A Barbárie dos Tempos Modernos

domingo, fevereiro 29, 2004

Quando o vazio é anti-semita

Alguns dos melhores comentários que li até agora sobre o filme de Mel Gibson: a violência dos filmes modernos não incomoda porque é totalmente gratuita, já a violência da Paixão de Cristo nos afeta porque nos obriga a enfrentar diretamente a dor mais real que já existiu.

Aqueles que buscam o vazio geralmente encontram algo para não denominá-lo assim: nesse caso o vazio é representado pelo termo "anti-semitismo".

Não posso afirmar que o filme é bom ou ruim, mas, mesmo sem haver assistido, tenho certeza que não é anti-semita, simplesmente porque o Evangelho não é anti-semita.


Obs 1: Coincidentemente, depois que terminei de escrever esse post, me bati com isso aqui.

Obs 2: Há quem diga que existem documentos ocultos que provam que, na verdade, foram os argentinos que condenaram Jesus à morte, e que, em meio à multidão, destacava-se nitidamente a voz de um tal Diego Maradona.

quinta-feira, fevereiro 26, 2004

Um dia especial

Nesse dia, não adianta teimar, é mesmo o sol que gira em volta da terra. E gira quase dançando, assobiando alguma sonata de Mozart. E a lua se veste de branco, deixando a cauda bater nos meus olhos. É quando agradeço a Deus e tento sonhar com os anjos, mas não sem lembrar de pedir que o ritual se repita por muitos e muitos anos.

Medindo o vazio

Observem um pai na sala de espera de uma maternidade ou dentro do ambiente cirúrgico tirando fotos do filho que está nascendo. Percebam o tamanho de sua alegria. Mas percebam, principalmente, o tipo de felicidade que emana dele. Agora comparem tudo isso com os sentimentos de um folião se esbaldando na avenida.

Não parece evidente que são emoções completamente diferentes? Ambos demonstram um contentamento sem fim, mas qualquer um é capaz de distinguir entre aquele em que o sorriso brota da epiderme e o que vem do fundo da alma. Qualquer um consegue diferenciar os sentimentos, não precisa ser psicólogo nem filósofo.

A alegria do primeiro se origina daquilo que tem de melhor nele, do que sempre fez o homem ser homem e ter construído sua verdadeira cultura. A do segundo extravasa dos seus despojos, do que ele não agüentava mais manter dentro de si. É uma felicidade que, se perpetuada, o levaria até o inferno e não o permitiria mais sair de lá.

O vazio também pode ser medido. E o carnaval é uma boa fita métrica.

terça-feira, fevereiro 24, 2004

Incrível progresso cultural

Ninguém imaginaria que a cultura brasileira pudesse progredir tanto em tão pouco tempo. Nascemos em mil e quinhentos e já somos capazes de colocar a bateria de costas no recuo. Está em todos os jornais escritos e falados. Perdoem-me a desatenção de não ter gravado o nome da escola de samba responsável por esta proeza, mas o fato é que finalmente conseguimos. Dezenas e dezenas de anos tentando e eis que é chegado o momento. Houve uma outra em que os integrantes tocaram de joelhos. Ora, mas o que é isso perante uma entrada de costas no recuo? É o equivalente a algum inventor anunciar o cabo de vassoura quando já existisse o aspirador de pó. Quase desmaio quando me deram a notícia. Comprei o jornal para ler com meus próprios olhos.

Está certo que alguns países nos legaram Shakespeare, Dostoievski, Conrad, Pio Baroja, Proust, Chesterton, mas nenhum conseguiu a façanha de colocar uma bateria de costas no recuo. Ficará em nossa lembrança para sempre. Toda vez que um grande escritor, como Paulo Coelho, escrever um grande livro, cada letra representará um repique daquela bateria de costas no recuo. Cada cena de um grande filme, como Cidade de Deus, nos fará lembrar o rufar dos tambores daqueles instrumentistas de costas no recuo.

E os sinais indiretos de evolução, vocês perceberam? Eu mesmo fiquei me questionando e cheguei à conclusão de que não estou pronto para tamanha novidade. Não houve uma única linha escrita nem uma única frase pronunciada que denotassem algum preconceito diante da entrada de costas no recuo. Por mais avançadinho que eu seja, jamais entraria de costas no recuo. Quem quiser que siga o progresso. Ainda não estou preparado. Entrar de costas no recuo ainda é demais para mim. E você, entraria?

Mas quem pensa que foi apenas isto que alcançamos no carnaval está completamente enganado. Alguns comentários profundíssimos ficarão para sempre na minha memória. Como o daquela repórter que disse: "aqui nessa escola não tem esse papo de cor não; tem negra, loira, morena". Entenderam? Ela montou um jogo de contradições propositalmente para nos fazer refletir sobre a origem do Universo. Sem papo de cor, enumerando a seguir as cores. Que grandeza!

Mais uns dez carnavais e seremos lembrados para toda a eternidade.

quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Qual a melhor religião?

Não há resposta para a pergunta do título, ou pelo menos não há uma resposta objetiva. Primeiro, é preciso distinguir o que é e o que não é religião. Ultrapassada essa fase, percebemos que há aspectos contraditórios mesmo entre as verdadeiras religiões. Essas contradições, a princípio, obrigam o fiel a se ater a apenas uma delas, ou pelo menos é o que parece mais sensato. Entretanto, no que diz respeito ao seu estudo, não seria insensato conhecer algumas ou até mesmo todas elas. O problema central consiste no seguinte: ao estudar uma religião de um ponto de vista apenas filosófico, perdemos muito do que ela pode nos proporcionar. Daí ser impossível comparar religiões partindo de um princípio adequado, que seria o da vivência de cada uma delas.

A religião tenta descrever o mundo de maneira "real", entretanto não acredito que nenhuma delas consiga nos dar uma visão simbólica de 100% da realidade. Há um grau maior e menor de aproximação dessa realidade em aspectos particulares de cada uma delas.

Na religião cristã, por exemplo, Cristo é o filho de Deus e o Verbo encarnado, para o Islamismo é apenas mais um dos profetas. É óbvio que uma das duas está errada a esse respeito. E não adianta dizer que, sob certa circunstância, as duas visões estão corretas. Não estão, nem podem estar. Mas pode ser que aquela que erra neste ponto, acerte em outro, na qual a outra está errada. E ainda há os aspectos não contraditórios, que podem ser até unificados de um certo ponto de vista.

O problema é que a doutrina de cada religião só tem valor se considerada em seu conjunto. Portanto, o fiel não pode nem deve sair distinguido o que acha certo e o que não acha e seguir um pouquinho de uma e um pouquinho de outra religião. Será um eterno herege se assim o fizer.

E o que determinará a religião que o fiel deve seguir? Primeiramente, o aspecto histórico-cultural. Se eu tivesse nascido no Japão, muito provavelmente não seria cristão. E é justamente por isso que não consigo admitir que uma única religião esteja correta e todas as outras erradas, pois Deus não restringiria o acesso de uns a Ele, enquanto facilitaria enormemente o acesso de outros.

Aqueles que nascem dentro da tradição judaica não terão acesso, por exemplo, aos ensinamentos de Jesus Cristo, mas, para eles, os ensinamentos da Torá serão suficientes para ligá-los à verdadeira realidade.

Pode até haver uma religião melhor que as outras, mas o certo é que não se pode demonstrar isso. Não por impossibilidade lógica, mas existencial.

terça-feira, fevereiro 17, 2004

Da série Diálogos

- E então é carnaval. Mas e Dirceu e Waldomiro?

- Que nada, é carnaval, é carnaval! Você vai negar ao povo o direito de esquecer os problemas até no carnaval, não é? Que crueldade!

- Negar? Quem sou eu para negar alguma coisa? Serei o primeiro a esquecê-los. Até porque tudo aconteceu antes do Governo Lula, portanto podemos ficar despreocupados. Depois que Luís Inácio assumiu, o mundo mudou, tudo ficou mais bonito.

- Com quem será que Débora Seco está namorando atualmente?

- Que nada, é carnaval, é carnaval, vamos esquecer os problemas.

- Sim, mas depois vou querer saber de tudo direitinho. Promete que me conta?

- Claro, eu vi o último TV Fama.

- Por que essa rua está interditada? Terei que dar a volta? Vou me atrasar uns 30 minutos.

- Que nada, é carnaval, é carnaval! Deixe o tempo passar.

- Espere, mas tenho que chegar em casa logo para saber como vai terminar Memórias do Subsolo.

- Cara, o livro está lá, você pode ler a qualquer hora.

- Quem disse? E se me roubarem? Estou com pressa, sai da frente, vou passar por aqui mesmo.

- Mas a rua está interditada.

- Por que?

- Ora, por causa do carnaval.

- E você quer que eu esqueça os problemas, hein? Como vou esquecer se os problemas já começam por causa do carnaval?

sábado, fevereiro 14, 2004

Entre as teclas

Acompanhei-a até os últimos instantes. Foi quando ela se esgueirou entre as teclas e desapareceu. Imaginei-a entre fios e circuitos, entre bytes e elétrons, quarks e neutrinos. Desviando-se sabiamente, como todo ser vivo. O que mais poderia fazer além de se desviar? Mas e quando sentisse fome? Haveria alimento na escuridão da engrenagem do teclado? Com certeza, adquiriria a capacidade de transformar toda aquela energia à sua volta em alimento, ou melhor, nem precisaria se alimentar, bastaria sugá-la de algum modo. O que aquela pequena formiga não conseguiria vivendo num ambiente tão hostil? Mas tiraria alguma lição daquilo tudo?

Envolto nesses pensamentos, subitamente me deparo com o inseto sorrindo para mim na tela do computador:

- Ô cara, você não tinha uma história mais original pra contar, não? Já vi uns cem filmes com esse roteiro. Se não tem o que escrever, não escreva...
- Espere, tenha calma, esse ia ser diferente. A história da lição, eu ia desenvolver essa parte, se alguma lição ficaria...
- Que lição, cara! Deixe de ser babaca. Não tem lição nenhuma! Sou apenas uma miserável formiga que entrou onde não devia. E tire esse mouse de cima de mim, já está incomodando!
- Mas você não adquiriu poderes aí? Até já consegue falar!
- Poderes? Falo com você porque você está escrevendo que eu estou falando...
- Espere, então não é real? E o mouse?
- Você também escreveu isso.
- Então não vai ter lição nenhuma?
- Se você inventar, talvez sim. Mas eu não acreditaria, nem me daria ao trabalho de ler...

De repente vejo a formiguinha novamente se esgueirando entre as teclas para voltar ao mundo real. Assim que a vi, cravei o polegar em cima dela.

- Não tem lição nenhuma, hein?

Morreu por excesso de auto-confiança. Ou seria auto-consciência?

Mas antes, ainda levantou a cabeça e murmurou:

- Só porque criou uma polemicazinha, já acha que pode escrever qualquer coisa.

Foi quando percebi minha falta de auto-confiança. Ou seria de auto-consciência? Por via das dúvidas, terminei de esmagá-la.

sexta-feira, fevereiro 13, 2004

A fome é arma de destruição em massa

Há várias formas de interpretar essa bela frase do nosso presidente. O fato é que, seja ela qual for, ele sempre terá razão. Senão vejamos:

1) Em massa, a fome é mesmo uma arma de destruição. Massa no sentido de Ortega Y Gasset, é claro. A massa, hoje, acha que tem todos os direitos e nenhum dever, nenhuma obrigação. Considere, pois, que essa massa está com fome. Sem disposição para trabalhar, mas com toda disposição para cobrar seus direitos, o que ela não faria estando com fome? Destruiria tudo que estivesse à sua frente até que alguém se dispusesse a lhe dar um almoço completo, com uma bela sobremesa num dos melhores restaurantes da cidade. Afinal, massa também é gente.

2) Já se considerarmos a massa como sendo de pizza, lasanha ou algo do gênero, o nosso orador permanece tendo razão, afinal esses alimentos não são nem um pouco saudáveis, e estando a pessoa com muita fome, pode ingeri-los em excesso, entupindo seu pobre coração e levando-a à morte.

Dê você também a sua interpretação e ajude o nosso presidente.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Da série Diálogos

- O PT cresceu muito, meu caro, cresceu demais, e não apenas em número de membros, mas também em conhecimento. Deveriam criar uma faculdade apenas para formar petistas.
- E as que existem hoje têm algum outro objetivo?

terça-feira, fevereiro 10, 2004

Um sorteio quase oracular

Discutiam sobre a característica básica do brasileiro. Passaram-se meses e não chegaram a nenhuma conclusão. Então um dos participantes sugeriu que fizessem o seguinte: copiar todas as palavras do alfabeto num papel e sortear oito. Resultado: gostar de ser tratado como bicho de estimação.

Não acreditar em milagre também é burrice

É fato que existem uma infinidade de fenômenos que a ciência não consegue explicar. Se ela os explicará um dia é outro problema. O certo é que não os explica atualmente. Para exemplificar: há milhares de drogas cujo mecanismo de ação é totalmente desconhecido. Mas não é por isso que os médicos deixam de recomendá-las, nem os laboratórios deixam de produzi-las, nem os pacientes deixam de usá-las. Eles sabem que elas são úteis e que os fazem sentir melhor, e que algumas até curam suas doenças. É o bastante.

Por que, então, não se pode aceitar que ocorram milagres? O que caracteriza um milagre do ponto de vista do fenômeno em si? O fato de não ter uma explicação racional, científica. Mas, como já foi dito, muitos outros fenômenos também não têm explicação racional, científica. Então alguns dirão: "não têm agora, mas um dia terão". Ora, o que o faz acreditar que um dia terão? Esse "acreditar que um dia terão explicação" já foge completamente do raciocínio científico. Nenhuma ciência atual pode provar cientificamente que todos os fenômenos serão um dia explicados pela ciência. Isso é, mais uma vez, pura questão de fé, a fé na ciência. E ademais, é muita arrogância da ciência achar que só o conhecimento científico tem valor, pois outras áreas do conhecimento podem proporcionar tanto ou mais conhecimento que a ciência (no caso, a ciência iluminista).

Portanto, não faz sentido dizer que milagres não podem acontecer porque não são explicados cientificamente. Seria, mais uma vez, uma burrice alegar isso. Pode-se alegar que milagres não ocorrem porque são frutos da fé em Deus, mas para isso seria necessário que fosse provado que é impossível que Deus exista, o que é muito mais difícil (na verdade, é impossível) do que provar que Deus existe. E mais: se os cientistas têm fé no desvendamento de todos os fenômenos pela ciência, por que eu não posso ter fé em Deus e acreditar que milagres existem?

E mais: os milagres estão previstos nos próprios manuais médicos. Dê uma checada no percentual de mortalidade de pacientes com determinado tipo de câncer em fase terminal: muitos registram 99, 5% ou 99,9%. Qual a explicação para alguns desses pacientes não terem morrido? Só há uma: um milagre.

domingo, fevereiro 08, 2004

Ateísmo é, antes de tudo, burrice

O estudo da física pressupõe que se acredite em átomos. Alguém já viu um átomo? Ou uma partícula subatômica? Ambos são conhecidos apenas pelos efeitos. Para que se estude Física, portanto, é preciso que se tenha fé em átomos. Tudo bem, você pode até não acreditar neles e começar estudando aspectos mais simples da Física, mas, se quando chegar na Física Atômica você disser "Êpa, isso não existe!", não poderá mais prosseguir. Porque todas as provas que lhe apresentarão serão baseadas nos efeitos da sua pressuposta existência. E sempre lhe restará o argumento: "E se não for assim, se tudo for apenas uma coincidência?"

O que mais me espanta e, ao mesmo tempo não me surpreende nem um pouco, é quanto os ateus são ignorantes em matéria de religião e, ao mesmo tempo, acreditam que possuem argumentos infalíveis para não acreditarem na existência de Deus. Apóiam-se naquele velho pensamento: "Se não conheço isso, então não deve existir". E alegam que deixaram de acreditar em Deus ainda adolescentes, porque, desde aquela época, sua sabedoria já era suficiente para perceber que a religião era uma bobagem. Oh, como são precoces!

Imaginem um aluno que nada sabe de Física. Então alguém lhe fala de átomos. Ele se recusa a acreditar que eles possam existir. "Provem-me que eles existem e prometo estudar Física". E dirão: "Mas, para que possamos lhe provar, é preciso que você primeiro comece a estudar a Física mais elementar". E estará criado o impasse, porque ele se recusará a estudar a Física elementar, pois ela lhe levará à Física Atômica, e ele não vai perder tempo estudando algo que ele não acredita existir.

Dá-se o mesmo quanto à religião. Os ateus se recusam a acreditar na existência de Deus, por isso não sabem nada sobre o assunto, e, por não saberem nada sobre o assunto, não acreditam em Deus. E não adianta dizer que se pode estudar religião sem acreditar em Deus porque não se pode, pois não será religião que se estará estudando mas sim a visão do conhecimento religioso pelo viés de alguma outra ciência, o que é bem diferente.

Mas então por que as pessoas deveriam acreditar em Deus? Ora, porque o bom senso nos diz que Deus existe. O ateísmo só se tornou um fenômeno importante nos últimos 300 anos, e mesmo assim ainda não é muito significante. Portanto, acreditar em Deus e estudar religião é galgar um conhecimento que já foi provado que é extremamente benéfico. Quanto aos átomos, não se pode dizer o mesmo, mas, ainda assim, acho bastante sensato estudar Física.

Pedir a um crente que prove a um ateu que Deus existe é o mesmo que pedir a um físico que prove a um analfabeto que um átomo existe.

Toda ciência tem como pressuposto a crença em algo que ela mesma não pode provar. É preciso fé para seguir adiante. Porque só o pressuposto da religião é descartado antes de tudo? Só há uma resposta: burrice.

Obs: no próximo post, comentarei sobre milagres.

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Vamos à luta, pessoal!

Vicentinho foi muito moderado ao propor a regulamentação dos desenhos animados. Ora, o que é isso! Nessa idade, as crianças já estarão completamente influenciadas pela mídia de ultra-direita. Não será mais possível educá-las.

Para que possamos ter um país realmente civilizado, onde todos usem camisa de Che Guevara e estrela no peito, será necessário regulamentar inicialmente as músicas de ninar. Por exemplo, não podemos permitir que uma canção como Boi da Cara Preta, de cunho extremamente racista e autoritário, chegue aos ouvidos de nossas inocentes crianças.

A não ser que a modifiquemos. Ao invés de:

Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pegue esse menino
Que tem medo de careta

deveríamos cantar :

Boi, boi, boi
Boi da cara afro-brasileira
Sua origem é nobre
E sua cor é a mais faceira

Duas faces de Dostoiévski

Dostoiévski blogueiro :

Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante grande de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui.

***

Mas só ia visitá-lo quando atingia aquela fase, quando meus devaneios me traziam tamanha felicidade que me era inevitável e imediatamente necessário abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para este fim, precisava contar com pelo menos uma pessoa que existisse realmente. Aliás, era preciso visitar Antón Antônitch às terças (o seu dia de receber) e, por conseguinte, ajustar à terça-feira a necessidade de abraçar toda a humanidade.


Dostoiévski anti-iluminista

O homem é uma criatura volúvel e pouco atraente e, talvez, a exemplo do enxadrista, ame apenas o processo de atingir o objetivo, e não o próprio objetivo. E - quem sabe? - , não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta continuidade do processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual naturalmente não deve ser outro senão o dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas, na realidade, dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte.

***

E por que estais convencidos tão firme e solenemente de que é vantajoso para o homem apenas o que é normal e positivo, numa palavra, unicamente a prosperidade? Não se enganará a razão quanto às vantagens? Talvez o homem não ame a prosperidade. Talvez ele ame na mesma proporção o sofrimento. Talvez o sofrimento lhe seja exatamente tão vantajoso quanto a prosperidade. [...] No caso, não estou propriamente defendendo o sofrimento nem tão pouco a prosperidade. Defendo... o meu capricho e que ele me seja assegurado, quando necessário. [...] Estou certo de que o homem nunca se recusará ao sofrimento autêntico, isto é, à destruição e ao caos. O sofrimento... mas isto constitui a causa única da consciência. [...] Sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação. A consciência, por exemplo, está infinitamente acima do dois e dois. Depois do dois e dois, certamente, nada mais restará, não só para fazer, mas também para conhecer. Tudo o que será possível, então, será unicamente calar os cinco sentidos e imergir na contemplação. Bem, com a consciência obtém-se o mesmo resultado, isto é, também não haverá nada a fazer; mas, pelo menos poderemos espancar a nós mesmos de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor que nada.

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

A terra da lavagem

Em Salvador, tudo se lava : é lavagem do Bonfim, lavagem do Rio Vermelho, lavagem de Itapoá, etc. Duas senhoras se encontram na calçada e uma propõe à outra : "Vamos lavar o jardim daqui de casa?" "Claro, depois a gente lava o da minha, certo?" Aí chegam os maridos, que voltavam da vendinha em frente, cada um com um engradado de cerveja. A mulher, com a mangueira na mão (no bom sentido, claro): "Dá um golinho, dá um golinho." E a outra, soltando espuma pela orelha: "Que tal a gente chamar Zefinha para benzer os jardins depois que a gente lavar?" "Vai logo, Tonho, chama lá". E lá vem Tonho com Dona Quitéria, porque Zefinha estava de férias, afinal mãe de santo também é filha de Deus. Mas quando soube que tinha cerveja, já ligou para os quatro sobrinhos que moram em Plataforma, que, por sua vez, chamaram os amigos - o bairro quase inteiro. Ligaram então para a prefeitura, pedindo que fechassem a rua. E o prefeito logo tomou as devidas providências, afinal era uma festa religiosa! E no ano seguinte, prometeu que será feriado nesse dia. Feriado da lavagem dos jardins. Ah, bom! Mas seu Tonho achou pouco: "E não vai ter trio elétrico, não?" Claro, claro. Já estão providenciando.

Da série Diálogos

- Pai, agora que você já me convenceu que não foi a cegonha que me trouxe no dia em que nasci, gostaria que me explicasse mais uma coisa.
- Pois não, filho, pergunte o que quiser.
- É melhor ser de direita ou de esquerda?
- Depende do que você acha que signifique "melhor". Se você acha que o melhor para você é ser verdadeiro e ter fama de mau e mentiroso, então escolha a direita, mas se você quer ser mentiroso e ter fama de honesto e bonzinho, então escolha a esquerda.
- Não há meio-termo?
- Infelizmente, não. E tem mais : se você quiser ganhar dinheiro às custas dos outros, então escolha a esquerda, mas se você não se importar que tirem de você boa parte do que você suou para ganhar, então escolha a direita. E se quiser ser um adolescente revoltado, escolha a esquerda, mas se quiser ser chamado de CDF na escola, então escolha a direita.
- E você, pai, o que me aconselharia?
- Ora, filho, já lhe mostrei as vantagens e desvantagens de cada uma. O resto é com você. Só lhe digo uma coisa: de acordo com a sua escolha, saberei se você continua acreditando em cegonha ou não.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

O nervosismo e a honestidade

Num certo ponto do debate entre Alaor Caffé Alves e Olavo de Carvalho, este último afirma que o nervosismo nada impede que a pessoa continue sendo honesta. E que, no fundo, é isso que conta. Parei para refletir.

É interessante como gostam de acusar os outros de estarem nervosos. Como se o nervosismo fosse algo que entupisse o cérebro do sujeito e o impedisse de dizer algo verdadeiro; acusam-no como se diagnosticassem uma doença contagiosa, que os impedisse de continuar ali perto.

Quanto a mim, o que posso dizer é que quanto mais nervoso estou mais sou sincero. E percebo isso na maioria das pessoas. O nervosismo nos impede de elaborar justificativas para os nossos erros, de encontrar meio-termo para tudo. É quando estamos nervosos que a sinceridade aflora. E é exatamente por nos tornar tão sinceros que devemos evitar o nervosismo em certas situações. Se ficamos com raiva do nosso chefe por ter nos aprontado alguma, temos que permanecer calmos para não lhe dizermos o que pensamos dele, a fim de não perdermos nossos empregos.

Se alguém se torna maldoso e até desonesto quando está nervoso é porque é muito mais maldoso e desonesto quando está calmo. O problema é que, estando nervoso, a maldade e a desonestidade tornam-se aparentes, enquanto durante a calmaria tudo estava dissimulado.

Por tudo isso, um pouco de nervosismo é sempre saudável durante um debate.