A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, maio 21, 2004

Segurança e sensatez

O que mais me impressiona num ateu é a aparente sensatez. "Não há provas de que Deus existe, portanto é mais sensato não acreditar na sua existência", declara com tamanha calma e sobriedade que poderia fazê-lo equilibrando uma folha na ponta do nariz, enquanto observa o trêmulo cristão, que se atormenta tentando se livrar do fogo do inferno. Este, mesmo que tenha as carnes desenvolvidas, parece frágil e desprotegido perante tamanha rigidez e segurança. Chega até a tropeçar na sua fraqueza, caindo de joelhos e olhando fixamente para a figura imponente diante dele, que solta raios da boca quando fala, tão claras e luminosas são as suas palavras.

Mas ainda assim afirma que prefere continuar temendo a Deus, procurando agradá-lo o quanto puder para que seja feita a Sua vontade e não a dele. E o ateu quase sai do solo, tão leve e magnânima é a sua risada.

Depois cada um volta a viver sua vida, e o ateu, já não tendo a quem demonstrar tanta dignidade, perde-a, enquanto cresce dentro de si o temor do desconhecido, mas sem desistir de manter a cabeça erguida e o cérebro intacto, para que, da próxima vez, possa se expressar com a mesma desenvoltura e maestria, ainda que os pesadelos continuem a acompanhá-lo noite adentro, ou que a superficialidade de sua segurança continue permitindo que sua vida conserve o sabor da casca da laranja, sem nunca poder sugar-lhe o suco. Experimentá-lo é muito perigoso. Não há provas de que seja doce.

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