A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, maio 15, 2004

O erro de Schopenhauer

"A intuição não é de ordem puramente sensível, mas intelectual; pode-se dizer, em outras palavras, que ela consiste no conhecimento da causa pelo efeito." O erro de Schopenhauer é achar que a causa é a própria matéria. Se admitisse que a causa é Deus, teria construído uma filosofia e não um emaranhado de contradições.

Quanto mais conhecemos os efeitos, mais conhecemos a Causa. Isso quer dizer que quanto mais entendemos a nós mesmos e o mundo, mais nos aproximamos de Deus. Mas para isso temos que ter a humildade de reconhecer que nem nós nem o mundo somos causa de nada. Quanto mais nos vemos como efeito, mais nos aproximamos da Causa, e quanto mais nos vemos como causa, mais nos afastamos Dela. Por isso que a humildade é fundamental para o conhecimento, pois é ela que permite que os efeitos sejam cada vez mais conhecidos, o que possibilita que nos aproximemos cada vez mais da Causa. Sem humildade, nos afastamos cada vez mais dos efeitos, ou seja, de nós mesmos e do mundo, pois procuramos por algo que não existe, ou seja, pelo efeito como causa.

Quanto mais admitimos o quanto somos pequenos, mais nos tornamos grandes, porque nossa grandeza é grande para o mundo, e nossa pequenez é para Deus.

Marcel de Corte explica melhor:

" Reconhecer-se dependente em face da realidade e do seu Princípio transcendente, confessar ao mesmo implicitamente o laço nupcial que une o ser do homem ao ser universal e à sua Causa, eis a condição essencial imposta ao exercício da inteligência; condição que, através dos mais diversos acontecimentos, sempre ela observou. Mas se no seu ato primeiro, ao invés de voltar-se para a realidade extra-mental, a inteligência se redobra sobre si mesma e aí deita um olhar noturno de comprazimento, por outras palavras, se essa faculdade (conforme a fórmula antiga) se recusa a ser medida pelas coisas para apresentar-se como sua medida, então, tendo repudiado a sua função própria e rejeitado a lei dessa função, o intelecto deixa de conhecer as coisas. Antes do século XVIII, via-se o conhecimento ligado ao poder intelectivo de comunicação, logo de consentimento, de aceitação e de docilidade para com o universo e sua Causa. Depois do século XVIII, o pacto original foi rompido: a inteligência assume o papel de uma soberana que governa, rege, domina e tiraniza a realidade. Do alto de sua transcendência, projeta leis exclusivas sobre o mundo, ordena-o de conformidade com os seus imperativos. A razão considera-se a força criadora que se desenvolve e progride na humanidade, que se desdobra através de todo o universo a fim de dar realidade a esse universo e de converter a humanidade numa "verdadeira" humanidade. A inteligência não mais recebe do real a sua lei, mas impõe suas normas à realidade. "