A Barbárie dos Tempos Modernos

segunda-feira, maio 03, 2004

O eterno país do futuro

Todo país idiota só se preocupa com o futuro. Qualquer um que tenha entrado na era da civilização passa a maior parte do tempo de olho no passado. Não, não adianta me dizer que no Brasil não cansam de falar da ditadura militar, de Getúlio Vargas e da Proclamação da República. Porque não é o passado que está sendo enfocado nesses momentos, mas o futuro. Sim, é o futuro idealizado pelos intelectuais brasileiros que serve de parâmetro para a criação de um passado. E é como obra de ficção que o passado do Brasil sempre esteve até mesmo à frente do futuro. Não sei se é difícil de compreender, mas um passado que está sempre à frente do futuro é aquele que não cansa de já ter acontecido no futuro e está, ao mesmo tempo, sendo sempre reformulado.

Partindo dessa constatação, não é difícil desvendar a etiologia da esquizofrenia dos nossos pensadores e até mesmo de grande parte de nosso povo. Por exemplo, quando um estúpido como Luís Fernando Veríssimo nos garante que a posse de Lula foi um marco na história brasileira e que seu Governo realizará todos os anseios do povo, isso é um futuro que já passou. No momento em que ele disse aquilo, aconteceu, mas aconteceu no futuro, e passou. Assim, ele se sente plenamente realizado por ter contribuído na construção do futuro do país. Quando as coisas começam a ocorrer exatamente ao contrário do que ocorreu no futuro que já passou, passa a ser motivo suficiente para que o ilustríssimo comediante elabore um novo futuro, que voltará a acontecer de forma fugaz - mas concreta, não esqueçam! - num futuro já passado. E então, toda crítica que ele fizer daí por diante não terá mais nenhuma relação com o outro futuro que ele previu, pois ele aconteceu, nós é que não percebemos. Sendo assim, ele não tem a mínima obrigação de entender o passado para tentar prever o futuro, basta ter vontade e querer que o futuro se realiza, e quando o futuro passa e ninguém vê, ele já está muito à frente, falando de outra coisa.

É ou não é fácil ser intelectual no Brasil? Basta não se incomodar de ser esquizofrênico.