A Barbárie dos Tempos Modernos

segunda-feira, março 29, 2004

Da série Diálogos

- Doutor, meu problema é um bolo na garganta.
- O diagnóstico é ansiedade.
- Mas como? Eu não tenho problemas, estou aposentado há um mês.
- Aí está a razão da sua ansiedade.
- Qual?
- A falta de problemas. Para o senhor, não ter problemas é um problema muito maior do que todos que já teve até hoje.
- Não poderia ser um tumor na garganta?
- Isso só confirma o meu diagnóstico.
- O quê?
- O seu desejo de que seja um tumor na garganta confirma a minha hipótese. Estando aposentado, a vida do senhor ficou sem sentido, e saber que terá que encontrar um novo sentido para ela é algo tão assustador que o senhor prefere não pensar no assunto. Só que ninguém consegue viver sem sentido, então o problema se reapresenta sob a forma de um sintoma físico. Dizer que este sintoma é causado pela ansiedade é o mesmo que desmascará-lo e trazer à tona a sua responsabilidade perante o sentido de sua vida. Então o senhor prefere acreditar que seja um tumor, porque seria uma fatalidade e eliminaria sua responsabilidade perante o problema. Além disso, sendo um tumor, o senhor teria um novo problema para voltar a se preocupar, o que lhe ocuparia um pouco o tempo e lhe permitiria não ter que pensar no sentido da vida por alguns momentos. Mas, na verdade, o senhor não precisa pensar nisso. Bastar buscar que encontrará sentidos reais para sua vida.
- Por que ninguém nunca me disse isso? Só me pediram exames e mais exames?
- Não sei.

Comentário:

Este diálogo, que foi real, lembrou-me um trecho de A Descoberta do Outro, em que Gustavo Corção fez uma radiografia de tórax tendo a certeza de que estaria com tuberculose. Começou a fazer planos para a sua vida durante o tratamento da doença. Comprou um gráfico e uma régua para traçar a curva da febre e tudo mais. Quando lhe disseram que o exame estava normal, perguntou a si mesmo: e agora, que farei com estes pulmões normais?