A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, maio 14, 2004

Insistindo na Dúvida de Vilém Flusser

"A qualidade vivencial que acompanha a atividade produtiva do chamar é conhecida por "intuição". O intelecto, ao chamar algo, intui esse algo. (...) Ao intuir algo, transformo-o em nome próprio. (...) Os nomes próprios são tirados, nesta atividade intuitiva, do caos do vir-a-ser para serem postos dentro do intelecto. Aquele que tira para propor, aquele que "produz", portanto, é o poietés. A atividade do chamar, atividade que resulta em nomes próprios, é portanto a atividade da intuição poética. A expansão do intelecto é a poesia. O esforço quase extra-lingüístico que o pensar e articular dos nomes próprios exige é o esforço poético.

(...)

O verso vibra. O nome próprio incrustrado dentro do verso como um diamante dentro do minério cintila. Consideremos o verso com que voltou Moisés [do monte Sinai]: "eu sou Jeová, teu Deus". Há uma aura de vibração e luz em redor do nome próprio Jeová. O nome próprio é santo. (...) Todo nome próprio é santo. (...) Os nomes próprios são testemunhos da limitação e da expansibilidade do intelecto, e são, por isso mesmo, santos.

(...)

O processo centrípeto da conversação submete o verso a uma análise crítica, integra o verso ao tecido da língua pela explicitação crítica e, assim, intelectualiza o verso. Converte o verso em prosa; dessacraliza e profana o verso.

(...)

A conversação é o desenvolvimeto das possibilidades envolvidas no verso. A conversação é um processo histórico.(...) O passado é "conversado", o presente é "conversando-se" e o futuro é o "a conversar-se". (...) Deste ângulo, "progresso" e "decadência", "desenvolvimento" e "exaustão", tornam-se sinônimos. Do ponto de vista intelectual, a conversação é um progresso e um desenvolvimento, e do ponto de vista limítrofe da poesia ela é uma decadência e uma exaustão.

(...)

A conversação ocidental não se esgotará por falta de intuição. O perigo de uma estagnação vem de outra direção. (...) A nossa conversação atingiu um estágio em que começa a refluir sobre si mesma. Os conhecimentos articulados voltam a formar tópicos da conversação, voltam a ser a matéria-prima a ser conhecida. [ É o que Vilém Flusser chama de "conversa fiada"].

(...)

A conversa fiada é a profanação da festa do pensamento; na conversa fiada, tudo é profano, portanto nojento."

Sugestão: ler, na seqüência, Aristóteles em Nova Prespectiva (Olavo de Carvalho), A Dúvida (Vilém Flusser) e A Origem da Linguagem (Eugen Rosenstock).