A Barbárie dos Tempos Modernos

domingo, abril 25, 2004

Vivendo e aprendendo

Vocês sabiam que o serviço público nos EUA é muito ruim? E que a causa disso é a baixa carga tributária americana? Pois foi o que aprendi hoje com Emir Sader. Ele só esqueceu de concluir que, como no Brasil a carga tributária é altíssima, o serviço público aqui é excelente.

Vale a pena ler Vilém Flusser

O ponto de partida da dúvida é sempre uma fé. Uma fé (uma "certeza") é o estado de espírito anterior à dúvida. Com efeito, a fé é o estado primordial do espírito. O espírito "ingênuo" e "inocente" crê. Ele tem "boa fé". A dúvida acaba com a ingenuidade e a inocência do espírito e, embora possa produzir uma fé nova e melhor, esta não será mais "boa". A ingenuidade e inocência do espírito se dissolvem no ácido corrosivo da dúvida. O clima de autenticidade se perde irrevogavelmente. [...] As "certezas" originais postas em dúvida nunca mais serão certezas autênticas.

Achou pouco? Aqui tem mais.

Conhecer

Conhecer é abrir presentes de aniversário. Você os desembrulha um por um, lentamente, e começa a lembrar da pessoa que o presenteou, dá uma risada e diz "só poderia ter sido ele". Ou então olha para a parede mais próxima, e o vê ali mesmo, comprando sua camisa predileta, com seu jeito especial de falar e de gesticular. Mas você pode também se jogar em cima deles, abarcá-los num só golpe e gritar "é tudo meu, é tudo meu", mas aí a analogia já será com o pseudo-conhecimento.

Conhecer é desembrulhar o mundo que Deus nos deu de presente, mas sempre lembrando e agradecendo a Ele. Todas as vezes que os homens esqueceram de Quem lhes deu o presente, fizeram mau uso dele. Mas a moda agora é rejeitar o presente e, ao invés de pedir para trocar, tentar transformá-lo naquilo que gostaria que fosse. É o cúmulo da ingratidão.

Uma história do vovô

Todos têm um avô engraçado, mas duvido que casos como este tenham lhes acontecido.

Josué foi escrivão da polícia, tendo feito amizade com vários ladrões que praticavam pequenos furtos na região, livrando-os, algumas vezes, de longas noites na prisão.

Um belo dia, quando voltavam de um sítio que ele possuía num interior, um dos pneus do carro, no qual vinham minha mãe, meu pai e meu avô, furou. Ao pararem o veículo para realizar a troca, foram abordados por um assaltante, que apontou a arma para meu pai, ameaçando-o. Ao ver Josué no banco de trás, o coitado ficou pálido, e ainda teve que ouvir essa :

- Mas Periquito ! Que decepção ! Você virou bandido, Periquito !

- Por favor, me perdoe, seu Josué, não tinha visto o senhor aí.

E depois de uma longo sermão do meu avô, Periquito disparou :

- Está bem, prometo fazer tudo isso, o senhor sabe que sua palavra é lei, mas será que dava pra me dar uma caroninha até a cidade ?

E o assaltante entrou no carro e foi conversando animadamente como meu avô até meus pais o deixarem em casa.

Arnaldo e Rodolfo

"Se deixou cair, pegue de volta", disse, meio constrangido, ao seu chefe. Há três anos trabalhava naquele escritório e ninguém sequer tinha ouvido a sua voz. De repente, sem querer, soltou aquela frase. Não estava delirando, apenas teve vontade e falou o que lhe veio à cabeça. Todos se entreolharam. O ar deixou de circular, concentrando-se na traquéia de cada um dos funcionários. Houve um intervalo mínimo, para Arnaldo quase duas horas, em que o cenho franzido de seu Rodolfo ocupou todo o espaço. Foi o suficiente para pensar em pedir desculpas ou até quem sabe demissão. Mas enfim a cena se desfez e o ar voltou a circular, tragado pelas narinas do chefe, que, sob a atenta observação de todos, tomava fôlego para responder ao insolente que se recusou a apanhar o copo que havia derrubado no chão.

"Gênio, você é um gênio, rapaz! Onde estava esse tempo todo? Nunca o vi por aqui." Dessa vez foi o chefe que quase ficou sem ar, aspirado pela platéia, que só o expulsou juntamente com um "O quê?" estrondoso, depois que seu Rodolfo prometeu promover o rapaz.

"Se dirigir não beba, se beber não dirija, já ouviu isso, garoto? Eficiente, mas longo, muito longo. A sua frase é melhor e mais útil. Não é a qualquer momento que bebemos, mas quanto tempo conseguimos ficar sem derrubar algo no chão? Vou recuperar meu prestígio. Voltarei a ser o intelectual respeitado de antes. Só precisava de uma frase genial como essa. Talvez até o Nizan me chame para a Africa".

Arnaldo não sabia o que dizer, e terminou sem dizer nada, mas se lamentou profundamente por todo o tempo em que esteve calado.

sexta-feira, abril 23, 2004

Resposta:

Imoralidade.

Padre também precisa de carinho

A CNBB conseguiu a proeza de, ao mesmo tempo, defender o celibato e apoiar os padres que tiveram relações sexuais. Usando a Novilíngua, tudo é possível. O próximo passo é defender a pedofilia.

A lógica moderna

Acredito que muitos já ouviram a velha história da mulher grávida que não tem condições de sustentar seu futuro filho. E também o argumento de que é melhor abortá-lo antes que nasça e acabe se transformando num marginal.

Não tenho dúvidas de que é a lógica desse raciocínio que sustenta o pensamento moderno. Significa que é melhor matar o inocente antes que perca sua inocência e acabe se degenerando.

Um santo, por exemplo, deve ser imediatamente eliminado. Para que deixá-lo vivo tanto tempo? Para cometer erros e perder sua santidade? Não, não, é melhor evitar.

Já o que virou marginal não tem mais o que perder. Seu destino de mau-caráter está selado. O que fazer com ele? Devemos ter compaixão, é claro. Matá-los seria um desperdício de bala. Com tanto santo precisando delas...

Aos santos, a morte, aos assassinos e ladrões, direitos humanos. Não é assim?

quarta-feira, abril 21, 2004

Metas medievais e metas modernas

Li num dos livros de Paul Johnson que os medievais adoravam se impor regras que quase nunca conseguiam cumprir. Pode até ser verdade, mas com certeza eram regras que, quando cumpridas, engrandeciam o homem.

Já o homem moderno adora criar regras imorais que, graças a Deus, também não conseguem cumprir. O fato é que, cumprindo-as ou não, essas regras empobrecem o homem e geram inúmeros problemas. Por exemplo, muitos intelectuais dos séculos XIX e XX fizeram apologia da poligamia e do sexo livre. Conseguiram cumprir a sua parte, mas não admitiram que suas parceiras cumprissem a sua, quer dizer, não conseguiram permanecer fiel à sua imoralidade quando a viram praticada pelo próximo. Que um casamento termine porque um dos parceiros não conseguiu ser fiel, é compreensível, mas porque um deles não conseguiu ser fiel às suas metas imorais, é no mínimo jocoso.

De acordo com esta pesquisa, 75% dos casais modernos não esperam fidelidade por parte do companheiro. Com uma meta dessas, é natural que o número de divórcios acabe ultrapassando o de casamentos.

É triste mas verdadeiro: o homem moderno só não é mais imoral porque o caos chega antes que sua imoralidade se concretize completamente. E não é estranho que vivamos no completo caos. Se ele não viesse, o homem mergulharia de cabeça no Inferno.

***

Chegou a minha vez no Oito Colunas.

segunda-feira, abril 19, 2004

Conceitos estabelecidos

Todo mundo sabe que aqueles que são minorias devem ter mais direitos que os outros, exceto, é claro, quando essa minoria nega que a minoria deva ter mais direitos. Essa, na verdade, é a única que não tem direito nenhum, nem mesmo de expressão. Deu pra entender?

Exemplificarei. Nunca vi garimpeiros, por exemplo, reivindicarem seus direitos de minoria, por isso a morte é um preço justo por terem invadido terras indígenas, que sempre reivindicaram seus direitos de minoria e, por isso, podem matar. Já os fazendeiros não podem matar ninguém do MST, porque, dessa vez a minoria reivindicadora está do lado dos invasores. É justo e necessário que eles invadam, depredem e destruam os bens dos fazendeiros. E estes nada podem fazer porque não são minoria nem sabem reivindicar nada.

Em ordem crescente de produção, as terras podem ser divididas em: 1) As que foram invadidas pelo MST; 2) Reservas indígenas; 3) Fazendas Improdutivas; 4) Fazendas produtivas

Portanto, quando um garimpeiro invade uma reserva indígena está apenas tornando útil uma área inútil, enquanto um Sem-Terra que invade uma fazenda produtiva ou improdutiva está apenas tornando inútil uma área útil.

***

Recente pronunciamento do Papa sobre os pobres:

"Tentados pela busca de conquistas materiais rápidas, com freqüência são levados por caminhos criminosos ou, como se constata freqüentemente em todo o mundo, unem-se a movimentos radicais que prometem mudanças sociais através da violência e do derramamento de sangue"

Ouviu, CNBB?

domingo, abril 18, 2004

O Novo Testamento segundo a CNBB

Há poucos dias, minha esposa comprou um livro do Novo Testamento comentado. Há muito tempo, criamos o hábito de ler a bíblia à noite, seguida de alguns textos de Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e outros autores. A princípio, não me interessei pela origem nem edição do livro, porque continuamos a usar a que já tínhamos, e somente os comentários desta outra edição eram acrescentados à leitura.

Num certo dia, a passagem era sobre o dia em que Jesus lavou os pés de seus discípulos. Há um trecho em que Pedro diz: Tu não vais lavar os meus pés nunca. E o comentário era o seguinte: Pedro resiste, porque ainda acredita que a desigualdade é legítima e necessária. Ora, o que podemos entender dessa interpretação? Que não existe diferença alguma entre Jesus e os apóstolos. E, se for levada mais adiante, que não existe diferença entre Jesus e os outros homens. Depois de explicar à minha esposa que aquilo era um erro grave, apressei-me em procurar o responsável por aquela bobagem. E não poderia ser diferente: era uma edição elaborada e comentada pela CNBB, a mesma que agora passou a achar justa tanto a invasão de terras improdutivas quanto produtivas.

Esse é um dos momentos simbólicos mais significativos do Novo Testamento. Após a fala de Pedro, Jesus responde: Se eu não te lavar, não terás parte comigo. E Pedro replica: Senhor, então podes lavar o meu corpo inteiro. Mas Cristo explica: Quem já tomou banho, só precisa lavar os pés, porque está todo limpo. E nenhum comentário foi feito pela CNBB sobre esta continuação da conversa, justamente onde está o que há de mais importante. A lavagem dos pés simboliza A Graça, que só Jesus pode oferecer aos homens, que serão responsáveis, com a ajuda do Batismo, por lavar o seu corpo, evitando os pecados, mas que nunca poderão ser salvos sem A Graça de Deus.

Há que se reconhecer que pelo menos um trecho do comentário está correto: a autoridade só pode ser entendida como serviço aos outros. Mas fica a pergunta: a quem a CNBB está prestando serviço?

sexta-feira, abril 16, 2004

Querem que eu pare de trabalhar

Mais da metade do que eu recebo por mês, dou ao Estado. Aí abro O Globo e leio que Cristóvam Buarque acha que "democraticamente, é possível fazer com que a sociedade pague para que os pobres produzam e deixem essa condição". Para tanto, basta "tirar democraticamente, e com responsabilidade fiscal, esse dinheiro da sociedade".

Não sei vocês, mas eu não dou mais um centavo a ninguém. Se criarem mais algum imposto, deixo de trabalhar e vou viver de brisa.

Bate-bola com um típico intelectual brasileiro

Fé: ópio, inquisição
Deus: Estado, Marx, Sartre
Grande homem: Che Guevara
Grande brasileiro: Betinho
Sinônimo de bondade: social
Sinônimo de maldade: mercado
Política: instrumento de mudança
Filosofia: revolução
Inteligência: esperteza
Sonho: um mundo perfeito
Literatura: crítica social
Cinema: nacional e europeu
Música: batucada
Livro: O Capital
Revista: Caros Amigos
Frase: um outro mundo é possível
Cor: vermelha
Problema: desigualdade social
Monstro: Bush
Ativista: Stédile
Mensagem: lutem por seus ideais

Sugestões?

quinta-feira, abril 15, 2004

Não deixem de ler

Vocês não esqueceram de ler a segunda e última parte do ensaio de Fabio Ulanin no Oito Colunas, esqueceram? Quem esquecer, vai ficar de castigo.

terça-feira, abril 13, 2004

Revista Época ajuda a difundir a cultura do crime

A revista Época colocou na capa de uma de suas últimas edições uma conclusão falaciosa baseada numa pesquisa mal feita e mal divulgada, usando do mesmo viés ideológico de sempre. Associaram o aumento do desemprego ao aumento da criminalidade e, imediatamente, concluíram que aquele era causa deste.

Para o leitor desavisado, não há como deixar de engolir a lorota. Tudo parece muito explicadinho.

Desde que li a matéria, tive vontade de comentá-la, mas a falta de tempo e meu relativo desconhecimento de estatística me desanimaram. Voltei a pensar no assunto depois de ler este excelente artigo de Alberto Oliva, que ajudou a cobrir meus furos.

A conclusão do artigo é que é impossível, partindo dos dados da pesquisa, inferir que o desemprego é o causador da criminalidade. O professor também prova o quanto a associação de dados foi manipulada para se ajustar às idéias político-econômicas de quem a elaborou.

Primeiramente, é preciso dizer com todas as letras quais são as premissas ideológicas envolvidas:

1) O pobre é bom e o rico é mau
2) O pobre deve desejar ficar rico, de preferência tentando adquirir a riqueza dos ricos
3) Os pobres são mais propensos ao crime
4) O crime dos pobres é perdoado porque a culpa não é deles, é do sistema econômico

Aparentemente há algumas contradições nessas premissas. Por exemplo, se o rico é mau e o pobre é bom, por que então o pobre deve querer a riqueza? Para passar a seu mau também? E se o pobre é bom, por que é mais propenso ao crime que o rico, que é mau? Mas a explicação para tudo isso está na última delas: é o sistema econômico que torna o pobre bom e o rico mau. Ele favorece os ricos e, portanto, ao favorecê-los, torna-os maus. E prejudica os pobres, e por prejudicá-los, torna-os bons. Nenhuma maldade que eles façam será suficiente para se contrapor à maldade do sistema.

A conclusão a que a pesquisa poderia chegar - e que, provavelmente se aproximaria bastante da verdade - é que a relação de causa-conseqüência é inversa, ou seja, é o aumento da criminalidade que gera aumento no desemprego.

A cultura do crime é muito vasta no Brasil, e é exatamente por pensar segundo as premissas listadas acima que o intelectual brasileiro a enriquece cada vez mais. Bandidos são sempre coitados que fazem o possível para matar a fome e enfrentar o sistema opressor. Essa cultura foi e continua sendo enfatizada no cinema, na música, no teatro, na literatura. Exemplos não faltam.

E é essa cultura que gera o desemprego, porque produz insegurança e desconfiança, porque facilita a ligação entre o crime organizado e o poder político, porque destrói a base moral em que se sustenta todo o sistema produtivo do país.

E não é de estranhar que nesse Governo, em que a associação e a proteção ao crime está sendo colocada em prática em escala crescente, o desemprego continue aumentando cada vez mais.

Ao inverter a relação causa-conseqüência, a revista Época apenas cumpre o seu papel de defender e divulgar a cultura do crime, fingindo contribuir para a identificação de suas causas.

segunda-feira, abril 12, 2004

Investindo no futuro

Você é embotado, atravancado das idéias? Teme pelo futuro dos seus filhos caso herdem sua carga genética?

Esqueça, então, as loirinhas. Além da má fama intelectual, elas não contribuiriam em nada para o sucesso da sua prole. Case-se com uma afrodescendente autêntica. Se, ainda assim, eles não conseguirem entrar numa Universidade, pelo menos terão direito a uma foto de grátis.

domingo, abril 11, 2004

Católico

Depois que recebi o sacramento do matrimônio, já pude começar a levar uma vida completamente católica, o que me deixou imensamente feliz, apesar das dificuldades iniciais, devido às enormes mudanças em minha rotina diária.

Na semana santa, por exemplo, tantas foram as minhas ocupações e pensamentos relacionados às coisas do Alto que nem tive tempo para escrever sobre nenhum desses fatos:

- Para diminuir o apoio a Bush, os terroristas voltaram a fazer baderna no Iraque. Eles aprenderam com o atentado na Espanha. Já sabem como manipular a opinião pública.
- Diogo Mainard enfatizou uma das peculiaridades do brasileiros, que acha que todo político é ladrão mas faz questão de entregar suas melhores empresas a eles.
- Muitos colunistas defenderam a não inspeção do programa nuclear brasileiro, justificando que ele é tão bom que outros países querem copiá-lo, por isso insistem em acompanhá-lo de perto. Assim fiquei sabendo que além de inocentes, somos uma potência tecnológica.
- Palocci disse que esquerdismo é bobagem. Logo agora que eu estava levando a coisa a sério...
- A CNBB pediu pressa ao Governo na questão da Reforma Agrária. Pelo visto, foram eles que esqueceram das coisas do Alto.

Mas não esqueci de publicar o excelente ensaio do Fabio Ulanin no Oito Colunas.

quinta-feira, abril 08, 2004

Jacques Maritain para a Semana Santa

Aos espíritos que sentem estar tudo perdido, e que esperam o inesperado, não lhes menosprezarei jamais a angústia nem a espera. Mas o que importa saber é o que em verdade esperam: o Anticristo ou a parusia? Nós outros esperamos a ressurreição dos mortos, e a vida do século vindouro. Sabemos o que esperamos, e que isso ultrapassa qualquer inteligência. Há uma diferença entre não saber o que se espera e saber que o que se espera não pode ser concebido.

"Pagão ainda, Adriano perguntou aos mártires: 'Que recompensa esperais vós?' 'Nossos lábios', respondera, eles, 'não o pode dizer, nem o ouvido o pode perceber.' 'Não haveis, pois, aprendido nada acerca dela? Nem pela lei nem pelos profetas? Nem por nenhuma outra escritura?' 'Os profetas mesmos não a conheceram como seria necessário; pois não eram eles senão homens que adoravam a Deus, e o que tinham recebido pelo Espírito Santo diziam-no em palavras. Mas desta glória está escrito: O olho não viu, o ouvido não ouviu, e ao coração do homem não chegou, o que o Senhor preparou para os que O amam.'

"Ouvindo isto, Adriano saltou para o meio deles, e disse: 'Contai-me entre os que confessam a fé com estes santos, que também eu sou cristão.'"


Uma boa Semana Santa a todos. No Domingo haverá novo artigo no Oito Colunas.

terça-feira, abril 06, 2004

Como viver de saudade

A vida é uma constante saudade da eternidade. Todos os nossos desejos são movidos e orientados por ela. Aquilo que fazemos para alcançar a felicidade são pálidos projetos que nunca atingem seus objetivos, pois são apenas sombras do que representam no mundo etéreo. Mas a forma como vivemos essa saudade nos torna bem diferentes uns dos outros.

Há os que preferem esquecê-la e tentar agir como se seu desejo pudesse ser completamente saciado no presente. Então criam cópias tanto mais pálidas dessas sensações quanto maior a sua crença nessa concretização. Entregam-se aos prazeres mais vis e experimentam todos os tipos como se a quantidade fosse lhes trazer a completude.

Outros se conformam em não saciá-la no presente e até aumentam cada vez mais o tamanho da saudade à medida que vislumbram a eternidade cada vez mais intensamente. A vida é para eles uma preparação para serem dignos de alcançá-la. E essa preparação é vivida saciando os prazeres que mais se assemelham com ela, mas com a consciência de que não passam disso.

Os socialistas exigem que a eternidade desça à terra.

E os ateus que ela se afaste o suficiente para que eles possam esquecê-la.

Tudo muito inconscientemente, claro, porque é mais conveniente.

domingo, abril 04, 2004

Minha deformação

Quando li que o Pedro Sette começou a ler a Suma Teológica aos 12 anos, imediatamente tentei lembrar o que fazia nessa idade. E nada do que lembrei me permitiria escrever algo com o mesmo título, por isso resolvi modificá-lo.

Tive uma educação católica até os nove anos. Aos dez, muito mais cedo que o Janer Cristaldo, já sabia que Deus não existia. Aos doze, passei a integrar uma banda de punk rock intitulada O lisossomo e suas enzimas hidrolizantes. Era a enzima responsável por compor as letras, já que não tocava nenhum instrumento. Ouvíamos Slayer, AC/DC e Iron Maiden. Logo de cara, me pediram para escrever algo provocante, que falasse de morte. Sentei e escapuliu do meu frágil cérebro:

Passar o dia sem notar,
Amanhecer sem perceber,
Adormecer, não sonhar,
Não acordar nem se mexer,
Preso numa caixa
Sem saber por quê.
Pra que viver a vida
E um dia morrer?


Era o refrão. Fez sucesso na escola. Mas só lá, graças a Deus. Apesar de ter escrito aquilo sem nem pensar no que estava fazendo, aos poucos comecei a refletir sobre a letra. A certeza de que Deus não existia, que acompanha o Cristaldo até hoje, tornou-se dúvida e, muito depois, certeza de que ele não poderia deixar de existir. O caminho que percorri não é muito engrandecedor, mas talvez escreva uma breve continuação.

***

Aconselho aos que ainda não tentaram: após acordar de uma bela soneca num domingo à tarde, ouvir o Concerto para Piano 21 em Dó maior de Mozart

sábado, abril 03, 2004

Oito colunas

Amanhã um novo blog estará no ar.

sexta-feira, abril 02, 2004

Pascal: cruel mas verdadeiro

"Somos tão vaidosos que a estima de cinco ou seis pessoas que nos circundam já basta para nos alegrar e deixar contentes. Os próprios filósofos também querem admiradores; e aqueles que escrevem contra a glória querem ter a glória de ter escrito bem; e aqueles que os lêem querem ter a glória de tê-los lidos; e talvez até eu, que escrevo estas coisas, também a queira; e talvez aqueles que me lerem. Em meio às nossas misérias, o orgulho toma naturalmente posse de nós. Estamos até dispostos a perder a vida com alegria, desde que se fale disso."

Por favor, não me deixem ser orgulhoso sozinho. Sejam solidários. Mostrem que sentem orgulho e façam algum comentário.