A Barbárie dos Tempos Modernos

domingo, maio 30, 2004

Psicologia portátil

Comprou uma personal conscience. Estava na promoção, em seis vezes sem juros. A qualidade do produto era enfatizada com letras garrafais dentro de um círculo vermelho no quadrante superior direito da embalagem: elaborada pelos mais reconhecidos psicólogos dos EUA e da Europa. Foi o que faltava para que se convencesse do bom investimento.

Antes das instruções de uso, duas advertências: 1) Manter longe do alcance das crianças; 2) Não colocar objetos em cima - maiores detalhes no item Consciência Pesada. À medida que lia, verificava que sua consciência realmente já não funcionava bem. Resolveu ligar o aparelho. Conectou-o, como indicado, às suas têmporas, utilizando os delgados fios que encontrou na caixa. Pensou: "se puder guardá-lo no bolso e conduzir esses fios por dentro da camisa, meus cabelos servirão de disfarce e poderei levá-lo aonde quiser." Então a personal conscience começou a apitar com intensidade crescente. Incomodado, apertou todos os botões até que aquele ruído parasse. A seguir, uma voz de atendente de telemarketing iniciou um discurso em que explicava que a preocupação com a aparência era um claro sinal de fragilidade emocional e de perda da autoconfiança. Não deu muita atenção às observações. Saiu de casa com ela, tendo antes o cuidado de desligar o sinal sonoro e ligar o vibrador.

O celular tocou antes que se dirigisse ao trabalho. Era a amante. Argumentou que o marido partira em viagem e que estava esperando por ele. Ficou indeciso. O aparelho começou a vibrar. Dessa vez a personal conscience lhe explicou que o homem tinha mesmo que espalhar seus genes e que isso não deveria ser motivo para se sentir culpado. A monogamia era uma bobagem cristã e uma fuga da realidade biológica humana. Ficou feliz. Com um sorriso maroto nos lábios, apertou com mais intensidade os fios sobre a cabeça e se dirigiu à casa de Marina. Encontrou-a ao lado da sua mulher, com quem havia combinado tudo. Quando soube que Carlos tinha outra amante além dela, revoltou-se e resolveu destruir seu casamento. E foi o que aconteceu.

Em casa, triste e sem esperanças, bebia compulsivamente. A máquina voltou a disparar: "ora, há muitas mulheres no mundo, o amor é apenas uma invenção humana. Satisfaça seus impulsos sexuais com qualquer uma. Vamos, levante desse sofá." Ele a jogou no chão e pisou em cima. Mas ela continuava funcionando: "lembre-se das advertências, siga as instruções, violência só gera violência." Ficou furioso. Descolou os fios. Não adiantou. O manual avisava que a personal conscience permanecia avaliando as informações coletadas pelas próximas 24 horas. Foi ao quintal e trouxe um machado. Antes de arrebentá-la, ainda ouviu: "olha os direitos humanos, o preconceito contra as máquinas".

sexta-feira, maio 28, 2004

A gíria do niilismo

Hoje voltei a ouvir uma expressão que não escuto desde os 18 anos. Um sujeito, após pedir ao outro que lhe fizesse um favor, acrescentou: "é nenhuma?". Parece bobagem discorrer sobre esse assunto, e realmente é, mas o farei assim mesmo.

As gírias sempre tiveram algum significado. "Gatinha" lembra uma mulher dengosa, "broto" nos faz pensar numa garota novinha, "botar pra quebrar" dá idéia de agitação, etc, mas que diabos pode significar "é nenhuma?" O pior que há resposta, e é assim: "claro, é nenhuma". Vão dizer que estou forçando, e devo estar mesmo, mas o fato é que nenhuma outra gíria nasceu tão sem significado quanto essa. E nenhuma outra serviu tão bem para representar a época de niilismo em que vivemos. A expressão não tem significado justamente porque simboliza a falta de sentido do mundo moderno. Depois de muito procurar algo que pudesse exprimir com propriedade o vazio interior que domina o seu ser, alguém deve ter colocado isso pra fora, assim, quase espontaneamente, como quem vomita quando está enjoado.

Acho até que era mais honesta do que muitas expressões em voga atualmente. Por exemplo, quando alguém pergunta "e aí, como foi lá?" e o outro responde: "pô, foi super-híper", percebe-se de imediato que é apenas uma forma de tentar explicar que o que aconteceu não passa de um amontoado de sensações prazerosas passageiras sem nenhum conteúdo descritível.

Por favor, peço que não comentem que esse post "é nenhuma".

terça-feira, maio 25, 2004

Fora da realidade

Estive conversando com meu primo. Ele sempre votou no PT. O único livro com mais de 100 páginas que leu até hoje, com exceção de livros técnicos, foi a biografia de Che Guevara. Antes dessa conversa, havia me dito que estava revoltado com o fato de ter que pagar seis mil reais de imposto de renda. Sugeri que, se isso o incomodava, da próxima vez votasse em alguém cuja proposta possibilitasse uma redução dos impostos.

Durante a conversa, voltou a defender o PT e Lula. Lembrei-lhe que eram eles os responsáveis pela alta quantia de impostos que pagava. Não adiantou, estava indignado com o repórter do NYT e defendia o Governo com unhas e dentes.

Percebam a diferença entre o voto de um pobre e o voto de um indivíduo de classe média. O pobre pode até se vender por uma dentadura, mas consegue ligar a teoria aos fatos. Se o sujeito se elege e não manda cobrir os buracos e os esgotos da rua em que ele mora, não vota mais nele. Já a dita classe média letrada não. Imbuída de um falso amor pela humanidade (concebida assim abstratamente), acha que aquilo que lhe prejudica não está diretamente relacionado à atuação daquele que tomou a medida que lhe causou danos. Sem nenhum conhecimento teórico político-econômico nem de história, adere a hipóteses que lhe desligam completamente do mundo real com a mesma facilidade com que um coelho é guiado por uma cenoura.

É mais inteligente e até mais sincero quem troca o voto por um punhado de feijão do que aquele que é lesado e incapaz de perceber quem o lesou.

***

Confira meu novo artigo no Oito Colunas.

segunda-feira, maio 24, 2004

Da série Diálogos

- Finalmente, descobri, descobri! Agora sei por que a amo tanto.
- Sinto lhe informar, mas se você conseguiu encontrar o motivo pelo qual a ama, é porque não a ama.

domingo, maio 23, 2004

Exigências da ultra-direita fascista-capitalista

Olimpíada virou coisa de país rico. Basta dizer que se exigem, previamente, ótimas condições de segurança, de transporte, de hospedagem e de infra-estrutura, o que já elimina as cidades da periferia.

Alguém aí sabe me dizer se Emir Sader toma Melleril?

sexta-feira, maio 21, 2004

Transmitam o HIV, mas não sejam preconceituosos!

A relação sexual via anal propicia um risco de transmissão tanto do HIV quanto do vírus da hepatite e de outros num percentual bem maior que o sexo normal. Um homem só pode se relacionar sexualmente com outro via anal. A relação entre homens e mulheres também pode ser feita por essa via, é verdade, mas a relação via vaginal é mais comum e mais freqüente. Daí se deduz que os homossexuais fazem parte de um dos grupos de maior risco de transmissão do HIV. Tudo que disse até agora é fato, está tudo constatado cientificamente.

Sendo assim, onde está o preconceito em não se aceitar doação se sêmen por parte de homossexuais? É claro que não se deveria aceitar doação de sêmen de ninguém, mas admitindo a situação, por que não preservar as pessoas de um risco desnecessário de serem contaminadas com uma doença letal?

Os negros, por exemplo, têm uma menor chance de desenvolver câncer de pele. Seria preconceito contra os brancos se uma empresa só aceitasse trabalhadores negros para ficarem constantemente expostos ao sol?

Segurança e sensatez

O que mais me impressiona num ateu é a aparente sensatez. "Não há provas de que Deus existe, portanto é mais sensato não acreditar na sua existência", declara com tamanha calma e sobriedade que poderia fazê-lo equilibrando uma folha na ponta do nariz, enquanto observa o trêmulo cristão, que se atormenta tentando se livrar do fogo do inferno. Este, mesmo que tenha as carnes desenvolvidas, parece frágil e desprotegido perante tamanha rigidez e segurança. Chega até a tropeçar na sua fraqueza, caindo de joelhos e olhando fixamente para a figura imponente diante dele, que solta raios da boca quando fala, tão claras e luminosas são as suas palavras.

Mas ainda assim afirma que prefere continuar temendo a Deus, procurando agradá-lo o quanto puder para que seja feita a Sua vontade e não a dele. E o ateu quase sai do solo, tão leve e magnânima é a sua risada.

Depois cada um volta a viver sua vida, e o ateu, já não tendo a quem demonstrar tanta dignidade, perde-a, enquanto cresce dentro de si o temor do desconhecido, mas sem desistir de manter a cabeça erguida e o cérebro intacto, para que, da próxima vez, possa se expressar com a mesma desenvoltura e maestria, ainda que os pesadelos continuem a acompanhá-lo noite adentro, ou que a superficialidade de sua segurança continue permitindo que sua vida conserve o sabor da casca da laranja, sem nunca poder sugar-lhe o suco. Experimentá-lo é muito perigoso. Não há provas de que seja doce.

quarta-feira, maio 19, 2004

Explicando os símbolos e os mitos

"Não começa por haver, primeiro, um movimento na realidade interina e, em segundo lugar, um observador humano, quiçá um filósofo, que registe as suas observações do movimento. A realidade da existência, tal como é experimentada no movimento, é uma participação mútua (methexis, metalepsís) do humano e do divino; e os símbolos linguísticos que exprimem o movimento não são inventados por um observador que não participa no movimento; são gerados no próprio acontecimento da participação. O estatuto ontológico dos símbolos é tanto humano como divino."

"O mito não é uma forma simbólica primitiva, exclusiva das sociedades arcaicas e superado progressivamente pela ciência positiva; é, antes, a linguagem em que se articulam as experiências da participação humano-divina na realidade interina."

Eric Voegelin

terça-feira, maio 18, 2004

Teologia da Libertação Gay

Inacreditável.

segunda-feira, maio 17, 2004

Virtude ? Para que ?

Qual o principal objetivo do Estado hoje ? Fácil : eliminar a virtude pessoal.

Se o sujeito é pobre, não deve arcar com sua pobreza, nem receber os méritos de viver uma vida digna, apesar das carências materiais. Deve se revoltar contra ela, se armar se possível, pois o Estado compreenderá sua revolta e o apoiará.

Se for rico, deverá sentir vergonha de todo o esforço que fez para adquirir seus bens e evitar empregá-los de forma que dê oportunidade a outros de fazer o mesmo. Não deverá aprender a dar valor a sua riqueza nem se fazer digno dela, adquirindo um conhecimento que o permita melhorar espiritualmente. Não, nada disso ! Deverá, isso sim, fazer conchavos com o Estado para que este o proteja e permita que sua riqueza seja mantida sem esforço nem virtude.

sábado, maio 15, 2004

O erro de Schopenhauer

"A intuição não é de ordem puramente sensível, mas intelectual; pode-se dizer, em outras palavras, que ela consiste no conhecimento da causa pelo efeito." O erro de Schopenhauer é achar que a causa é a própria matéria. Se admitisse que a causa é Deus, teria construído uma filosofia e não um emaranhado de contradições.

Quanto mais conhecemos os efeitos, mais conhecemos a Causa. Isso quer dizer que quanto mais entendemos a nós mesmos e o mundo, mais nos aproximamos de Deus. Mas para isso temos que ter a humildade de reconhecer que nem nós nem o mundo somos causa de nada. Quanto mais nos vemos como efeito, mais nos aproximamos da Causa, e quanto mais nos vemos como causa, mais nos afastamos Dela. Por isso que a humildade é fundamental para o conhecimento, pois é ela que permite que os efeitos sejam cada vez mais conhecidos, o que possibilita que nos aproximemos cada vez mais da Causa. Sem humildade, nos afastamos cada vez mais dos efeitos, ou seja, de nós mesmos e do mundo, pois procuramos por algo que não existe, ou seja, pelo efeito como causa.

Quanto mais admitimos o quanto somos pequenos, mais nos tornamos grandes, porque nossa grandeza é grande para o mundo, e nossa pequenez é para Deus.

Marcel de Corte explica melhor:

" Reconhecer-se dependente em face da realidade e do seu Princípio transcendente, confessar ao mesmo implicitamente o laço nupcial que une o ser do homem ao ser universal e à sua Causa, eis a condição essencial imposta ao exercício da inteligência; condição que, através dos mais diversos acontecimentos, sempre ela observou. Mas se no seu ato primeiro, ao invés de voltar-se para a realidade extra-mental, a inteligência se redobra sobre si mesma e aí deita um olhar noturno de comprazimento, por outras palavras, se essa faculdade (conforme a fórmula antiga) se recusa a ser medida pelas coisas para apresentar-se como sua medida, então, tendo repudiado a sua função própria e rejeitado a lei dessa função, o intelecto deixa de conhecer as coisas. Antes do século XVIII, via-se o conhecimento ligado ao poder intelectivo de comunicação, logo de consentimento, de aceitação e de docilidade para com o universo e sua Causa. Depois do século XVIII, o pacto original foi rompido: a inteligência assume o papel de uma soberana que governa, rege, domina e tiraniza a realidade. Do alto de sua transcendência, projeta leis exclusivas sobre o mundo, ordena-o de conformidade com os seus imperativos. A razão considera-se a força criadora que se desenvolve e progride na humanidade, que se desdobra através de todo o universo a fim de dar realidade a esse universo e de converter a humanidade numa "verdadeira" humanidade. A inteligência não mais recebe do real a sua lei, mas impõe suas normas à realidade. "

Para um mundo melhor

O silêncio, ah o silêncio. Se o mundo fosse um pouco mais silencioso, já seria muito melhor.

sexta-feira, maio 14, 2004

Insistindo na Dúvida de Vilém Flusser

"A qualidade vivencial que acompanha a atividade produtiva do chamar é conhecida por "intuição". O intelecto, ao chamar algo, intui esse algo. (...) Ao intuir algo, transformo-o em nome próprio. (...) Os nomes próprios são tirados, nesta atividade intuitiva, do caos do vir-a-ser para serem postos dentro do intelecto. Aquele que tira para propor, aquele que "produz", portanto, é o poietés. A atividade do chamar, atividade que resulta em nomes próprios, é portanto a atividade da intuição poética. A expansão do intelecto é a poesia. O esforço quase extra-lingüístico que o pensar e articular dos nomes próprios exige é o esforço poético.

(...)

O verso vibra. O nome próprio incrustrado dentro do verso como um diamante dentro do minério cintila. Consideremos o verso com que voltou Moisés [do monte Sinai]: "eu sou Jeová, teu Deus". Há uma aura de vibração e luz em redor do nome próprio Jeová. O nome próprio é santo. (...) Todo nome próprio é santo. (...) Os nomes próprios são testemunhos da limitação e da expansibilidade do intelecto, e são, por isso mesmo, santos.

(...)

O processo centrípeto da conversação submete o verso a uma análise crítica, integra o verso ao tecido da língua pela explicitação crítica e, assim, intelectualiza o verso. Converte o verso em prosa; dessacraliza e profana o verso.

(...)

A conversação é o desenvolvimeto das possibilidades envolvidas no verso. A conversação é um processo histórico.(...) O passado é "conversado", o presente é "conversando-se" e o futuro é o "a conversar-se". (...) Deste ângulo, "progresso" e "decadência", "desenvolvimento" e "exaustão", tornam-se sinônimos. Do ponto de vista intelectual, a conversação é um progresso e um desenvolvimento, e do ponto de vista limítrofe da poesia ela é uma decadência e uma exaustão.

(...)

A conversação ocidental não se esgotará por falta de intuição. O perigo de uma estagnação vem de outra direção. (...) A nossa conversação atingiu um estágio em que começa a refluir sobre si mesma. Os conhecimentos articulados voltam a formar tópicos da conversação, voltam a ser a matéria-prima a ser conhecida. [ É o que Vilém Flusser chama de "conversa fiada"].

(...)

A conversa fiada é a profanação da festa do pensamento; na conversa fiada, tudo é profano, portanto nojento."

Sugestão: ler, na seqüência, Aristóteles em Nova Prespectiva (Olavo de Carvalho), A Dúvida (Vilém Flusser) e A Origem da Linguagem (Eugen Rosenstock).

quarta-feira, maio 12, 2004

Um tema a menos

Se você já pensou em escrever um romance em que várias plantas participariam de uma orgia e uma delas ficaria prostrada num canto devido à sua impotência sexual, esqueça: porque já é realidade. Todos aqueles anos em que você imaginou como construir psicologicamente uma planta impotente foram mesmo em vão.

Da série Diálogos

- As drogas alucinógenas ilegais deveriam ser liberadas
- Por que?
- Porque cada um decide o que faz de sua vida.
- Deixe-me ver se entendi. Usando essas drogas, o sujeito passa a não mais saber o que está fazendo de sua vida. Sua tese então é de que ele deve ter o direito de decidir o que faz de sua vida, inclusive decidir que não quer mais decidir o que faz dela. Bastante coerente.

terça-feira, maio 11, 2004

Ainda de Plantão

Uma fonte da reitoria acaba de nos informar que o famoso professor da USP morreu após morder uma maçã envenenada com metafísica. Esperem, essa senhora parece que viu tudo. Como foi, pode nos dizer?

- Foi horrível, horrível. Ele gritava e chamava por alguém de nome estranho. Só sei que começava com ene e vinha um chiado depois. E dizia que ia matar quem lhe enviou um tapete ontológico de presente de aniversário. Antes do suspiro final, agarrado ao meu pescoço, balbuciou: "Você não vai acreditar, era de verdade, era de verdade". O que? "O tapete, o tapete". Mas e a maçã? E ele: "foi só um epifenômeno". Triste, muito triste.


segunda-feira, maio 10, 2004

Plantão O Esquisito Informa

Para o New York Times, a polêmica se vinho combina com lula está resolvida: não combina.

Para Ricardo Gomes, Fernando Henrique não pode ser queimado. Segundo ele, fritura de lula pode ser benéfica. Os liberais já se posicionaram contra.

Essa experiência não foi muito boa do ponto de vista dos brasileiros.

O Oito Colunas já está em sua segunda fase.

domingo, maio 09, 2004

Frei Betto e Emir Sader foram superados

Li mais de uma vez para acreditar. Pensei em fazer cometários, mas achei desnecessário. Quem quer que leia a entrevista concedida por Robert Crumb à Folha perceberá o grau de debilidade mental deste rapaz. Até aí tudo bem, mas quando o jornal coloca a manchete "Bush quer dominar o mundo, diz Robert Crumb", fico extasiado. Que autoridade moral ou intelectual tem essa criatura para julgar Bush? Aí você abre o link e o título é "O mundo segundo Crumb", que é muito mais coerente. Mas a grande maioria só lê a manchete, e para os desavisados, se Robert Crumb (seja lá quem ele for) disse que Bush quer dominar o mundo, não é preciso ler a matéria para saber que é mais uma evidência contra o maior monstro já "criado" pelos EUA.

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Lula estimula difusão da cultura brasileira pela Europa. Não é demais? No mínimo, anacrônico.

sábado, maio 08, 2004

Intensivão de gramática jornalística

Na aula de hoje:

- Somariamente: quando são somados apenas os fatos que interessam à tese do jornalista na elaboração da matéria. Por exemplo: Somariamente, os soldados americanos têm humilhado cruelmente os iraquianos.

- Subtraidamente: quando se subtraem os fatos que contrariam a tese do jornalista. Por exemplo: Subtraidamente, a ditadura militar foi uma vergonha para o Brasil.

- Novilogicamente: conclusão a que se chega usando as premissas originadas das 2 técnicas anteriores. Por exemplo: Somariamente, a esquerda sempre lutou pela democracia. Subtraidamente, a direita sempre lutou pelo totalitarismo. Novilogicamente, todo povo que se preze deve aderir ao regime de esquerda de seu país.

- Novidislogicamente: quando, mesmo partindo das premissas originadas pelas 2 primeiras técnicas, a conclusão transcende o raciocínio lógico. Por exemplo: Novidislogicamente, um país só é verdadeiramente democrático quando apenas a esquerda disputa as eleições.

Exercício do dia: procurar em jornais e revistas frases em que esses termos estão implícitos.

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Só hoje li este artigo de Olavo, que trata do tema do post abaixo. Leiam.

sexta-feira, maio 07, 2004

É preciso evoluir

É engraçado como falam da teoria da evolução como se fosse algo comprovado. Se você chega para um evolucionista e diz que 99,9999999999% das mutações registradas até hoje só resultaram em seres deficientes e que não tiveram a menor chance de perpetuar a sua alteração genética, ele lhe pede para ser paciente, porque tudo ocorreu muito aos pouquinhos.

Qualquer um que tenha bom senso fica meio intrigado com a idéia de que um dia o homem tenha sido algo como uma ameba. Mas aí, novamente, vêm os evolucionistas e explicam que a coisa se deu muito devagarinho. "Você não acredita porque acha incrível as diferenças entre os seres e não entende como podem ter mudado tanto". Não, não é nada disso. A transformação do girino num sapo e da lagarta em borboleta também é impressionante, mas não se dá aos pouquinhos, e eu posso até assistir ao processo se quiser.

O fato é que não existe nenhuma prova da teoria da evolução, ou seja, de que uma espécie tenha se transformado em outra. Uma vez li uma matéria do Dawkins em que ele dizia que nenhuma descoberta dos últimos séculos colocou a teoria em xeque. Ora, vejam só, essa é a primeira teoria da história que não precisa de dados a favor, só precisa não ter dados contra. Não é incrível que um cientista da categoria de um Dawkins pronuncie uma asneira dessa?

Quando leio, por exemplo, que "Homem, rato e frango preservaram trechos de DNA idênticos", pergunto-me se quem elaborou a frase já parou para pensar o que aconteceria se a idéia de que coisas semelhantes derivam umas das outras fosse generalizada. Pensem e me digam se o cosmos não voltaria a ser visto de forma caótica.

quinta-feira, maio 06, 2004

Provavelmente não concluirei o pequeno ensaio iniciado no post abaixo. Perdi o papel onde fiz as anotações e não consigo lembrar da linha de raciocínio que vinha seguindo.

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O Oito Colunas fechou o primeiro ciclo de artigos com a participação de Rodrigo Pedroso. Aos que ainda não deram uma olhadinha no blog, sugiro que o façam. Na minha modesta opinião, o conjunto de textos ficou excelente. No Domingo, iniciaremos o novo ciclo com Diogo Costa.

quarta-feira, maio 05, 2004

A religiosidade como aspecto constitutivo do homem - parte I

Sempre tive a impressão de que uma das características mais negligenciadas no estudo do ser humano é seu aspecto constitutivo. É fácil perceber, por exemplo, que todo homem tem dois braços. Imaginem então se essa característica fosse desprezada e a vida fosse avaliada como se o homem não tivesse os membros superiores. Não seria uma tragédia?

O fato é que existem elementos constitutivos do ser humano que não são tão óbvios sem uma pequena reflexão. Mas sem considerá-los, toda hipótese, teoria e até mesmo ficção criadas a respeito do homem estarão fadadas ao fracasso.

Talvez a característica constitutiva do ser humano mais importante seja a de que ele é um animal religioso. E o modo mais fácil de demonstrar esse fato é provando que a forma religiosa de viver e pensar o mundo esteve presente em todos os homens em todos os tempos, consciente ou inconscientemente.

Estudando a história humana, qualquer um que tenha boa vontade logo perceberá que até mesmo os costumes que hoje já não parecem mais ter ligação com a religião iniciaram-se como ritos religiosos. Um ateu que pensa estar completamente afastado dessa condição às vezes segue na sua rotina diária mais rituais que um verdadeiro religioso.

Toda teoria criada por um ateu contém uma pequena - ainda que imperceptível - dose de religiosidade. Porque, sendo um ser humano, ele não pode abandonar essa característica. Sob esse aspecto, ela é mais constitutiva que os próprios braços, pois estes podem ser arrancados por vontade própria, e ela não.

Isso não impede que um ateu crie uma hipótese com determinado grau de acerto, pois eu posso estudar o sistema venoso, por exemplo, sem considerar o coração, e descrevê-lo corretamente. Os erros só aparecerão quando eu tentar identificar o ponto de saída e chegada dos vasos.

Daqui para diante, há dois caminhos a seguir: aqueles que se convenceram de que a religiosidade é constitutiva do ser humano, devem estar certos de que é melhor começar a seguir alguma religião e tirar proveito dos inúmeros benefícios que ela pode proporcionar. Do contrário, só lhes resta o masoquismo. O outro caminho é continuar duvidando de que a religiosidade seja intrínseca ao ser humano.

Para os que ainda duvidam, posso argumentar o seguinte. É verdade que não vemos Deus, que é difícil provar a sua existência, apesar de achar que é possível. Mas também não vemos o pensamento, e acho até mais difícil provar que o pensamento existe. Descartes começou dizendo penso, logo existo e terminou concluindo Deus quer, por isso penso, logo existo.

Concluirei na segunda parte.

segunda-feira, maio 03, 2004

O eterno país do futuro

Todo país idiota só se preocupa com o futuro. Qualquer um que tenha entrado na era da civilização passa a maior parte do tempo de olho no passado. Não, não adianta me dizer que no Brasil não cansam de falar da ditadura militar, de Getúlio Vargas e da Proclamação da República. Porque não é o passado que está sendo enfocado nesses momentos, mas o futuro. Sim, é o futuro idealizado pelos intelectuais brasileiros que serve de parâmetro para a criação de um passado. E é como obra de ficção que o passado do Brasil sempre esteve até mesmo à frente do futuro. Não sei se é difícil de compreender, mas um passado que está sempre à frente do futuro é aquele que não cansa de já ter acontecido no futuro e está, ao mesmo tempo, sendo sempre reformulado.

Partindo dessa constatação, não é difícil desvendar a etiologia da esquizofrenia dos nossos pensadores e até mesmo de grande parte de nosso povo. Por exemplo, quando um estúpido como Luís Fernando Veríssimo nos garante que a posse de Lula foi um marco na história brasileira e que seu Governo realizará todos os anseios do povo, isso é um futuro que já passou. No momento em que ele disse aquilo, aconteceu, mas aconteceu no futuro, e passou. Assim, ele se sente plenamente realizado por ter contribuído na construção do futuro do país. Quando as coisas começam a ocorrer exatamente ao contrário do que ocorreu no futuro que já passou, passa a ser motivo suficiente para que o ilustríssimo comediante elabore um novo futuro, que voltará a acontecer de forma fugaz - mas concreta, não esqueçam! - num futuro já passado. E então, toda crítica que ele fizer daí por diante não terá mais nenhuma relação com o outro futuro que ele previu, pois ele aconteceu, nós é que não percebemos. Sendo assim, ele não tem a mínima obrigação de entender o passado para tentar prever o futuro, basta ter vontade e querer que o futuro se realiza, e quando o futuro passa e ninguém vê, ele já está muito à frente, falando de outra coisa.

É ou não é fácil ser intelectual no Brasil? Basta não se incomodar de ser esquizofrênico.

domingo, maio 02, 2004

Um caipira na Cidade Grande

O problema começou no avião. Não. Começou quando o vimos. Era menor que um velocípede. Minha esposa bateu pé firme e disse que ali não subia. Quase tremendo de medo, mantive a postura e chacoalhei-a pelo braço, proferindo frases de efeito prático. A aeromoça nos recebeu muito bem, respondendo risonhamente à pergunta de quanto tempo aquela coisa conseguia permanecer no ar. Orações. Para nossa surpresa, um vôo muito tranqüilo.

Chegamos em Campinas. Palestras. Pensei em dizer o que achei delas, mas vai ficar para outra oportunidade. Pareceu-me que seria um pouco repetitivo frisar que um dos professores, após apresentar trabalhos de inúmeros pesquisadores americanos e revelar que sua própria pesquisa só era possível devido ao apoio de uma empresa americana, esculhambou os EUA.

Numa choperia, os entusiasmados oradores nos fizeram conhecer o autor de um livro sobre a Capela Sistina que descobriu - pasmem! - que nada daquilo tem a ver com religião. É tão somente um tratado de anatomia. O livro está sendo lançado esta semana. Ao meu discreto questionamento, responderam que ele teve apoio dos professores de Arte da USP. Acreditem: nem ameacei dar risada. Meu intestino é que não se conteve e entrou em espasmo. Quase o senti gargalhando.

Também resolvi não falar sobre a parte em que tentaram nos convencer de que a seleção natural, sendo um fator de preservação da espécie, é também a responsável (adivinhem?) pela transformação das espécies. E viva a Darwin!

Estava chegando o momento. Sim, o momento tão esperado, de irmos para São Paulo e fazer o que verdadeiramente nos daria prazer: visitar os sebos e as livrarias, encontrar com o Fabio e a Ana. Quanta alegria! Se fazer amigos virtuais é bom, conhecê-los pessoalmente é muito melhor. E ainda tive a sorte de encontrar também com o Rodrigo. Inesquecível. Obrigado a vocês.

sábado, maio 01, 2004

Repostando o cocô de Gilberto Gil

"O cocô é o resultado daquilo que alimenta nosso corpo, nossa mente, nosso espírito. E o que é o espírito ? O espírito é deus. Portanto, o cocô é deus." Silogismo de Gilberto Gil, que, não por acaso, é o atual ministro da cultura.

Este post é de 22 de junho de 2003. Resolvi colocá-lo no ar novamente porque é realmente uma pérola. Estava assistindo a uma entrevista do cantor e anotei imediatamente o que ele havia acabado de dizer. Sei que é difícil de acreditar, mas está nos registros da GNT.

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Estava em São Paulo. Peço desculpas pela falta de posts, tanto aqui quanto no Oito Colunas. O Tiago Sacilotto estreou com o pé direito. Confiram.