado para praticamente toda a juventude. Mais recentemente, não apenas esse tecido, mas outros, são utilizados agora propositadamente para a confecção de peças rasgadas e remendadas, um acinte ao bom gosto. Pagam-se fortunas por roupas esfarrapadas, que fariam corar de vergonha as nossas avós. Da mesma forma, o uso indiscriminado de tecidos transparentes, de roupas curtíssimas que desnudam ventres, pernas e regiões genitais, são tidas como socialmente aceitáveis e sinônimo de bem vestir. Estar na moda é desnudar o corpo e parecer esfarrapado.

Hoje em dia é impossível distinguir, pelo vestuário, uma moça de família de uma profissional do sexo. Talvez até mesmo pelas licenças que se dão, uma por dinheiro, outra por puro hedonismo.

De uma tacada só homogeneizou-se o vestuário coletivo, destruiu-se a moral cristã e identificaram-se as pessoas ricas com os pobres, ao imitar os seus remendos e os seus farrapos. Além do preço, a única coisa a distingui-los é a etiqueta de origem. Não dá para não perceber a motivação política na forma de se vestir.

A alta costura, então, é algo digno de estudo. Farrapos, mal gosto, cores berrantes, nudez supostamente vestida, tudo combinado só mostra que o ramo da moda está todo ele tomado pelos niilistas, inimigos declarados dos valores cristãos. É como se seus criadores quisessem contribuir para a revolução mundial pelo uso e abuso da exibição da peças íntimas do vestuário, em exibição despudorada das genitálias. O fenômeno é mundial.

O gado que se homogeneizou pela moda é ainda mais igual por dentro do que por fora. Não há mais individualidades, mas uma multidão de zumbis, obediente ao deus Dionísio renascido, cultuado pelos sacerdotes do coletivismo. Qual mênades modernas, as multidões embriagam-se nas orgias se sexo, drogas e violência.

Dionísio, diga-se de passagem, é associado na mitologia cristã ao próprio Diabo. Mais não precisa ser dito.

terça-feira, janeiro 27, 2004

Lula contra o desemprego

Finalmente o Governo Lula resolveu tomar alguma medida para combater o desemprego. Já era hora!

Um aviso : O Fabio Ulanin agora está aqui

domingo, janeiro 25, 2004

O liberalismo cristão de Cervantes

A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens. Com ela não se podem igualar os tesouros que a terra encerra e o mar encobre. Pela liberdade, assim como pela honra, pode-se e deve-se arriscar a vida. Ao contrário, o cativeiro é o maior mal que aos homens pode sobrevir. Digo isto, Sancho, porque bem viste o regalo e a ambundância que tivemos neste castelo de que saímos. Em meio daqueles banquetes lautos, daquelas bebidas de neve, parecia-me estar metido nas aperturas da fome, porque não os gozava com a liberdade com que os gozaria se meus fossem. As obrigações de recompensas as mercês e os benefícios recebidos são ataduras que não deixam campear o ânimo livre. Venturoso aquele a quem o céu deu um pedaço de pão, sem lhe ficar a obrigação de agradecê-lo a outro que não o próprio céu!

Se Dom Quixote soubesse que a moda um dia seria a de promover revoluções para os gozar como se seus fossem!

sexta-feira, janeiro 23, 2004

A Crença dos Ateus

Infelizmente o post que prometi não ficou como eu imaginava. Tanto o modifiquei que acabou ficando bem distante do assunto abordado no link indicado.

Só existe cultura porque o homem acredita em Deus. Não há exemplos na história de culturas produzidas por ateus. Se um ateu é capaz de contribuir de alguma forma para o crescimento cultural é por ter absorvido inconscientemente o espírito deísta ou teísta de sua época e ter sido capaz de traduzi-lo em arte, ainda que não admita a influência.

O que não quer dizer que todos os povos que acreditaram em Deus tiveram uma grande cultura. Muitos deles produziram uma cultura medíocre. Mas o fato é que não existe cultura sem Deus. Nem medíocre.

Considerando que é a cultura que diferencia o homem dos animais, não é absurdo achar que ela seja fruto de uma abstração humana? Não parece estupidez acreditar que Deus á apenas resultado da imaginação dos homens quando se sabe que foi justamente essa imaginação que os levou a criar o que há de mais importante para eles e para o mundo, que é a sua cultura? Não parece uma imbecilidade crer que aquilo que caracteriza os homens seja resultado de um distúrbio psicológico? Sim, porque achar que Deus é apenas um ser inventado por nós para que tenhamos a quem recorrer em nossos momentos de dor e sofrimento, é o mesmo que afirmar que a cultura é um distúrbio de consciência.

Acreditar, por exemplo, que Jesus Cristo foi apenas um homem de carne e osso como qualquer um de nós e que o Cristianismo é apenas o resultado de invencionices criadas em torno da figura de Jesus é achar que toda a cultura ocidental é uma mentira.

Para que o homem possa acreditar no homem, é preciso que acredite primeiramente em Deus. Um ateu, por exemplo, diz que não tem provas da existência de Deus, mas tem provas de que o homem existe, por isso acredita no homem mas não acredita em Deus. Em resumo, o que ele está dizendo é que só acredita no homem sem Deus. E quem é o homem sem Deus? Não é o homem. O homem sem Deus ou não existe ou é resultado de uma ilusão. Sim, porque o homem é aquilo que fez, e tudo que ele fez foi em nome de Deus. Se Ele não existe, então o homem também não existe, e se Deus á apenas uma ilusão, o homem também é simplesmente uma ilusão.

Pelo que foi exposto, está provado que todo aquele que não acredita em Deus não acredita nem nele mesmo. Se nem ele acredita nele próprio, quem será capaz de acreditar? É por isso que Chesterton disse que o homem que não acredita em Deus acredita em tudo. Se ele acha que tudo é apenas uma ilusão, o que o impediria de acreditar no que quer que fosse? Na ilusão, tudo é possível. No fundo, o ateu é um bobinho que acredita em ilusões.

quinta-feira, janeiro 22, 2004

Um aviso e um link

O próximo post, que ainda está em processo de elaboração, terá relação com este tema. Publicarei hoje à noite ou amanhã à tarde.

terça-feira, janeiro 20, 2004

O intolerante

Será que é necessário entender de economia para descobrir que o valor de uma mercadoria não depende da força de trabalho empregada na sua fabricação ? Não é a coisa mais óbvia do mundo ? Se não for, é a segunda.

Quem é que não sabe que um uísque envelhecido vale mais que um uísque novo, e que a força de trabalho aplicada para a obtenção dos dois foi a mesma ? Quem não sabe que um diamante vale muito mais do que um carro de luxo, e que para a fabricação deste último foi usada muito mais mão de obra ?

Então como ainda existe quem leve a sério o que Marx disse, meu Deus ?

E o pior, depois vem um sujeito e diz que uma mercadoria vale, na verdade, o quanto as pessoas se dispuserem a pagar por ela. Pronto, volto atrás. A coisa mais óbvia do mundo é esta aqui. Aquela lá é a segunda mesmo.

Depois me chamam de intolerante. Se não bastasse ser óbvio o erro, mais óbvio ainda é o acerto. Estando a coisa assim nesse nível de esclarecimento, não é um sinal de estupidez medonha que alguém ainda se dê ao trabalho de questionar estas coisas ?

Agora, se você quiser conhecer algo que vá um pouco mais além, mas que também não exige nenhum conhecimento econômico, clique aqui e fique sabendo o que tem a ver o liberalismo com a doutrina social da Igreja. Imprima e leia. Vale a pena.

domingo, janeiro 18, 2004

As menininhas e os Santos

Segundo FDR, discutir sobre a existência de Deus é coisa de menininha. Concordo inteiramente com ele. Imaginem Einstein tentando explicar a teoria da relatividade a uma menininha. (Ele mesmo afirmou que qualquer teoria só é válida se você puder explicá-la a uma criança). O que ele teria que fazer ? Imaginar uma forma pela qual ela pudesse compreendê-lo. Para tal, precisaria se imaginar como uma menininha que conhecesse a teoria da relatividade e quisesse explicá-la a uma amiguinha da sua idade.

Foi isso que fizeram, por exemplo, Santo Anselmo e Santo Tomás de Aquino. Tentaram pensar numa forma de convencer menininhas de que Deus existe, algo tão óbvio para eles quanto para a grande maioria das pessoas, usando a única maneira pela qual elas poderiam entendê-los : a razão. Quando Santo Tomás discordou do argumento de Santo Anselmo estava apenas dizendo que não achava que as menininhas o compreenderiam através daquele raciocínio. Achou que elas bateriam o pezinho, fariam beicinho e correriam para o colo da mamãe. Como menininha, Santo Tomás se imaginou mais conversador, mais sonhador. Santo Anselmo era uma menininha que ia direto ao ponto. Mas, no fundo, nenhum dos dois pensava como menininha. Apenas fizeram a caridade de descer àquele nível para que algumas delas pudessem crescer um pouquinho.

O invejoso

Ah como sinto inveja dos que nunca ouviram falar em Noam Chomsky ! Ah como invejo os que não sabem da existência de Charles Chasteen ! Como gostaria de estar no lugar dos que nunca leram Marx, Marcuse e Nietszche ! Como me dói saber que não estou entre os que nunca tiveram que elaborar um argumento contra as teses de Marilena Chauí ! Como meu ser clama por desconhecer a filosofia de Sartre ! Quão grande é minha inveja dos que nunca degustaram um livro de Rubem Fonseca ! Quão sortudos são os que nunca se depararam com as proposições de Feuerbach ! Como gostaria de nunca ter lido Freud ! Como queria estar entre os que nunca se embrenharam na literatura de Chico Buarque !

Esperem. Ia me esquecendo de dizer que um dos meus maiores erros foi nunca ter linkado este blog. Só para degustação :

Às vezes acho que reler é insuperável. Voltar a determinados aposentos e perceber que algumas coisas mudaram mesmo sem ter mudado - sua *percepção* delas é que mudou, o nível do seu entendimento - , ter a chance de notar um subtom na frase de um personagem, uma malícia antes dichavada. Er... camuflada. Sentir o ranger (é quase audível) dentro de seu crânio enquanto paisagens e cômodos obscurecidos recebem nova luz.

Tenho alguns livros que viram ímãs de seis em seis meses, aproximadamente. Parecem dizer: "Ei, você não viu isto! Olhaqui meu Deus, eu não acreditoooo! Que coisa! Vem ver!"

Exibidos.

sábado, janeiro 17, 2004

Elogiando a Ciência. Finalmente !

Muitos têm uma concepção bastante equivocada de minha visão científica (refiro-me à ciência iluminista). Percebi o fato em alguns e-mails que recebi e em alguns comentários que aqui foram feitos.

Minha crítica à ciência se restringe à sua pretensão filosófica e religiosa. Sim, porque mesmo que não admita, a ciência contém muito mais dogmas do que qualquer religião. E as elaborações filosóficas dos cientistas sobre suas descobertas são quase sempre estapafúrdias. Devido à crença popular em sua exatidão, muitos imaginam que suas conclusões podem ser ampliadas a todos os campos do conhecimento humano.

O fato de algo funcionar adequadamente ou trazer o bem às pessoas do ponto de vista prático não significa, em hipótese alguma, que está correto em teoria. Um alvo pode ser atingido de várias formas, tanto intencionalmente quanto sem intenção alguma.

Você está dizendo que a ciência é fruto do puro acaso ? Não. Mas a sua eficiência na prática não decorre de uma visão correta da realidade, mas apenas da parte da realidade que precisa ser conhecida para que a ciência possa exercer sua função.

Esse erro de perspectiva acaba gerando uma grande distorção no conhecimento que o homem tem da realidade em seu sentido mais amplo.

Mas, por não compreenderem a nuance desse meu pensamento, muitos acham que sou contra a ciência. A verdade é justamente o oposto. Acredito na metodologia científica enquanto meio prático para resolver os problemas humanos.

O marxismo, por exemplo, é uma enorme bobagem justamente por não ser uma ciência. A medicina alternativa segue o mesmo caminho.

Falando nisso, detesto naturebas. O cara deixa de tomar uma dipirona ou um AAS porque acha que o combate à febre pode lhe causar um câncer no futuro. Digam-me : isto faz sentido ? Até hoje, nenhum trabalho científico associou o uso de antitérmicos a uma maior incidência de câncer. Quem acredita nisso é um homem de muita fé.

O cara acredita em todas as notícias divulgadas na internet a respeito do uso de adoçantes, mas não se dá ao trabalho de procurar algum artigo científico em que a associação destes com o câncer tenha sido comprovada. E resolve consumir açúcar mascavo porque é "natural". Ora, que a pessoa não use adoçante porque tem o gosto ruim, tudo bem, mas porque dá câncer ? E açúcar mascavo, aqui pra nós, é uma porcaria.

O sujeito deixa de usar levotiroxina para tratar sua tireóide deficiente porque é "artificial". Prefere tomar extrato de tireóide de boi ou ingerir iodo das algas marinhas. Ora, extrato de tireóide de boi é muito mais artificial para o homem do que a levotiroxina, cuja estrutura é exatamente igual à que circula no organismo humano. E o iodo das algas não vai corrigir o problema porque a maioria dos casos não se deve mais à carência de iodo.

Durante 8 anos o cara leva o filho para tratar da asma a um pneumologista. Apesar das melhoras e da atenuação das crises, fica inconformado porque a criança não ficou curada. Então, resolve levá-lo a um homeopata. Quando o filho completa 12 anos, deixa de ter crises e o sucesso é atribuído ao tratamento homeopático, não sabendo que 80 % das crianças deixam de ter asma após os 12 anos.

Vou parar por aqui. Acho que deu para entender o espírito da coisa.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Você fazia teatro na cama quando era pequeno ? Fazia ? Então vá ler, seu estúpido !

quarta-feira, janeiro 14, 2004

Faculdade de Teologia ... Umbandista ?

De acordo com o que li aqui e constatei aqui, será inaugurada no Brasil a primeira Faculdade de Teologia Umbandista. Não me perguntem o que a Umbanda tem a ver com Deus, porque só saberia dizer sobre suas ligações com o diabo.

Já estão providenciando as tais cotas, para que os negros não saiam perdendo, é claro. O que signfica que os brancos que se interessarem pela faculdade dificilmente conseguirão uma vaga. Será engraçado ler os comentários que surgirão : "Estão vendo como este país é racista ? O negro se interessa pela cultura do branco, mas o branco não dá a mínima para a cultura negra !" Nem precisarei alegar a óbvia superioridade da cultura européia, apenas direi : "Foram vocês que quiseram assim".

Agora, deixando um pouco de lado a formalidade, não dá vontade de matar o Dimenstein por falar tanta abobrinha ?

terça-feira, janeiro 13, 2004

Os bons viram à direita

O Rafael Reinehr deixou aqui um comentário reconhecendo a qualidade dos blogs que linkam o Mídia Sem Máscara e Olavo de Carvalho. Inspirei-me nele para escrever este post.

Se considerarmos a divisão direita-esquerda, os blogs aos quais se refere o Rafael são classificados entre os de direita.

Não me parece difícil justificar a constatação. Para ser de esquerda, basta pensar como todo mundo pensa, revoltar-se contra tudo que não estiver indo bem e elaborar meios pelos quais o Estado possa corrigir a situação. Não adianta insistir, não passa disso. E isso é o que todo mundo diz, é o que todo mundo acha. Ninguém precisa estudar para chegar a estas conclusões.

Para ser de direita, não. Primeiramente, é preciso coragem para admitir que é de direita, e essa coragem só pode vir de um convicção racional (e não emotiva) do seu posicionamento político. Algo estruturado, de alguém que sabe separar bem as coisas.

Para tanto, é necessário estudar. E estudar muito. À exceção do Giovani, todos os outros blogueiros de direita com quem tenho mais contato já foram de esquerda. E não mudaram simplesmente porque Paulo Francis ou Olavo de Carvalho disseram que mudassem. Para todos, o processo foi árduo, exigiu muita dedicação, provocando mudanças inclusive no relacionamento com os amigos.

É natural, portanto, que estas pessoas tenham blogs de qualidade, porque sabem exatamente o que estão dizendo. Excetuando-se uns poucos, que não têm o menor dom para a escrita, quase todos são muito bons.

Não estou dizendo que todos os blogs de esquerda são ruins, mas que é muito mais fácil encontrar blogs ruins de esquerda. Disso não tenho a menor dúvida.

domingo, janeiro 11, 2004

Religião e Rap Cubano

E lá estava eu. Por mais que tivesse me visto naquele aniversário, não me reconheci quando me encontrei prostrado naquele sofá azul. A noite cheirava a pizza. Tentava, em vão, pensar nas considerações simbólicas de Paulo Mercadante. O cara mais interessante que encontrei para conversar foi um negro que só gosta de música negra. Disse-me que religião é algo que se sente, não pode ser estudada. "Claro, eu mesmo ando tendo visões sempre que a lombalgia me ataca, e estou certo de que ela está me aproximando de Deus". Mas resolvi ser cortês e elaborei alguns argumentos meio despretensiosamente, ao final dos quais ele, com cara de intelectual, afirmou que entendia perfeitamente o que eu tinha dito, mas continuava achando que religião é algo que se sente no coração. "Pronto, minha religião lombálgica foi por água abaixo, agora terei que criar a seita do Infarto do Miocárdio e da Angina Pectoris". Contive-me mais uma vez.

Rap cubano. Som baixinho, havia recém-nascido dormindo no quarto. Espere aí : rap cubano ? Rap não é música de protesto político e social ? Explicação : o rap cubano é exceção, descreve a tradição cubana. Ah, bom. Imaginei.

Voltando à religião. Você entendeu, não é simples ? Agora, é só começar a ler sobre o assunto. Sim, ele entendeu, mas não vai ler porque acha que, na verdade, religião é algo que se sente na pele. E eu rezando para que se sentasse na cadeira onde duas enormes formigas mordiscavam um pedacinho de pizza. "Sente agora ? Que tal a religião das Formigas Comedoras de Pizza ?". Calei-me. E fui conversar com os dois amigáveis insetos. Pelo menos tínhamos uma coisa em comum : a preferência pelo mesmo tipo de pizza.

sábado, janeiro 10, 2004

Nova divisão de links

Os links para os blogs ao lado foram divididos em 3 grupos, não de acordo com minha preferência pessoal nem com o grau de importância que dou a cada um, mas de acordo com um critério que estabeleci : 1o Grupo - enfoque predominante político; 2o Grupo - enfoque predominantemente literário e/ou religioso + enfoque político; 3o Grupo - enfoque quase exclusivamente literário e/ou religioso.

Acho que assim fica mais fácil para os leitores conhecerem os blogs com os quais podem ter mais afinidade.

Há muitos links novos.

quinta-feira, janeiro 08, 2004

Uma historinha científica

Uma senhora gorda - que acabou de sair do vaso sanitário, onde elaborava planos para matar seu cunhado - está sendo conduzida às pressas por um grupo de cientistas a um moderníssimo aparelho de vasculhar. De vasculhar o cérebro.
- Reze, reze, a senhora não é católica ? Reze, vamos. Pode ser uma oração curtinha.
- Pode ser o Santo Anjo ?
- Claro, claro ! Mas reze com fé !
- Mas é que eu ainda não havia terminado ...
- Ora, vamos, minha senhora, reze logo, esse aparelho é fugaz, pode se desintegrar a qualquer momento.
- Estou rezando, estou rezando, tenham calma.
- Olhem lá, olhem lá ! Estão vendo ? Aquelas moléculas em vermelho ? Nunca fomos tão longe ... olhem, olhem ! Não é impressionante ? Viram como se dirigiram ao córtex occipital quando ela pronunciou "meu zeloso guardador" ?
- Agora reze o Pai Nosso.
- Esperem, estou sentindo dor, acho que preciso voltar ao ...
- Assim a senhora não está colaborando. Pense que será sempre lembrada nos livros de história da ciência. Ajude-nos, vamos.
- Estou tentando, mas acho que ... rummm, ai, humpf, escapou ...

No dia seguinte, na manchete de todos os jornais :

Ciência comprova : a fé é um punhado de moléculas que circunda o lobo occipital.

O Senhor Klaus Campra, responsável pela experiência inédita, conta que a minositina-fascinotina-aldeído-fosforilase provoca um efeito tal que permite que possamos explicar como ocorreram todos os milagres descritos no mundo até hoje.

Só não conseguiram salvar a senhora gorda. Morreu de diarréia infecciosa. E o cunhado viveu feliz para sempre.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

A Não-Ópera do Renato

Renato Russo estava compondo uma ópera com Carlos Trilha durante seus últimos dias de vida. Não podemos dizer que Deus não foi generoso ao levá-lo antes de passar por esse vexame.

Da série Diálogos : dessa vez, um caso verídico

- Estou decepcionado. Todo mundo só fala nele e não vejo ele fazer nada.
- Finalmente reconhece que votou errado ?
- De quem você está falando ?
- Ora, de Lula, claro ! Não é a ele que está se referindo ?
- Não. Estou falando de Jesus Cristo.
- O que foi que Jesus Cristo fez de errado ? Ou melhor, o que ele não fez de correto ?
- Tudo, ou melhor, nada ! Sou um cara honesto, não faço mal a ninguém, pago minhas contas em dia, e nada dá certo na minha vida. Continuo duro e não tenho nenhum conforto material.
- Mas, que eu saiba, Jesus não prometeu conforto material a ninguém. Ele até disse que Seu Reino não era desse mundo. E afirmou que sempre haverá pobres. Foi Lula quem prometeu acabar com a fome, gerar milhões de empregos e dar boa vida pra muita gente.
- Ele tem feito o que pode. É que a herança do governo anterior é muito grande.
- Espere aí : o senhor está me dizendo que tem mais fé em Lula do que em Jesus Cristo ?
- Tenho sim, por quê ? Qual o problema ? Esse Jesus Cristo nunca fez nada por ninguém. Lula sim, é um cara trabalhador que está lutando por nós há muito tempo.
- Você já pediu alguma coisa a Jesus Cristo ? Você costuma orar ?
- Eu não ! Ele não é tão poderoso ? Se quisesse, me ajudaria sem eu precisar pedir.
- Só vou lhe sugerir uma coisa : comece a rezar pra Heloísa Helena, porque sua fé em Lula não vai durar muito não.

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Prêmio Coca-Cola

Cada país engole a tubaína que merece.

Uma historinha filosófica

Sócrates estava lá, sentado no cantinho dele, quando, de repente, uma maçã atinge sua cabeça. Não, não é nada disso, essa é uma outra história. Como dizia, Sócrates estava lá sentado, pensando na vida, quando lhe veio a idéia : não seria possível a existência de um conhecimento que tivesse o grau de certeza que nos proporciona a matemática mas que se refira a fatos concretos ? Sim, talvez.

Então saiu feito um maluco a perguntar às pessoas o que seria a justiça, a coragem, a bondade. E lhe davam exemplos de pessoas justas, corajosas, bondosas. Aí ele citava homens que haviam feito algo bem diferente mas que não deixava de qualificá-los de justos, corajosos e bondosos. O que significava que deveria haver algo de comum em ações tão diferentes que nos fazia considerá-los assim. Os amigos e discípulos propunham isso e aquilo e ele ia eliminando as possibilidades que não se encaixavam. Foi isso, em resumo, que fez o incomensurável Sócrates. E o mataram por tal ousadia.

Platão também era um desocupado. Sem ter o que fazer, resolveu seguir Sócrates. E aprofundou a dialética criada pelo professor. Aristóteles foi ainda mais longe, fundando várias ciências. O fato é que todos eles queriam apenas saber mais para poderem ser mais, e ser mais para poderem conhecer mais. E nunca passou disso.

Apesar de todos os desvios, a coisa continuou assim até a Idade Média, quando ser mais tornou-se ser santo. Até então, nenhum filósofo que não se desviou desse caminho se disse sábio. Mas a partir daí, todos se proclamaram sabidos. É isso mesmo : na impossibilidade de se tornarem sábios, os humildes homens modernos se conformaram em ser sabidos.

Muito ocupadinhos, não tiveram tempo de estudar as bobagens que haviam escrito os três ultrapassados velhinhos gregos. Além do mais, o conhecimento que eles estavam adquirindo já era prova suficiente de que tudo que se produziu antes nada significava.

Cada um quis começar do início. Os moderninhos são todos originais. Descartes concluiu que só existiam 2 coisas : o Espírito e a extensão, e garantiu que nada os unia. Então como o Espírito poderia conhecer a extensão ? Foi necessário pedir ajuda a Deus. Depois veio Kant. Este jurou sobre o milho que a inteligência e a moral estavam completamente separadas. Conclusão : um mutilou o homem, o outro mutilou a mente. E jamais pediram perdão a ninguém pelo que fizeram. Ao contrário, houve quem rogasse a eles para perdoarem seus pecados. Sentiam-se mal diante de tamanha revelação. Ora, mas quem não se sente mal quando se deixa mutilar sem sentir dor ?

E Platão comentou com Sócrates, lá de cima : ei, é impressão minha ou esses caras estão separando tudo que a gente conseguiu unir ? E Aristóteles se intrometeu : vocês já ouviram falar em desconstrucionismo ? E um sorriso maroto brotou dos lábios de cada um.

domingo, janeiro 04, 2004

Catolicismo e Protestantismo

Nos comentários ao post "Teimando em ir à missa", Alessandro pergunta se não seria o protestantismo superior ao catolicismo tendo em vista o maior desenvolvimento dos países onde impera a doutrina protestante.

Primeiramente, é fato que não podemos avaliar uma corrente religiosa pelo progresso econômico alcançado pelos países que a adotaram. Mas, mesmo que partíssemos desse prisma, já há estudos suficientes que provam não haver uma relação direta entre a moral protestante e o desenvolvimento econômico. Fatores históricos e políticos associados à forma como se propagaram o catolicismo e o protestantismo são, provavelmente, os mais determinantes nessa questão.

É verdade que a Igreja também não acompanhou as mudanças na economia mundial e continuou se valendo da tese de Santo Tomás de Aquino sobre a natureza extorsiva dos juros, mesmo depois da economia ter passado de estática a dinâmica, invalidando a conclusão do maior filósofo da Escolástica, que se encaixava tão bem à sua época.

Este é um problema complexo para ser abordado em tão poucas linhas, mas o fato é que às vezes é difícil para algumas pessoas entenderem como um católico pode ser liberal num país onde a igreja é um antro de marxistas.

E é mais difícil ainda para alguns ateus entenderem por que critico o liberalismo quando totalmente dissociado da Tradição.

Sugiro estes dois textos, que dão uma boa visão geral de tudo que disse aqui.

sábado, janeiro 03, 2004

Rita Rara

De vez em quando, a produção de algum artista escapa do vírus politicamente correto que infecta a subcultura brasileira. É o caso da letra de Rita Lee "amor é latifúndio, sexo é invasão". Devido à raridade do fato, deveria apenas aplaudir, mas não posso deixar de fazer uma pequena modificação : sexo é latifúndio, estupro é invasão.