A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, maio 28, 2004

A gíria do niilismo

Hoje voltei a ouvir uma expressão que não escuto desde os 18 anos. Um sujeito, após pedir ao outro que lhe fizesse um favor, acrescentou: "é nenhuma?". Parece bobagem discorrer sobre esse assunto, e realmente é, mas o farei assim mesmo.

As gírias sempre tiveram algum significado. "Gatinha" lembra uma mulher dengosa, "broto" nos faz pensar numa garota novinha, "botar pra quebrar" dá idéia de agitação, etc, mas que diabos pode significar "é nenhuma?" O pior que há resposta, e é assim: "claro, é nenhuma". Vão dizer que estou forçando, e devo estar mesmo, mas o fato é que nenhuma outra gíria nasceu tão sem significado quanto essa. E nenhuma outra serviu tão bem para representar a época de niilismo em que vivemos. A expressão não tem significado justamente porque simboliza a falta de sentido do mundo moderno. Depois de muito procurar algo que pudesse exprimir com propriedade o vazio interior que domina o seu ser, alguém deve ter colocado isso pra fora, assim, quase espontaneamente, como quem vomita quando está enjoado.

Acho até que era mais honesta do que muitas expressões em voga atualmente. Por exemplo, quando alguém pergunta "e aí, como foi lá?" e o outro responde: "pô, foi super-híper", percebe-se de imediato que é apenas uma forma de tentar explicar que o que aconteceu não passa de um amontoado de sensações prazerosas passageiras sem nenhum conteúdo descritível.

Por favor, peço que não comentem que esse post "é nenhuma".