A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

Duas faces de Dostoiévski

Dostoiévski blogueiro :

Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante grande de coisas no gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui.

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Mas só ia visitá-lo quando atingia aquela fase, quando meus devaneios me traziam tamanha felicidade que me era inevitável e imediatamente necessário abraçar as pessoas e toda a humanidade; e, para este fim, precisava contar com pelo menos uma pessoa que existisse realmente. Aliás, era preciso visitar Antón Antônitch às terças (o seu dia de receber) e, por conseguinte, ajustar à terça-feira a necessidade de abraçar toda a humanidade.


Dostoiévski anti-iluminista

O homem é uma criatura volúvel e pouco atraente e, talvez, a exemplo do enxadrista, ame apenas o processo de atingir o objetivo, e não o próprio objetivo. E - quem sabe? - , não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo sobre a terra, aquele para o qual tende a humanidade, consista unicamente nesta continuidade do processo de atingir o objetivo, ou, em outras palavras, na própria vida e não exatamente no objetivo, o qual naturalmente não deve ser outro senão o dois e dois são quatro, isto é, uma fórmula; mas, na realidade, dois e dois não são mais a vida, meus senhores, mas o começo da morte.

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E por que estais convencidos tão firme e solenemente de que é vantajoso para o homem apenas o que é normal e positivo, numa palavra, unicamente a prosperidade? Não se enganará a razão quanto às vantagens? Talvez o homem não ame a prosperidade. Talvez ele ame na mesma proporção o sofrimento. Talvez o sofrimento lhe seja exatamente tão vantajoso quanto a prosperidade. [...] No caso, não estou propriamente defendendo o sofrimento nem tão pouco a prosperidade. Defendo... o meu capricho e que ele me seja assegurado, quando necessário. [...] Estou certo de que o homem nunca se recusará ao sofrimento autêntico, isto é, à destruição e ao caos. O sofrimento... mas isto constitui a causa única da consciência. [...] Sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação. A consciência, por exemplo, está infinitamente acima do dois e dois. Depois do dois e dois, certamente, nada mais restará, não só para fazer, mas também para conhecer. Tudo o que será possível, então, será unicamente calar os cinco sentidos e imergir na contemplação. Bem, com a consciência obtém-se o mesmo resultado, isto é, também não haverá nada a fazer; mas, pelo menos poderemos espancar a nós mesmos de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor que nada.