A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, março 19, 2004

Um Ser Autotranscendente

O ser humano é o primeiro e único animal a viver fora do natural, sendo esta, inclusive, uma tendência natural dele, ou seja, nós somos naturalmente anti-naturais. Expliquemos em que consiste essa antinaturalidade. Nenhum outro ser vivo vê a natureza além do que ela é em si, ou seja, além do aspecto natural. Quando uma vaca vê uma lagoa azul enxerga nela a possibilidade de saciar sua sede. Já o homem, além dessa percepção, pode também se encantar com aquela imagem, sentir uma paz interior, lembrar de amores do passado, enfim, a lagoa pode significar para ele milhares de coisas que não estão em seu significado original, porque vive fora do natural, ou seja, além do que o mundo lhe proporciona como matéria bruta. E desde quando é assim ? Desde sempre.

Desde que o homem é homem ele criou para si um outro mundo, sobreposto ao que já existia, e muito mais significativo espiritualmente. Ele sabia que uma caverna era útil para o proteger da chuva, mas em tempo algum a viu apenas como um abrigo. Ela sempre teve outros significados, e muito mais importantes. E por que ele via as coisas de uma forma tão diferente ? Só há uma resposta : porque algo inerente ao seu ser sempre o fez perceber que o mundo é muito mais do que “a natureza física”, ou seja, ele sempre teve tendência a crer que há algo além do que ele via diretamente. Esta realidade que só o homem consegue perceber sempre foi considerada, desde os primórdios, como superior à realidade em seu aspecto puramente físico. Isto quer dizer que o ser humano nunca, em tempo algum, pensou que a vida fosse simplesmente aquilo que pudesse tocar, cheirar, ver, ouvir ou degustar. Sempre achou que há algo muito superior a tudo isso, e que nisso consistia a verdadeira realidade, por ser muito mais profunda e duradoura. Uma flor ou uma árvore têm uma existência fugaz, mas aquilo que elas representam para o homem não morre jamais, nem quando ele morre, pois outros homens compreenderão o significado delas.

Mas nossos antepassados foram além disso. Ao perceberem que havia uma realidade muito superior à aparente, não quiseram mais deixar de viver dentro dela. E assim passaram a criar meios de torná-la mais acessível. Foi assim que surgiram os rituais. “Materializando” a realidade superior através de ritos, o homem conseguiu se aproximar muito mais dela. Uma pedra qualquer, que nunca significou nada além disso, passou a ter um significado muito especial e profundo após ser utilizada dentro de determinado ritual. Ela deixava então de ser uma simples pedra para simbolizar algo da realidade superior. O mundo físico sempre foi considerado uma mera ilusão, e o homem nunca gostou de viver de ilusão, por isso sentia uma necessidade de dar significado “real” a tudo ao seu redor. Assim, até mesmo os atos humanos tinham um significado maior, além do “mundano”. Quando pescava, caçava, cozinhava, transava, comia, urinava, todos estes atos tinham um significado além do simples aspecto prático. Também tinham um significado “real”.

O homem nunca conseguiu, portanto, viver fora do real. E a realidade para ele sempre foi a realidade espiritual. É importante ressaltar que sempre foi de sua própria natureza viver assim, ou seja, a realidade espiritual nunca foi uma criação artificial do homem, mas uma tendência natural de ver o mundo dessa forma. A simbologia que o homem criou através dos tempos foi o que permitiu que ele mantivesse um contato íntimo com o mundo superior. Daí dá para perceber o quanto o ser humano é naturalmente autotranscendente, pois ele não apenas transcende o mundo em que vive como transcende sua própria natureza animal por sua tendência inata a viver no espiritual.

Aí vem o homem moderno e diz que nós criamos a religião para servir de ópio para nossas dores. Mal sabe ele que a religião é algo natural e intrínseco ao ser humano, e ele sim é que é artificial e vive num mundo de ilusão, incapaz que se tornou de realizar sua tendência natural à autotranscendência.

1 Comments:

  • André,
    perfeito o seu comentário. A visão cartesiana do mundo não contribui em nada para nos melhorar. Na verdade ela tenta é retirar aquilo que nós temos de melhor, a capacidade de transcender e dar significado ao universo. Nós somos os únicos capazes (pelo menos que eu saiba) disso e nos retirar tal capacidade é nos tornar menos humanos. Seu texto é de uma sensibilidade extrema. Parabéns.

    By Anonymous Wagner, at 6:37 da tarde  

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