A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, janeiro 30, 2004

O que é o homem ?

Escrito por Ronaldo Castro de Lima Jr.

As definições de Homem podem ser agrupadas a partir do confronto entre o Homem e Deus ; a partir das características ou capacidades próprias do homem ou definições que exprimem a capacidade, do homem, de autoprojetar-se. Qualquer que seja a definição do homem, parece sempre estarmos diante de um paradoxo, pois aquele que pergunta é a própria resposta, conforme o mito de Édipo (o de pés inchados) , que anda em busca do próprio destino.

Não seria então uma espécie de loucura essa busca? Estaríamos condenados qual Sísifo a rolar uma pedra montanha acima, para logo em seguida tê-la de volta sobre nós e novamente a tentativa de elevá-la...? O existencialismo parace ter se fixado nessa imagem encantatória de auto-flagelação dessacralizada. Há outras concepções mais lúcidas.

Cassirer começa logo por afirmar que o conhecimento de si próprio é a meta mais elevada da indagação filosófica. Observamos na história da filosofia que alguns problemas ou teorias foram adiados, negados, esquecidos ou desprezados, e também retomados com novas forças e perspectivas, mas a temática do homem permanece invariável. Qualquer que seja a inquirição , ainda há quem inquire. Mas isso leva a crer que o homem é o próprio fim a que procura? O sentido da busca é a própria busca?

Essa perspectiva excepcionalmente subjetiva inaugurou a nossa modernidade.

Descartes inaugurou a modernidade com seu cogito ergo sum, admitindo a primazia do homem por sobre toda a realidade, acima de qualquer dúvida e a dúvida por cima de toda a realidade. Decartes, ao procurar a única certeza possível acerca do mundo, chegou a conclusão de que poderia duvidar de tudo menos do fato de que duvidava. O deus cartesiano, causa e fundamento da realidade, estaria como que em nenhum lugar , independente , restando-nos o dever de dominar nossos atributos, a razão, e devotá-la toda a nossa força e atenção. O método cartesiano, baseado na dúvida, inaugurou uma postura crítica em relação à natureza, o que revela o forte humanismo da modernidade.

Na história da filosofia , o ceticismo tem sido, com freqüência, simplesmente a contrapartida de um resoluto humanismo.

La plus grande chose du monde c'est de sçavoir etre à soy, escreve Montaigne.

A filosofia moderna ainda muito se debate sobre a Teoria do Conhecimento, visto que sempre esbarramos com o paradoxo do ser que se pensa, como se o conhecimento da própria causa de ser fosse inexpugnável, inconquistável. A psicologia moderna trouxe alguns avanços no campo da introspecção, da percepção imediata de sentimentos, emoções, pensamentos, etc, mas sempre restrito a um aspecto do ser, a fenômenos subjetivos, individuais, restritos, sem uma ampla visão da natureza humana.

A filosofia moderna, que é aristotélica numa lógica cega e platônica num idealismo surdo, restringiu o sentido do conhecimento humano às percepções de seus sentidos.

O próprio Aristóteles está convencido de que o conhecimento científico não é possível apenas através do ato da percepção.

O ponto de vista mais fisiológico ou orgânico , na psicologia, afirma que as primeiras etapas do conhecimento humano concerne exclusivamente ao mundo externo. No entanto, com o desenvolvimento da cultura humana, logo observamos a tendência oposta. Ao despertar da consciência humana, encontramos uma visão introvertida da vida, que deve acompanhar e complementar a extrovertida. Na mitologia encontramos sempre uma antropologia ao lado de uma cosmologia, indicando que o problema da origem do mundo está inextricavelmente entrelaçado com o da origem do homem.

O conhecimento de si mesmo não é apenas uma das inúmeras especulações filosóficas. É uma obrigação fundamental. Em todas as formas superiores de vida religiosa, a máxima Conhece-te a ti mesmo é considerada como um imperativo categórico, lei religiosa e moral básica.

Na Grécia , o pensamento do homem só atingiu plena maturidade em Sócrates, que ainda assim, não critica outras teorias, nem tenciona introduzir uma nova doutrina filosófica. Trata, isto sim, de colocar todos os problemas sob a ótica de um novo centro intelectual. Essa tendência antropológica seguirá a história até nossos dias, permanecendo com a mesma pergunta : Que é o homem ?

Dizem que é aquele que busca a si mesmo, precisando em todos os momentos manter essa busca, essa interrogação, o que seria isto mesmo o verdadeiro valor da vida humana. Uma vida que não é examinada, não vale a pena ser vivida, Sócrates em Apologia.

É por isto que o homem é um ser moral, responsável, pois precisa dar uma resposta a si mesmo e aos outros. Essa necessidade lhe é dada, é natureza de seu ser, por isso não se trata só de aspectos morais, mas de aspectos metafísicos do homem. Sua razão, se defronta com leis, do mundo e de si mesmo, como expressões de um único princípio. Ao mesmo tempo que essa concepção estreita os laços do homem com a natureza, indica sua independência moral. Em algumas linhas de pensamento esse paradoxo é conflituoso, em outras, como no estoicismo, é correlato. No cristianismo, a independência absoluta do homem é considerada vício e erro. Esse dilema segui a história.

S.Agostinho, pioneiro do pensamento medieval e da dogmáica cristã, demonstra que o poder da razão era exaltado como o mais alto poder do homem, mas o que o homem nunca poderia saber, enquanto não fosse iluminado por uma revelação divina, é que a própria razão é uma das coisas mais discutíveis e ambíguas do mundo. Mesmo S.Tomás de Aquino, discípulo de Aristóteles, e que volta às fontes da filosofia grega, não se desvia do dogma fundamental da graça divina.Trata-se de uma revolução, pois antes a razão era objeto do orgulho da dignidade humana, agora torna-se perigo e idolatria.Mais tarde, a modernidade traz novamente o orgulho racionalista governando o mundo. É quando encontramos Pascal que mesmo admitindo que na natureza não há nada que resista à razão, converte-se em paladino extemporâneo da antropologia filosófica medieval. Filósofo que era não se contentava com o aspecto quantitativo do progresso mecanicista.

A religião não nega , nem esclarece o mistério do homem, mas o confirma e o aprofunda . A religião seria pois uma espécide de lógica do absurdo, pois assim consegue entender a absurdidade , a contradição interior, o ser quimérico do homem.O homem é mais inconcebível sem este mistério que este mistério é inconcebível para o homem - Pascal.
Mas a revolução científica, a nova ciência, em sua pretensão de desvendar todos os mistérios, reduzindo-o ao mero desconhecimento de uma mecânica, se torna a base sólida para uma nova antropologia, visto que as novas descobertas não eram respondidas nem pela metafísica clássica nem pela religião ou teologia medieval. O homem numa escala hierárquica, sob uma providência divina não cabia mais na nova cosmologia, que o colocou num espaço infinito e mudo ao lamento humano. O sistema copernicano tornou-se um dos mais vigorosos instrumentos do agnosticismo e ceticismo filosóficos do século XVI.

Mas longe de enfraquecer a razão humana , pelo ceticismo, a modernidade a enalteceu, pois ela passava a estabelecer a confirmar os novos parâmetros. Tal foi a tarefa dos séculos XVI e XVII : transformar a maldição da razão em benção, a dubiedade da razão em instrumento de precisão. O infinito era agora o palco da razão. Os grandes pensadores que se seguiram (Galileu, Descartes, Leibniz, Espinosa,etc) participaram dessa jornada. Descartes começa por encerrar o homem a sua própria consciência, parecendo não haver meios de se sair dessa cadeia nem de se aproximar da realidade.Neste ponto a idéia do infinito se revela o único instrumento para desfazer a dúvida universal, demonstrando a realidade de Deus e, de forma indireta , a realidade do mundo material. Leibniz instrumentaliza essa idéia com a matemática : o cálculo infinitesimal, cujas regras tornam inteligíveis o universo físico. Espinosa tenta solucionar a questão moral também com artifícios lógicos matemáticos, construindo uma nova ética, convencido de construir uma teoria do homem isenta de erros e desvios.

A razão matemática passa a intermediar o homem e o universo. No entanto a glória matemática é interrompida pela biologia ( Darwin e a Teoria das Espécies) que diz não ser necessário desenvolver esquemas mentais para definir o homem, mas tão somente coletar os dados empíricos da evolução do homem. Vale lembrar que Aristóteles já salientara esse aspecto evolutivo, mas sob uma interpretação formal e não material como agora. Mas seria o mundo cultural igual ao orgânico ? Não possui uma teleologia definida e inegável ? Esse era o próximo desafio para os filósofos evolucionistas : provar que a cultura é reduzível a umas poucas causas gerais que são as mesmas para os fenômenos físicos. Aqui encontramos Hippolyte Taine, que diz ser a mesma mecânica que envolve a vida física e a cultural, sentimentos, inclinações, idéias, etc.Mas não é suficiente enumerar nossos impulsos ou características espirituais. É preciso sistematizá-los, encontrar sua estrutura. Todos os autores da época se apoiam em dados , mas a unidade que se busca do homem fica à mercê de interpretações arbitrárias que se complicam. Nietzsche proclamou a vontade do poder, Freud assinala o instinto sexual, Marx entroniza o instinto econômico. Cada teoria passa então a se esticar para caberem nos dados empíricos que sempre exigem interpretações.Hoje temos uma anarquia de pensamento, pois não temos mais um centro em torno do qual as várias visões gravitem. Nem mesmo dentro de uma mesma especialidade há concordâncias gerais. O fator humano passou a prevalecer e o temperamento do escritor a desempenhar um papel decisivo. Continuamos desenvolvendo a quantidade de informações acerca do homem e do mundo, mas carentes de organização e domínio desse conjunto. Ernst Cassirer aponta para o mito ao denunciar essa encruzilhada humana, conclamando encontrar o fio de Ariadne. O mito, radical do infinito, orígem da mística, do mistério, do silêncio da vida pode nos revelar algo. O mito como uma narração do inenarrável indica as estruturas internas do mundo. É por isso que só o silêncio pode nos falar acerca desse grande mistério; é assim que toda revelação é um velar novamente. Assim como em Édipo, que nada compreendendo acerca de seu destino , manda chamar um cego advinho (sinal da transcendência) que tudo via, para solucionar o caso do reino. O cego , Tirésias, responde com mais enigmas, mas que ao fim da trama era a única resposta possível.

"Em nenhum outro período do conhecimento humano o homem se tornou mais problemático para si mesmo do que em nossos dias" - Max Scheler

3 Comments:

  • Ola sou estudante de Teologia,e achei muito interressante seu artigo.Parabéns, muito bom....

    By Anonymous Anónimo, at 10:25 da manhã  

  • Muito obrigado. Também gostei, relendo-o depois de tanto tempo. Vejo que é atual e principalmente, que dialoga comigo mesmo. Espero que progridas em teus estudos.

    By Blogger Ronaldo Castro de Lima Jr., at 10:40 da tarde  

  • Muito obrigado. Também gostei, relendo-o depois de tanto tempo. Vejo que é atual e principalmente, que dialoga comigo mesmo. Espero que progridas em teus estudos.

    By Blogger Ronaldo Castro de Lima Jr., at 10:41 da tarde  

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