A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, janeiro 30, 2004

Os cinco gigantes

A pequenez do nosso mundo tem obrigado os grandes a se recolherem a seus casulos. Notamos em seus gestos, em suas falas, em seus escritos uma certa melancolia, às vezes escondida, às vezes escancarada. A melancolia de quem sabe que tem poucos ao seu lado. Ou que ao seu lado mesmo não tem ninguém, porque estão muito distante.

Se é triste ver os grandes tão sós, é animador saber que perdem cada vez menos tempo com bobagens. Que estão ficando tanto mais ranzinzas quanto menos condescendentes. Que se interessam tanto menos pelo mundo quanto mais pelo Espírito. Tento decifrá-los: num baile a fantasia, a sala completamente escura, a música estremecendo as paredes e movimentando os corpos, o sorriso imbecil decorando as faces, os pensamentos pairando sobre as genitálias, o cheiro denunciando a moral; e num canto claro, de onde resplandece uma luz ofuscante, que tenta se espalhar pelo ambiente mas é detida por uma parede de fumaça, onde ninguém os vê, lá estão quatro ou cinco pequeninos homens, numa concentração tamanha que lhes incha o corpo, lhes insufla o Espírito e os torna rapidamente tão gigantes que já não conseguem sequer ouvir a música, enxergar a sala ou sentir o odor abjeto que lhes impregnava as narinas. Em pouco tempo, já são tão altos que não mais enxergam abaixo das nuvens, e apenas o Sol está acima de suas cabeças. E dentro da casa, ninguém ainda percebeu que ela foi destruída, que a música parou e a fumaça se dissipou. Continuam dançando e tentando sorrir como antes, mas o sorriso já não convence mais ninguém. Fingem que nada aconteceu. E procuram imaginar que são tão felizes quanto sempre sonharam.

Sim, esses quatro ou cinco gigantes existem. Mas não são muitos os que conseguem vê-los. É preciso ter bom cheiro, ouvidos imunes ao barulho e, principalmente, saber soprar a fumaça.