A Barbárie dos Tempos Modernos

quarta-feira, maio 05, 2004

A religiosidade como aspecto constitutivo do homem - parte I

Sempre tive a impressão de que uma das características mais negligenciadas no estudo do ser humano é seu aspecto constitutivo. É fácil perceber, por exemplo, que todo homem tem dois braços. Imaginem então se essa característica fosse desprezada e a vida fosse avaliada como se o homem não tivesse os membros superiores. Não seria uma tragédia?

O fato é que existem elementos constitutivos do ser humano que não são tão óbvios sem uma pequena reflexão. Mas sem considerá-los, toda hipótese, teoria e até mesmo ficção criadas a respeito do homem estarão fadadas ao fracasso.

Talvez a característica constitutiva do ser humano mais importante seja a de que ele é um animal religioso. E o modo mais fácil de demonstrar esse fato é provando que a forma religiosa de viver e pensar o mundo esteve presente em todos os homens em todos os tempos, consciente ou inconscientemente.

Estudando a história humana, qualquer um que tenha boa vontade logo perceberá que até mesmo os costumes que hoje já não parecem mais ter ligação com a religião iniciaram-se como ritos religiosos. Um ateu que pensa estar completamente afastado dessa condição às vezes segue na sua rotina diária mais rituais que um verdadeiro religioso.

Toda teoria criada por um ateu contém uma pequena - ainda que imperceptível - dose de religiosidade. Porque, sendo um ser humano, ele não pode abandonar essa característica. Sob esse aspecto, ela é mais constitutiva que os próprios braços, pois estes podem ser arrancados por vontade própria, e ela não.

Isso não impede que um ateu crie uma hipótese com determinado grau de acerto, pois eu posso estudar o sistema venoso, por exemplo, sem considerar o coração, e descrevê-lo corretamente. Os erros só aparecerão quando eu tentar identificar o ponto de saída e chegada dos vasos.

Daqui para diante, há dois caminhos a seguir: aqueles que se convenceram de que a religiosidade é constitutiva do ser humano, devem estar certos de que é melhor começar a seguir alguma religião e tirar proveito dos inúmeros benefícios que ela pode proporcionar. Do contrário, só lhes resta o masoquismo. O outro caminho é continuar duvidando de que a religiosidade seja intrínseca ao ser humano.

Para os que ainda duvidam, posso argumentar o seguinte. É verdade que não vemos Deus, que é difícil provar a sua existência, apesar de achar que é possível. Mas também não vemos o pensamento, e acho até mais difícil provar que o pensamento existe. Descartes começou dizendo penso, logo existo e terminou concluindo Deus quer, por isso penso, logo existo.

Concluirei na segunda parte.