A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, fevereiro 24, 2004

Incrível progresso cultural

Ninguém imaginaria que a cultura brasileira pudesse progredir tanto em tão pouco tempo. Nascemos em mil e quinhentos e já somos capazes de colocar a bateria de costas no recuo. Está em todos os jornais escritos e falados. Perdoem-me a desatenção de não ter gravado o nome da escola de samba responsável por esta proeza, mas o fato é que finalmente conseguimos. Dezenas e dezenas de anos tentando e eis que é chegado o momento. Houve uma outra em que os integrantes tocaram de joelhos. Ora, mas o que é isso perante uma entrada de costas no recuo? É o equivalente a algum inventor anunciar o cabo de vassoura quando já existisse o aspirador de pó. Quase desmaio quando me deram a notícia. Comprei o jornal para ler com meus próprios olhos.

Está certo que alguns países nos legaram Shakespeare, Dostoievski, Conrad, Pio Baroja, Proust, Chesterton, mas nenhum conseguiu a façanha de colocar uma bateria de costas no recuo. Ficará em nossa lembrança para sempre. Toda vez que um grande escritor, como Paulo Coelho, escrever um grande livro, cada letra representará um repique daquela bateria de costas no recuo. Cada cena de um grande filme, como Cidade de Deus, nos fará lembrar o rufar dos tambores daqueles instrumentistas de costas no recuo.

E os sinais indiretos de evolução, vocês perceberam? Eu mesmo fiquei me questionando e cheguei à conclusão de que não estou pronto para tamanha novidade. Não houve uma única linha escrita nem uma única frase pronunciada que denotassem algum preconceito diante da entrada de costas no recuo. Por mais avançadinho que eu seja, jamais entraria de costas no recuo. Quem quiser que siga o progresso. Ainda não estou preparado. Entrar de costas no recuo ainda é demais para mim. E você, entraria?

Mas quem pensa que foi apenas isto que alcançamos no carnaval está completamente enganado. Alguns comentários profundíssimos ficarão para sempre na minha memória. Como o daquela repórter que disse: "aqui nessa escola não tem esse papo de cor não; tem negra, loira, morena". Entenderam? Ela montou um jogo de contradições propositalmente para nos fazer refletir sobre a origem do Universo. Sem papo de cor, enumerando a seguir as cores. Que grandeza!

Mais uns dez carnavais e seremos lembrados para toda a eternidade.