A Barbárie dos Tempos Modernos

quarta-feira, março 31, 2004

Novos links para novos e antigos blogs

Alguns mudaram de endereço, outros nunca estiveram na lista, mas agora espero ter lembrado de todos:

Politicamente incorreto - Tiago Sacilotto
Márcio Guilherme
Contra a Ilusão - Flamarion
Amigos da América
Jardim de Alhures - Evandro Ferreira
Alfredo Votta
Very Peculiar - Sidney Vida
Carlos Guilherme
O Velho da Montanha
FYI - Paulo Mode
Something Stupid - Chico

terça-feira, março 30, 2004

Um paradoxo

Enquanto civilizados fazem apologia da selvageria, vândalos defendem a civilização.

segunda-feira, março 29, 2004

Da série Diálogos

- Doutor, meu problema é um bolo na garganta.
- O diagnóstico é ansiedade.
- Mas como? Eu não tenho problemas, estou aposentado há um mês.
- Aí está a razão da sua ansiedade.
- Qual?
- A falta de problemas. Para o senhor, não ter problemas é um problema muito maior do que todos que já teve até hoje.
- Não poderia ser um tumor na garganta?
- Isso só confirma o meu diagnóstico.
- O quê?
- O seu desejo de que seja um tumor na garganta confirma a minha hipótese. Estando aposentado, a vida do senhor ficou sem sentido, e saber que terá que encontrar um novo sentido para ela é algo tão assustador que o senhor prefere não pensar no assunto. Só que ninguém consegue viver sem sentido, então o problema se reapresenta sob a forma de um sintoma físico. Dizer que este sintoma é causado pela ansiedade é o mesmo que desmascará-lo e trazer à tona a sua responsabilidade perante o sentido de sua vida. Então o senhor prefere acreditar que seja um tumor, porque seria uma fatalidade e eliminaria sua responsabilidade perante o problema. Além disso, sendo um tumor, o senhor teria um novo problema para voltar a se preocupar, o que lhe ocuparia um pouco o tempo e lhe permitiria não ter que pensar no sentido da vida por alguns momentos. Mas, na verdade, o senhor não precisa pensar nisso. Bastar buscar que encontrará sentidos reais para sua vida.
- Por que ninguém nunca me disse isso? Só me pediram exames e mais exames?
- Não sei.

Comentário:

Este diálogo, que foi real, lembrou-me um trecho de A Descoberta do Outro, em que Gustavo Corção fez uma radiografia de tórax tendo a certeza de que estaria com tuberculose. Começou a fazer planos para a sua vida durante o tratamento da doença. Comprou um gráfico e uma régua para traçar a curva da febre e tudo mais. Quando lhe disseram que o exame estava normal, perguntou a si mesmo: e agora, que farei com estes pulmões normais?

sexta-feira, março 26, 2004

Lula é prisioneiro do modelo econômico, segundo Skidmore

Lula é, na verdade, um humanista, gosta do povo, mas, coitado, não pode colocar em prática seus projetos de benfeitoria porque o atual modelo econômico não permite. E não pensem que ele errou ao dar poderes excessivos a Dirceu. Era necessário. Enfim, leiam a matéria toda e chegarão a mesma conclusão que eu, até porque não há outra possível: de acordo com Skidmore, Lula está fazendo tudo certo e as coisas estão dando errado simplesmente porque não podem ser diferentes do que são.

Mas se era para escolher alguém que gostasse tanto do povo e tivesse tanta afinidade com ele, porque não eleger um santo? Alguém há de discordar que um santo ama mais o povo do que Lula?

A culpa de tudo está no modelo econômico, mas o presidente não é responsável por ele. Então que diabos o metalúrgico está fazendo lá? Que eu saiba, existem vários modelos econômicos. Por que ele não coloca outro em prática?

Isso é muito fácil de explicar, seu Skidmore, mesmo tendo menos 40 anos que o senhor. Lula não é prisioneiro de modelo econômico nenhum, é prisioneiro da ideologia do seu partido, que é, por coincidência, a mesma do senhor. E é somente por isso que ele nada tem a fazer quanto aos rumos da economia, pois o único modelo econômico que funciona é o liberalismo, e este ou ele não conhece ou, se conhecesse, jamais o poria em prática. E como já está provado que a esquerda não tem modelo econômico nenhum, a única saída é seguir o que dita o FMI e tentar arrancar do povo o máximo de dinheiro que puder para pôr em prática projetos que só pioram ainda mais o desenvolvimento da economia. Enquanto o povo vai sendo enrolado com essa besteirada toda, os homens do poder vão articulando as alianças políticas com o bloco socialista, para que o Brasil nunca mais possa fugir dessa linha ideológica.

Como se pode ver, seu Skidmore, vendo por esse lado, o tal Lula perde bastante da sua santidade, não?

quinta-feira, março 25, 2004

Coisas que um ateu nunca entenderá

Para aqueles que acham possível explicar o mundo sem recorrer à religião, leiam esta de Chesterton: "A moralidade não começou quando um homem disse ao outro 'eu não te baterei se tu não me bateres'; não há nenhum indício de que tal acordo tivesse sido feito. Há, porém, indícios de dois homens que disseram 'não devemos brigar em lugar sagrado'." E assim vão por água abaixo as teorias de Rousseau e Hobbes. Ah, e a de Kant também. Falando nisso, poucas vezes tremo em minha vida, mas uma das ocasiões mais difíceis de evitar é quando falam em moral laica. Imagino o sujeito que diz moral laica com aquela mesma cara de um garotinho de 9 anos a quem o pai acabou de explicar a estória da cegonha.

E não acaba aí, tem mais: "Os homens não cultivaram a limpeza. Purificaram-se para o altar e verificaram que tinham ficado limpos." Mas como poderá entender tudo isso um sujeito que pendura mandalas na parede da sala?

quarta-feira, março 24, 2004

Não deixem de ler

Tudo que, se pudesse, diria sobre A Paixão de Cristo depois de assitir ao filme, a Juliana já disse.

terça-feira, março 23, 2004

O MST no mundo da lua

Querem saber por que já há uma ala do MST inscrita na próxima missão à lua? É só clicar aqui.

Loucura objetiva

A loucura é o egoísmo levado a sério e sem disfarce, porque o disfarce é o último resquício de solidariedade.

Ela começa com um subjetivismo profundo e atinge o limite quando já não se consegue pensar em ninguém. O problema é que, quando já não se pensa em ninguém, também já não se pensa em si mesmo. Nesse ponto, há a perda de identidade. Restam apenas as coisas, os objetos. A loucura é assim: começa com o extemo do subjetivismo e termina com o mais puro objetivismo.

O subjetivismo é a busca da loucura e o objetivismo é a sua posse.

O pecado brasileiro

Uma breve análise da história política do Brasil comprova: o único pecado que o brasileiro admite é o roubo. Ninguém se revoltou, por exemplo, contra a não-CPI do Caso Celso Daniel, mas todos se revoltaram contra a não-CPI do Caso Waldomiro. Tomara que a Paixão de Cristo de Mel Gibson sirva para alertar o povo para este fato: Jesus Cristo foi morto, não foi roubado. Foi vítima de uma conspiração para matá-lo e não para roubá-lo. Ouviram? Conspiração - Morte. Morte - Conspiração. Entenderam a ligação? Não adianta! Nosso povo só vai saber o que é terrorismo quando já não for mais possível denominá-lo.

segunda-feira, março 22, 2004

Um pequeno esquecimento de Cristaldo

Por que será que Janer Cristaldo só não inchui em sua contabilidade o número de mortos em nome dos deuses iluministas? A minha impressão é simples: ele reza pra eles.

sábado, março 20, 2004

Ladrão se entrega após ver "A Paixão de Cristo"

Mas um sargento prefere acreditar que na verdade ele se entregou porque está convencido de que tem câncer de próstata e precisa de assistência médica. Só faltou dizer que o ladrão recebeu uma graninha de Mel Gibson para fazer propaganda do filme.

sexta-feira, março 19, 2004

A beleza em Os Irmãos Karamazov

A beleza é terrível! Terrível, porque indefinível. Deus só nos deixou enigmas. Os extremos se tocam e todas as contradições se misturam. Eu, irmão, sou pouco instruído, mas já pensei sobre tudo isso. Quantos mistérios! Isto é demais para o homem. Decifra-os como pode e sai sequinho da água. Oh! a beleza! Não posso suportar que um homem de coração superior e poderosa inteligência tenha a Madona por primeiro ideal e Sodoma por último. Ainda mais terrível, porém, é ter já o ideal de Sodoma na alma e não negar o da Madona, sentindo o coração se abrasar, sim, abrasar-se como nos inocentes anos da juventude. Não, o homem é largo em suas concepções, muito largo. Eu gostaria de torná-lo mais estreito. Diabo! O que ao cérebro aparece como abjeção é, para o coração, a quintessência da beleza. Estará a beleza encarnada em Sodoma? É lá que ela reside para a grande maioria dos homens – conhecias este mistério? O que mais me apavora é que a beleza não é só terrível, mas também misteriosa. O demônio luta com Deus e o campo de batalha são os corações humanos. Aliás, é sempre assim: fala-se daquilo que nos faz sofrer.

Um Ser Autotranscendente

O ser humano é o primeiro e único animal a viver fora do natural, sendo esta, inclusive, uma tendência natural dele, ou seja, nós somos naturalmente anti-naturais. Expliquemos em que consiste essa antinaturalidade. Nenhum outro ser vivo vê a natureza além do que ela é em si, ou seja, além do aspecto natural. Quando uma vaca vê uma lagoa azul enxerga nela a possibilidade de saciar sua sede. Já o homem, além dessa percepção, pode também se encantar com aquela imagem, sentir uma paz interior, lembrar de amores do passado, enfim, a lagoa pode significar para ele milhares de coisas que não estão em seu significado original, porque vive fora do natural, ou seja, além do que o mundo lhe proporciona como matéria bruta. E desde quando é assim ? Desde sempre.

Desde que o homem é homem ele criou para si um outro mundo, sobreposto ao que já existia, e muito mais significativo espiritualmente. Ele sabia que uma caverna era útil para o proteger da chuva, mas em tempo algum a viu apenas como um abrigo. Ela sempre teve outros significados, e muito mais importantes. E por que ele via as coisas de uma forma tão diferente ? Só há uma resposta : porque algo inerente ao seu ser sempre o fez perceber que o mundo é muito mais do que “a natureza física”, ou seja, ele sempre teve tendência a crer que há algo além do que ele via diretamente. Esta realidade que só o homem consegue perceber sempre foi considerada, desde os primórdios, como superior à realidade em seu aspecto puramente físico. Isto quer dizer que o ser humano nunca, em tempo algum, pensou que a vida fosse simplesmente aquilo que pudesse tocar, cheirar, ver, ouvir ou degustar. Sempre achou que há algo muito superior a tudo isso, e que nisso consistia a verdadeira realidade, por ser muito mais profunda e duradoura. Uma flor ou uma árvore têm uma existência fugaz, mas aquilo que elas representam para o homem não morre jamais, nem quando ele morre, pois outros homens compreenderão o significado delas.

Mas nossos antepassados foram além disso. Ao perceberem que havia uma realidade muito superior à aparente, não quiseram mais deixar de viver dentro dela. E assim passaram a criar meios de torná-la mais acessível. Foi assim que surgiram os rituais. “Materializando” a realidade superior através de ritos, o homem conseguiu se aproximar muito mais dela. Uma pedra qualquer, que nunca significou nada além disso, passou a ter um significado muito especial e profundo após ser utilizada dentro de determinado ritual. Ela deixava então de ser uma simples pedra para simbolizar algo da realidade superior. O mundo físico sempre foi considerado uma mera ilusão, e o homem nunca gostou de viver de ilusão, por isso sentia uma necessidade de dar significado “real” a tudo ao seu redor. Assim, até mesmo os atos humanos tinham um significado maior, além do “mundano”. Quando pescava, caçava, cozinhava, transava, comia, urinava, todos estes atos tinham um significado além do simples aspecto prático. Também tinham um significado “real”.

O homem nunca conseguiu, portanto, viver fora do real. E a realidade para ele sempre foi a realidade espiritual. É importante ressaltar que sempre foi de sua própria natureza viver assim, ou seja, a realidade espiritual nunca foi uma criação artificial do homem, mas uma tendência natural de ver o mundo dessa forma. A simbologia que o homem criou através dos tempos foi o que permitiu que ele mantivesse um contato íntimo com o mundo superior. Daí dá para perceber o quanto o ser humano é naturalmente autotranscendente, pois ele não apenas transcende o mundo em que vive como transcende sua própria natureza animal por sua tendência inata a viver no espiritual.

Aí vem o homem moderno e diz que nós criamos a religião para servir de ópio para nossas dores. Mal sabe ele que a religião é algo natural e intrínseco ao ser humano, e ele sim é que é artificial e vive num mundo de ilusão, incapaz que se tornou de realizar sua tendência natural à autotranscendência.

quarta-feira, março 17, 2004

A arte de odiar

É a mais praticada atualmente. É verdade que sempre esteve na moda, mas nunca como agora. Tudo começou quando uns malucos resolveram explodir torres enormes. Esperem, não foi bem assim. Antes, oitenta por cento do mundo já havia decidido que os EUA não eram um país muito legal, e que, provavelmente, eram os responsáveis pela maior parte da miséria do mundo. Quando as torres desabaram, quase ninguém aprovou a ação, mas muitos preferiram acreditar que, mesmo sendo capazes de um ato tão assombroso, os terroristas não deveriam ser tão maus assim, afinal estavam apenas tentando se defender da opressão da maior potência mundial.

Desde então, o ódio aos americanos permanece muito maior que aos terroristas. E é por isto mesmo que eles ganham cada vez mais espaço e crescem no mundo inteiro. Mesmo para um fanático comunista, não é difícil perceber que a guerra é injusta. Quando os terroristas alegam que só estão invadindo outros países porque se aliaram aos EUA, este argumento é visto como prova de que os americanos erraram ao atacá-los, e os governos desses países mais ainda ao apoiá-los. Por outro lado, se os EUA alegam que todos precisam combater o terror e, portanto, precisam ajudá-los nesse empreendimento, este argumento é interpretado de duas maneiras: em primeiro lugar, como manobra americana para aumentar seu poderio econômico, fazendo todos os outros de trouxa, e, em segundo lugar, como motivo suficiente para que os terroristas se revoltem e ataquem ainda mais.

Conclusões: 1) Os terroristas não são os reais responsáveis pelos ataques, são vítimas dos EUA; 2) Os americanos não deveriam tentar detê-los, pois isto aumenta ainda mais o ódio deles, o que pode acabar atingindo outros países; 3) Eles têm todo o direito de odiar em progressão geométrica, pois são as vítimas; 4) Só restam 2 formas de combater o terrorismo: a) Protestos pacíficos; b) Deixando o controle da ação nas mãos dos comunistas, pois estes não têm nenhum interesse econômico e são pessoas muito bondosas.

Se você percebeu algum erro desde as premissas até a conclusão lógica desse raciocínio, tenha certeza de que ele se deve unicamente ao ódio aos americanos ser maior no mundo inteiro que o ódio aos terroristas.

Esta notícia, por exemplo, chama a atenção para uma pesquisa que aponta descontentamento global com os EUA. A observação de que foi feita antes dos atentados em Madri só se encontra no final da matéria, o que faz com aqueles que não a leram na íntegra concluam que os americanos tiveram sua imagem ainda mais deteriorada. É óbvio que algo tão maquiavélico só pode sair de um cérebro que não consegue perceber o perigo que o terror representa, e que essa obnubilação se deve unicamente ao ódio aos americanos. Percebam como são precisos em suas informações: comparam pesquisas feitas em vários países sobre a condição de vida dos iraquianos. Em todos, exceto nos EUA, as pessoas acham que ela piorou. Detalhe: esqueceram de incluir na comparação a pesquisa feita entre os iraquianos, os únicos que concordam com os americanos. Mas o que importa ao mundo se os iraquianos acham que suas vidas melhoraram, não é mesmo? Basta que saibam que a maioria discorda de quem vive lá.

segunda-feira, março 15, 2004

Possível réplica da Schin ao comercial da Brahma

Muitos não sabem o que é amar
Pensam que o amor nos permite experimentar
Mas quem ama de verdade
Não se deixa influenciar
Nem se vender, nem se levar

Se, para ele, fui apenas um amor de verão
Para muitos, sou a primeira e única paixão

Ficou tão ruim assim? Não? Quem se aventura a musicá-la com um sambinha? Está péssima? Então deixa pra lá.

domingo, março 14, 2004

A Racionalização do Terror

O terror não tem causas por romper precisamente com toda explicação racional. Não faltarão intelectuais partidariamente engajados que, sob o manto da apresentação de causas, tentarão passar o injustificável como justificável, isto é, como compreensível. A gratuidade do terror significa, precisamente, que ele nasce de atos de vontade que somente se aproveitam de problemas existentes para imporem suas próprias condições. Líderes terroristas utilizam massas sofridas e despreparadas em proveito próprio, relegando-as à posição de fantoches. A pretensa apresentação política desses atos terroristas como sendo justificáveis, como uma reação normal à globalização ou ao americanismo, é uma partidarização da questão que procura mascarar o fundamental, a saber, a defesa ou não da humanidade. Irrompeu em nós o sentimento de insegurança de uma humanidade suspensa. O que lá aconteceu pode ressurgir em qualquer parte do mundo. A banalização do conhecimento, ao procurar fornecer uma causa para torres que desmoronam e indivíduos que subitamente desaparecem, é nada mais do que uma outra faceta do que Hannah Arendt chamava de banalidade do mal. Civilização ou barbárie, eis os termos da questão.

O filósofo Denis L. Rosenfield escreveu isso em seu livro Retratos do Mal, publicado após o ataque às torres gêmeas.

De lá para cá, além do ataque dos EUA ao Iraque - sem julgar se foi uma atitude correta ou desastrada - , nenhuma atitude efetiva contra o terrorismo foi tomada. E, em grande parte, isso se deve às inúmeras tentativas de racionalizá-lo e torná-lo algo compreensível.

Observação: Se você achou que o post abaixo não faz muito sentido, leia o que o Júlio Lemos escreveu no post do último dia 12 de março. Parece que ele concorda inteiramente comigo.

sábado, março 13, 2004

A culpa continua sendo de Descartes

Colocar a culpa do terrorismo no Islã é simplificar demais um problema complexo. Mas não creio que estaria simplificando se continuasse afirmando, como sempre afirmei, que a culpa é de Descartes. Sim, a culpa de tudo será sempre de Descartes. Quando algo não der certo na sua vida, esteja certo, a culpa é de Descartes. Bom, é claro que estou brincando quanto ao último ponto, mas que a culpa é dele, é e sempre será.

Relembrando:

A Culpa é de Descartes

Se me pedissem para escolher um bode expiatório no qual se pudesse colocar toda a culpa dos males do mundo moderno, não hesitaria em apontar René Descartes.

Inconformado com as incertezas do conhecimento que recebeu, ainda de influência escolástica, e maravilhado com algumas descobertas científicas de sua época, o filósofo resolveu que daria um outro rumo aos seus estudos. Por ser a matemática a única ciência realmente confiável, partiu dela para construir seu edifício filosófico.

Mas o problema diante do qual se encontrava Descartes não era muito diferente do que se defrontaram os 3 maiores filósofos gregos. Apesar da certeza proporcionada pela matemática, ela não diz respeito ao mundo concreto. O método criado por Sócrates tentava aumentar o grau de certeza da investigação dos problemas do mundo real. Ele sabia que isso não poderia ser feito através da matemática, mas ela servia de parâmetro do tipo de conhecimento perfeito.

Descartes seguiu o caminho inverso : resolveu aplicar a matemática ao mundo concreto, e, para ter sucesso, descartou da investigação tudo aquilo que atrapalhasse a aplicação da matemática.

O que ele fez, então, foi desistir de conhecer grande parte do “conteúdo” do mundo e se conformar com uma pequeníssima porção dele.

Mas é claro que era preciso justificar isso tudo, afinal, se a coisa fosse dita assim, quantos não perguntariam pelo que seria feito da possibilidade de conhecimento que foi abandonada ? Então Descartes criou sua metafísica, através da qual nos explicou que o mundo é dividido em res extensa e res cogitans, ou em mundo material e mundo espiritual, e que um nada tem a ver com o outro. No mundo material, só o que existe é a extensão, portanto uma dimensão que pode perfeitamente ser estudada em linguagem matemática, o que possibilitou que o conhecimento humano da realidade se tornasse algo perfeito. Em resumo, e simplificando bastante, para conhecer o mundo bastaria medi-lo. E haja régua ! Bom, mas o que não faltaram foram réguas. Até hoje o que mais diverte alguns cientistas é criar mais e mais réguas, ou seja, instrumentos que possibilitem o estudo matemático do mundo.

E quanto mais essa ciência se desenvolveu, mais sucesso alcançou na produção de aparelhos que possibilitaram não apenas a medição do mundo mas que também trouxeram imenso conforto ao homem.

E qual o grande problema disso tudo ? O fato é que, ao desistir de conhecer a realidade e se conformar em entender apenas uma ínfima parte dela, o homem, na verdade, foi se tornando cada vez menos capaz de compreendê-la, mas sem perder a capacidade de agir sobre aquela fatia que estudou em profundidade. Ou seja, a extensão é mesmo uma parte da realidade, e o conhecimento obtido do estudo da extensão, apesar de não servir para compreender o mundo concreto, servia para que se pudesse agir sobre ela por essa via.

O que ocorreu, então, foi que o ser humano passou a agir sobre a realidade sem antes compreendê-la. E como era a extensão a única parte compreendida, foi também o único benefício que o homem teve : naquilo que é mensurável, seu mundo melhorou bastante. Desde a revolução industrial, é impossível negar o quanto melhorou a condição de vida material do homem.

Mas em Descartes nada disto estava explícito. Ele acreditava que a realidade era mesmo pura extensão e que, ao estudá-la, estaria compreendendo-a. Quem acabou com a farsa de uma vez por todas foi Marx, que, não percebendo que a coisa já estava nesse nível desde Descartes, revoltou-se contra o que não havia para se revoltar e decretou que o homem não precisaria compreender o mundo, bastaria transformá-lo.

Depois de tudo já tão explícito, a chance da humanidade era a de rever a situação e tentar mudar o rumo dos acontecimentos. Mas o que está ocorrendo é que cada vez mais o homem aumenta o abismo entre a realidade e a fantasia.


E o que é o terrorismo além da expressão mais palpável possível da culminação do abismo entre a realidade e a fantasia ?

quinta-feira, março 11, 2004

A política acima da vida e da morte

Quase 200 pessoas são mortas por terroristas e só o que importa é se isso poderá beneficiar Bush na disputa eleitoral. Que matassem 1500, contanto que o fizessem de uma forma que beneficiassem Kerry. Como esses caras são burros!

terça-feira, março 09, 2004

A única psicoterapia válida - última parte

Não pensem que Frankl era do tipo que acreditava que a solução para todos os nossos males seria encontrada na correção do espírito. Tenho certeza que ele aprovaria e prescreveria os antidepressivos modernos, por exemplo. Com bom senso, é claro, e não da forma abusiva que são usados hoje.

Porque, segundo ele, o homem tem 3 dimensões: a física, a psíquica e a espiritual. As doenças que afetam a dimensão física e psíquica têm reflexo na espiritual, é claro. E o objetivo do homem não deve ser o de dificultar o aprimoramento do espírito, mas sim o de facilitar. Como está provado, a depressão tem origem externa e interna (endógena), e é evidente que, em muitos casos, o componente endógeno sobressai. Seria aqui que os antidepressivos seriam mais indicados.

Mas o mais importante é que, pra Frankl, com ou sem a correção dos males físicos e psíquicos, a melhora da dimensão espiritual sempre acarretará um bem para o homem, e sem isso, de nada adianta corrigir os males físicos e psíquicos. Eles se apresentarão de uma outra forma. Pois aquele que não encontra um sentido para sua vida, nunca vai estar são.

O problema da psicologia profunda é que nos faz crer que devemos nos concentrar em nós mesmos para resolvermos nossos problemas. E é isso que impede o homem de desenvolver seu espírito.

Darei um exemplo. Um homem ficou impotente depois que soube de uma grave doença que atingiu a sua mãe. Ela acabou melhorando, mas sua potência não. Sua esposa procurou Frankl, que não pôde atendê-la no momento mas ouviu o caso com brevidade e recomendou que não tivessem relação sexual enquanto ela não voltasse a falar com ele, dentro de uma semana. Quando voltou a encontrá-lo, a mulher disse que não conseguiu seguir a recomendação dele até o fim, e que no dia anterior o marido havia recuperado a potência e, assim, fizeram amor. Pronto, caso resolvido. O que aconteceu? O homem não conseguia ter ereção, a princípio, porque dirigia a atenção para a doença de sua mãe, o que é natural, mas depois continuou sem tê-la porque dirigia sua atenção para o próprio pênis. Quando foi proibido de ter relações sexuais, esqueceu-se do seu órgão e aumentou o desejo por sua mulher e, com isso, pôde fazer amor com a esposa normalmente.

É sempre essa a solução de Frankl: orientarmo-nos para algo, para alguém e para Deus. Porque essa é a única forma de crescermos espiritualmente. E o crescimento do espírito não apenas ameniza os males do corpo e da mente como impede que eles se manifestem repetidamente.

União civil é diferente de casamento

O César sempre esteve com a razão. E o Caio Rossi reconhece:

"A verdadeira solução para a questão é a luta pela abolição do casamento civil nos moldes em que se apresenta e pela instituição de uma união civil opcional entre indivíduos de quaisquer sexos em que se estabeleça um contrato acordado entre as partes, sem a camisa de força do Código Civil, e que não envolvam direitos que incorram no estabelecimento de obrigações para o restante da população, como pensões pagas pelo Estado com o dinheiro dos outros contribuintes, que parece ser do agrado de muitos conservadores que se dizem contrários ao Estado provedor."

domingo, março 07, 2004

Curso de noivos

Antes de postar a terceira parte da série sobre a psicoterapia de Frankl, gostaria de fazer alguns comentários sobre um curso que fui obrigado a freqüentar neste fim de semana.

Sou casado apenas no civil, porque na época não seguia nenhuma religião, apesar de estudar muitas delas. Aos poucos, eu e minha esposa nos convertemos ao catolicismo, até chegar o dia em que concluímos que deveríamos receber o sacramento do matrimônio, inclusive porque é fundamental para seguirmos uma vida completamente católica.

Fomos avisados que não poderíamos nos casar na igreja sem antes freqüentarmos um curso pré-matrimonial oferecido (na verdade, imposto) pela CNBB.

O curso é dado por pessoas que se oferecem livremente, não precisando para tal de nenhuma credencial. São casais que costumam ir à missa, e só.

O que posso lhes dizer a respeito dele é que nunca fui tão torturado em toda a minha vida. Primeiramente, fizeram uma pequena brincadeira para que nos conhecêssemos melhor. Éramos 20 casais ao todo. Dividiram-nos em 5 grupos e pediram que discutíssemos sobre um assunto qualquer que se relacionasse com casamento. E assim fizemos.

Essa foi a parte menos pior. Apesar de alguns se expressarem através de idéias totalmente anti-cristãs, a grande maioria reconheceu a importância da família e dos valores morais derivados da religião. O que percebi foi que todos tinham a noção exata da necessidade de compreendermos que, quando casamos, o outro já tem uma história de vida à qual precisamos nos adaptar de alguma forma. O que me intrigou foi como muitos deles eram socialistas declarados, quando o socialismo nega justamente isso, ou seja, que ao nascermos, o mundo já tem uma história e que é impossível deixá-lo da maneira que gostaríamos.

Mas a parte mais triste e torturante veio depois. Falou-se muito mais de sexo, no sentido completamente mundano e sensual do termo, do que de fé e religião. Apenas 2 vezes, em todas as oito horas, o nome de Jesus Cristo foi citado, excetuando-se as duas ocasiões em que foi rezado o Pai Nosso.

A hora em que mais rezei foi quando uma ginecologista deu uma palestra sobre métodos anticoncepcionais. Falou com detalhes de todos eles, inclusive da pílula do dia seguinte, que não é método anticoncepcional, mas abortivo. Só esqueceu de falar da tabelinha. Confesso que sempre estive preparado para ouvir pregação anti-cristã na mídia, na missa, em todo lugar, mas jamais imaginei que a igreja me obrigasse a ouvir uma pregação anti-cristã orientada por ela própria. Que façam pregação anti-cristã na missa, até aceito, porque não sou obrigado a ir à missa (sou obrigado, de certa forma, pelos dogmas da igreja, mas não sou proibido de me casar, por exemplo, se não freqüentar a missa) e posso escolher a missa que achar melhor. Mas que me exijam como condição para casar que antes seja torturado dentro da própria igreja, foi um pouco demais. Nunca minha fé foi colocada em xeque de uma maneira tão direta. E, graças a Deus, passei no teste.

Depois de todos esses absurdos, um senhor de meia-idade, de feição inocente, nos explicou, como conclusão do curso, que ele era obrigatório porque a igreja anda muito liberal e que é preciso torná-la um pouco mais conservadora. Para tanto, aquele curso servia para orientar os casais a seguirem os preceitos da religião católica antes de casarem. Não, não pensem que voei no pescoço dele e lhe arranquei a cabeça fora. Sou um cristão, afinal. Sequer tive vontade de fazê-lo. Mas confesso que em outros tempos, não apenas teria pensado como o teria feito.

O sujeito conseguiu chegar a uma conclusão que é o inverso perfeito da realidade. Uma proeza inimaginável de perversão! Se ele é consciente ou pelo menos semi-consciente do fato, não me interessa nem um pouco.

Que aquilo que está começando como tortura possa acabar em felicidade.

sábado, março 06, 2004

A única psicoterapia válida - parte 2

Simbolicamente, um dos significados da luz é a Verdade. Até mesmo em desenhos animados, quando algum personagem tem uma idéia brilhante (alguma verdade antes desconhecida), colocam uma lâmpada acesa em cima de sua cabeça.

Em várias religiões, os mortais comuns não podem olhar diretamente para a verdadeira Luz. Ficam cegos se assim o fazem. No Antigo Testamento, nem Moisés conseguia olhar diretamente para Ela. E quando ele desce o monte Sinai, com o rosto resplandecente, por ter falado com Deus, o povo de Israel não consegue olhá-lo de frente. Para os ignorantes, a verdade cega. Eles não podem suportá-la.

Quando mentimos diariamente para nós mesmos, estamos fugindo da Luz. Caminhamos em direção às trevas. Não é por acaso que a psicologia da profundidade tem esse nome. Ela nos leva ao fundo do poço. Ficamos totalmente sem esperança. Por isso, Viktor Frankl contrapõe a ela a psicologia da altura. Somente uma psicologia da altura poderia nos ajudar a caminhar em direção à Luz - porque Ela está sempre no alto -, mesmo que saibamos que levará muito tempo até que possamos encará-La diretamente.

E por que a psicologia da profundidade nos leva mesmo ao fundo? Porque nos dá motivo para justificarmos nossos erros diários. Nela, obtemos desculpas para as nossas faltas, deixando de sermos responsáveis por elas.

Até em simples exemplos, podemos perceber a influência perversa dessa psicologia. Como já disse, ela estimula os homens a terem a si mesmo como foco, concentrando suas ações neles próprios. Um marido pergunta a sua mulher, por exemplo, por que ela está se enfeitando tanto se não sairão nem receberão ninguém naquele dia, e ela responde que está fazendo aquilo para o seu próprio bem-estar. Ora, o seu bem-estar não pode ser o de agradar a si mesma. Provavelmente, ela está fazendo aquilo para agradar ao marido, mas anos e anos de propaganda feminista a levou a imaginar que seria mais sublime se enfeitar para si mesma. E um dia ela acaba se enfeitando para si mesma realmente. Ai já estará neurótica.

A criminalidade, por exemplo, o quanto não se sente justificada e estimulada pela psicologia da profundidade? Quantos novos criminosos por dia ela ajudou a criar?

Na última parte, vou me concentrar na resposta de Viktor Frankl para tudo isso.

sexta-feira, março 05, 2004

A única psicoterapia válida - parte 1

Para obter alívio de suas dores e se sentir melhor, ninguém precisa de psicoterapeuta. Um bom amigo pode dar conta do recado. E geralmente desempenha a função mais adequadamente. O problema é que já não há mais amigos que disponham de uma hora por dia duas ou três vezes por semana. É aí que a psicoterapia leva vantagem. Mas, a depender do método utilizado, o prejuízo pode ser insuperável. Quase sempre, quanto menos ortodoxo, melhor o terapeuta.

A única exceção à regra é a logoterapia e a análise existencial de Viktor Frankl.

Para que se tenha uma idéia do quanto a proposta do neuropsiquiatra difere das demais, apenas direi que é a única que conheço que pode ser aplicada ao homem como tal e não apenas ao animal humano.

Deixo que o próprio autor se explique melhor:

Freud ensinou a todos nós a ver no homem apenas um ser interessado na busca do prazer. Como ele afirmou diversas vezes, o princípio de realidade não é outra coisa senão uma extensão do princípio de prazer, e sempre a serviço do princípio de prazer, cujo objetivo continua sendo: "prazer e nada mais que prazer".

Mas, segundo ele próprio, o princípio do prazer está a serviço de outro princípio mais abrangente - o princípio de homeostase - , cuja meta é a redução do equilíbrio interno.

Apesar disso, o que realmente se percebe no marco da imagem freudiana do homem é aquela característica fundamental da realidade humana, que eu chamo de sua dimensão auto-transcendente. Com esse termo, quero assinalar o fato intrínseco de que o ser humano sempre está relacionado com e aponta para algo diferente de si ou, para dizê-lo mais exatamente, para algo ou alguém. Ou seja, mais propriamente do que parecer preocupado com alguma circunstância interna, seja o prazer ou a homeostase, o homem se orienta sempre para o mundo externo. Em virtude do que eu chamaria autocompreensão ontológica pré-reflexiva, o homem sabe que está se auto-realizando na medida em que se esquece de si mesmo ao se dar, ao se entregar, seja servindo a uma causa nobre, seja amando outra pessoa. A autotranscendência é a essência da natureza humana.

A segunda das duas escolas clássicas vienenses de psicoterapia - a psicologia adleriana - também não leva a autotranscendência suficientemente em consideração. Adler vê o homem sobretudo como um ser que luta para superar uma condição inferior, qual seja, seu sentimento de inferioridade, do qual ele tenta se desvencilhar encetando a busca competitiva da superioridade, que, em grande medida, coincide com a "vontade de poder" nietzschiana.

Na medida em que uma teoria da motivação gira em torno da "vontade de prazer" ou em torno da busca compensatória adleriana da superioridade, ela demonstra ser um exemplo típico da chamada "psicologia da profundidade". Ter-se-ia de opor a ela uma psicologia da altura, que leve em consideração as aspirações superiores da psique humana: não só a busca de prazer e de poder, mas também a vontade de sentido.


Atualmente, a vontade de sentido encontra-se frustrada em escala mundial. E isso é facilmente explicável. Um dos motivos foi a própria propagação da Teoria de Freud, que tem por base uma neurose, e busca, portanto, tornar o homem um neurótico. A psicanálise é apenas isso, não se enganem: uma boa tentativa de fazer com que o homem tenha por objetivo ser neurótico. Como é possível comprovar, o sucesso do Sr. Sigmund neste sentido foi estrondoso. É verdade que não o conseguiria sem a ajuda de boa parte dos filósofos modernos, mas a sua contribuição foi gigantesca.

Em outros posts, sempre com a ajuda de Viktor Frankl, darei exemplos típicos de homens que são neuróticos justamente porque seguem à risca as teorias de Freud e/ou Adler.

quinta-feira, março 04, 2004

Caninos pequenos apontam para o que pode ser o primeiro hominídeo

E se o primeiro homem foi um ortodontista?