A Barbárie dos Tempos Modernos

domingo, abril 25, 2004

Arnaldo e Rodolfo

"Se deixou cair, pegue de volta", disse, meio constrangido, ao seu chefe. Há três anos trabalhava naquele escritório e ninguém sequer tinha ouvido a sua voz. De repente, sem querer, soltou aquela frase. Não estava delirando, apenas teve vontade e falou o que lhe veio à cabeça. Todos se entreolharam. O ar deixou de circular, concentrando-se na traquéia de cada um dos funcionários. Houve um intervalo mínimo, para Arnaldo quase duas horas, em que o cenho franzido de seu Rodolfo ocupou todo o espaço. Foi o suficiente para pensar em pedir desculpas ou até quem sabe demissão. Mas enfim a cena se desfez e o ar voltou a circular, tragado pelas narinas do chefe, que, sob a atenta observação de todos, tomava fôlego para responder ao insolente que se recusou a apanhar o copo que havia derrubado no chão.

"Gênio, você é um gênio, rapaz! Onde estava esse tempo todo? Nunca o vi por aqui." Dessa vez foi o chefe que quase ficou sem ar, aspirado pela platéia, que só o expulsou juntamente com um "O quê?" estrondoso, depois que seu Rodolfo prometeu promover o rapaz.

"Se dirigir não beba, se beber não dirija, já ouviu isso, garoto? Eficiente, mas longo, muito longo. A sua frase é melhor e mais útil. Não é a qualquer momento que bebemos, mas quanto tempo conseguimos ficar sem derrubar algo no chão? Vou recuperar meu prestígio. Voltarei a ser o intelectual respeitado de antes. Só precisava de uma frase genial como essa. Talvez até o Nizan me chame para a Africa".

Arnaldo não sabia o que dizer, e terminou sem dizer nada, mas se lamentou profundamente por todo o tempo em que esteve calado.