A Barbárie dos Tempos Modernos

segunda-feira, junho 28, 2004

Uma historinha filosófica

Sócrates estava lá, sentado no cantinho dele, quando, de repente, uma maçã atinge sua cabeça. Não, não é nada disso, essa é uma outra história. Como dizia, Sócrates estava lá sentado, pensando na vida, quando lhe veio a idéia : não seria possível a existência de um conhecimento que tivesse o grau de certeza que nos proporciona a matemática mas que se refira a fatos concretos ? Sim, talvez.

Então saiu feito um maluco a perguntar às pessoas o que seria a justiça, a coragem, a bondade. E lhe davam exemplos de pessoas justas, corajosas, bondosas. Aí ele citava homens que haviam feito algo bem diferente mas que não deixava de qualificá-los de justos, corajosos e bondosos. O que significava que deveria haver algo de comum em ações tão diferentes que nos fazia considerá-los assim. Os amigos e discípulos propunham isso e aquilo e ele ia eliminando as possibilidades que não se encaixavam. Foi isso, em resumo, que fez o incomensurável Sócrates. E o mataram por tal ousadia.

Platão também era um desocupado. Sem ter o que fazer, resolveu seguir Sócrates. E aprofundou a dialética criada pelo professor. Aristóteles foi ainda mais longe, fundando várias ciências. O fato é que todos eles queriam apenas saber mais para poderem ser mais, e ser mais para poderem conhecer mais. E nunca passou disso.

Apesar de todos os desvios, a coisa continuou assim até a Idade Média, quando ser mais tornou-se ser santo. Até então, nenhum filósofo que não se desviou desse caminho se disse sábio. Mas a partir daí, todos se proclamaram sabidos. É isso mesmo : na impossibilidade de se tornarem sábios, os humildes homens modernos se conformaram em ser sabidos.

Muito ocupadinhos, não tiveram tempo de estudar as bobagens que haviam escrito os três ultrapassados velhinhos gregos. Além do mais, o conhecimento que eles estavam adquirindo já era prova suficiente de que tudo que se produziu antes nada significava.

Cada um quis começar do início. Os moderninhos são todos originais. Descartes concluiu que só existiam 2 coisas : o Espírito e a extensão, e garantiu que nada os unia. Então como o Espírito poderia conhecer a extensão ? Foi necessário pedir ajuda a Deus. Depois veio Kant. Este jurou sobre o milho que a inteligência e a moral estavam completamente separadas. Conclusão : um mutilou o homem, o outro mutilou a mente. E jamais pediram perdão a ninguém pelo que fizeram. Ao contrário, houve quem rogasse a eles para perdoarem seus pecados. Sentiam-se mal diante de tamanha revelação. Ora, mas quem não se sente mal quando se deixa mutilar sem sentir dor ?

E Platão comentou com Sócrates, lá de cima : ei, é impressão minha ou esses caras estão separando tudo que a gente conseguiu unir ? E Aristóteles se intrometeu : vocês já ouviram falar em desconstrucionismo ? E um sorriso maroto brotou dos lábios de cada um.

domingo, junho 27, 2004

Então é assim?

Se ser boiola já é oficialmente cultura, ser homem ou mulher é contracultura?

sexta-feira, junho 25, 2004

Por que imitar os gregos

Se hoje ninguém mais recomenda a imitação dos gregos, não é tanto porque os gregos tenham perdido seu valor quanto porque a palavra imitação - exatamente em oposição ao que significava em tempos férteis de criação, e já no mundo antigo, quando a arte, por exemplo, era imitação da natureza -, hoje, com demasiada facilidade, se interpreta como cópia, como reprodução fotográfica. Semelhante imitação, destituída de Espírito, morta, seria o oposto de uma verdadeira imitação dos gregos, visto que provocaria a interrupção daquele movimento que os gregos introduziram na vida espiritual da Europa. [...] Se é para arrastarmos essa tradição cansativamente e a contragosto como um tedioso grilhão, melhor deixá-la ir-se. Mas se a ânsia de nos mostrarmos independentes e originais não for sustentada por uma nova missão divina, corremos o risco de com ela apenas cair na barbárie e na grosseria.

Bruno Snell

***

Peço desculpas ao Adalberto de Queiroz e aos integrantes do Oito Colunas por ter publicado nesta quarta-feira um antigo texto sobre o filme O Senhor dos Anéis. Havia solicitado a todos que dessem preferência aos artigos inéditos e pouco conhecidos. Problemas de ordem prática me impediram de publicar a excelente crônica do Adalberto sobre Gustavo Corção, que estará no ar no próximo domingo. Não havendo outro texto à disposição, acabei publicando a crítica sobre as duas primeiras partes do filme.

quarta-feira, junho 23, 2004

Conclusão final

Não tem jeito, não há outra solução para o caso. Tentei examiná-lo de vários ângulos, mas a conclusão a que cheguei foi sempre a mesma. Qualquer um que tenha lido seriamente e entendido Platão e Aristóteles - não precisa ser cristão, nem mulçumano, nem hinduísta, nem judeu - e que os tenha comparado com os filósofos modernos, está obrigado a inferir que estes são as criaturas mais estúpidas que já viveram na terra. E mais: que teorias como a da evolução e a psicanálise, por exemplo, são duas das maiores imbecilidades que alguém conseguiu elaborar por conta própria. Se não chegar a estas conclusões, que me desculpe, mas, ou estudou pouco ou é muito burrinho.

segunda-feira, junho 21, 2004

A desenvolver

Como gnosticismo secular, o comunismo tem como fim a implantação do paraíso na terra. É certo que a meta não é transcendente, mas se realizaria num futuro distante. Distante o suficiente para tornar o movimento paciente e aglutinador, coisa que falta aos liberais, cujo pragmatismo tem tornado impossível a formação de uma consciência que os una em torno de uma causa comum. Sem uma meta transcendente, o liberalismo está fadado ao fracasso.

Algum avanço

Se há algo que este Governo tem feito melhor que o anterior, sem dúvida é isto: arrecadar imposto.

sábado, junho 19, 2004

Por que não me empolgo com a impopularidade de Lula

A progressiva diminuição da popularidade do Governo Lula e do PT se deve unicamente ao que vou descrever em seguida. O cara votou no barbudo para presidente porque acreditou que ele seria capaz de colocar em prática toda aquela baboseira comunista que eles vêm divulgando há mais de 20 anos. O problema é que ela não pode ser posta em prática. Essa impossibilidade não se deve à falta de vontade dos homens ou à maldade deste ou daquele grupo de pessoas ou países. Nada disso! A impossibilidade se deve unicamente ao seguinte: é uma auto-contradição. Uma analogia servirá para explicar melhor o problema. Digamos que um determinado estado esteja passando por um período de seca. Aí vem um sujeito e diz que a solução é fazer o sol ficar mais quente, porque quanto mais quente é o sol, mais chove. Ora, seria uma maravilha se o sol, ao ficar mais quente, fizesse chover mais. Mas não é assim que ocorre, a realidade se dá de outra forma. Não só é impossível tornar o sol mais quente, como, mesmo que fosse possível, isso não resolveria o problema. Digamos que o sujeito que defendeu essa idéia fosse eleito Governador do estado. Consciente de sua solução fajuta, e desconhecedor de qualquer outra que pudesse realmente resolver a questão, providencia uns caminhões-pipa para amenizar a seca e vai tocando o barco, enquanto não encontra uma maneira eficiente de esquentar o sol. O povo, que o elegeu, passa a ficar irritado porque percebe que ele não consegue esquentar o sol, e pior, nota que todos os esforços nessa direção são inúteis. Então, ao invés de se questionarem se não seria melhor arrumar uma outra solução, tentam encontrar os motivos pelos quais o Governador perdeu a vontade de esquentar o sol depois que se elegeu. E mais: coloca a culpa nos caminhões-pipa, a única coisa realmente sensata de toda a história.

É por isso que não me empolgo nem um pouco com a impopularidade do nosso presidente.

quinta-feira, junho 17, 2004

Filas

Só há uma coisa que eu detesto mais do que banco: fila de banco. Não gosto de nenhum tipo de fila, mas sinto um ódio todo especial por fila de banco. Aliás, duvido da sanidade mental de qualquer um que diga se sentir bem num banco. Um local onde só há gerentes e caixas, todos treinados para superar a chatice inerente às suas pessoas, papéis e mais papéis que nada valem se alguém não der um autógrafo (é verdade que um livro autografado também pode valer mais, mas sem ele não perde o valor), e dinheiro, muito dinheiro. Espere aí, vai dizer que você também detesta dinheiro? Sim, detesto. Gosto das coisas que compro com o dinheiro, mas gostaria muito de não precisar dele. Diria que o dinheiro é um mal necessário. Sim, é isso.

Mas voltando à fila de banco. Não consigo entender como há quem consiga conversar ali. Minha mente não pára de pensar em todas as outras coisas que poderia estar fazendo se não estivesse ali. E passo todo o tempo me torturando com isso. Ora, mas é natural que seja assim. Quem não se tortura com isso é que não é normal. Uma vez tentei ficar prestando atenção em tudo para escrever uma crônica. Não consegui nem por 2 minutos. Logo me peguei imaginando qual seria o próximo livro que compraria para compensar aquele tempo perdido.

E só porque eu detesto fila de banco, cada vez mais me enviam documentos impossíveis de serem pagos pela internet ou no caixa eletrônico. Sinto que estão conspirando contra mim. Daqui a pouco vão criar a fila de banco na internet.

Certa vez, fui a uma congresso em que todas as palestras tinham fila. Comecei a notar que as pessoas começaram a escolher as palestras pelo tamanho da fila. Fiz o mesmo, apenas escolhi as menores.

Na próxima eleição, votarei no candidato que prometer acabar com todas as filas, especialmente as de banco.

terça-feira, junho 15, 2004

Vaticano descobre a pólvora

Aqui.

Adaptando-se

Quando canso da realidade, converso com um brasileiro; quando canso da fantasia, leio um livro.

E foi assim

Combinaram de se encontrar na lua. Nunca mais se viram nem foram felizes.

domingo, junho 13, 2004

Comentários sobre Tróia

Conheci 3 pessoas que adoraram Tróia. Quando questionadas sobre o papel de Brad Pitt no filme, uma delas respondeu que era o de Átila, a outra tinha certeza que era o de Ulisses, e a última, sem muita convicção, apostou em Hércules. Com isso, nem preciso mais ler os comentários de quem não gostou do filme.

sábado, junho 12, 2004

Os motivos da volta à barbárie

Todo o conhecimento alcançado por Sócrates, Platão e Aristóteles foi orientado pela metafísica. O que significa dizer que, se não fosse pela metafísica, eles não se interessariam em adquirir conhecimento. Eles achariam que nem sequer valeria a pena obter conhecimento. Como toda a civilização ocidental é dependente desse conhecimento alcançado pelos 3 grandes filósofos, isso significa que toda a civilização ocidental é dependente do conhecimento metafísico. Que filósofos e cientistas achem possível hoje desprezar o motivo e a meta pela qual a filosofia e a ciência se originaram, é no mínimo estranho. E é claro isso gera um certo desconforto psicológico em quem não admite a existência da metafísica, ainda que seja um desconforto inconsciente.

Só um selvagem ou um sujeito que não vive sob o legado dessa filosofia poderia se sentir à vontade sem acreditar em Deus. Não estou dizendo que um selvagem não deve ou não pode acreditar em Deus, mas que ele não teria motivos para ter um desconforto psicológico por causa disso. Tenho certeza que todos os materialistas modernos têm um enorme remorso inconsciente por serem materialistas. E sei que isto é uma fonte de sofrimento para eles.

Baseando-me nestas considerações, lanço aqui uma outra tese polêmica : o caminho do barbarismo que o homem moderno vem tomando é parte de uma tentativa de se livrar desse remorso, ou seja, ele está tentando desfazer a sua dependência do legado greco-romano e judaico-cristão para poder ser materialista sem sentir remorso. Portanto, a tentativa de revalorizar a arte e a cultura selvagem, e até a de fornecer uma educação aos jovens em que esses elementos tenham tanta importância quanto à da arte e cultura ocidentais, infinitamente superiores, é parte de um movimento inconsciente de se livrar do remorso adquirido por ser materialista, ou seja, por ser um eterno ingrato com a civilização que possibilitou que ele adquirisse tamanho conhecimento do mundo.

Expliquemos melhor : o legado greco-romano é um fato; a metafísica intrínseca a esse legado é um outro fato. Então, o homem ocidental só tem 2 saídas : ou ele nega esse legado - e aí pode ser materialista sem sentir remorso - ou ele o aceita e tem que prosseguir avançando na metafísica e derivando todo seu conhecimento dela. Só que a metafísica exige que o homem se entregue à busca do conhecimento de corpo e alma, ou seja, exige que ele viva esse conhecimento - e não apenas tome nota dele - , o que é impensável para o homem moderno. Daí é possível concluir o grau de preguiça intelectual em que vive o ser humano hoje. Para não ter que se impor essa tarefa, ele prefere negar tudo que originou o seu conhecimento e voltar à barbárie. Não é algo impressionante ?

quarta-feira, junho 09, 2004

Sem acesso à internet

Quero agradecer ao Flamarion por ter atualizado o Oito Colunas. Fiquei sem acesso à internet todos esses dias devido a alguns defeitos em meu computador.

Nesse período, fui entrevistado por uma jornalista, que quis saber como é a experiência de viver como um excluído digital.

Qual a sensação de viver uma semana como um excluído digital?

O que posso dizer é que não é nenhuma sensação.

Mas como foi o processo? O que teve que fazer nesses dias?

Tive que passar todo o tempo lendo. Foi horrível! Falo de leitura mesmo, aquela coisa antiga de abrir livros, passar as páginas, sentir o cheiro do papel , marcar o local onde interrompemos, grifar as melhores passagens, fazer anotações nos cantinhos com uma setinha indicando a direção... Não gosto nem de me lembrar. Senti como se estivesse de volta à Idade Média.

Soube que o senhor sempre foi contra a inclusão digital. Mudou de opinião?

Claro, claro. Não podemos deixar que nossas crianças continuem aprendendo a ler em letrinhas impressas. É inconcebível!

Tenho aqui em minhas mãos um abaixo assinado protestando contra a exclusão digital. O senhor assinaria?

Claro que sim. Dê-me aqui. (...) Espere aí. Isso aí é de papel!?

Mas... qual o problema?

Retire-se, por favor, está encerrada a entrevista. A senhora não entendeu nada.

sexta-feira, junho 04, 2004

Os malandros de Chico Buarque

Com exceção do César Miranda, que prefere o Elomar, a grande maioria concorda que Chico Buarque é o maior compositor popular do Brasil. Logo ele, que retratou o malandro e o traficante como homens de bem. Que diferenciou a malandragem do morro da dos políticos, e que sempre defendeu as cores vermelhas. Nunca percebeu que os malandros dos morros aprenderam muito com seus ídolos da política, que foram eles que os ajudaram nas eleições, e que até hoje vivem em simbiose. Não enxergou que o malandro-mor finalmente chegou ao poder, e jamais vai admitir que suas músicas contribuíram, e muito, com a criação desse estereótipo, para a destruição do Brasil.

Mas, ainda assim, continua sendo nosso maior compositor popular.

Comida à quilo

Sinto como se me furassem a carne. Sério. Uma crase a menos não me causa dor, mas uma crase a mais... Poderia ser aplicada aquela nova lei do impedimento no futebol: em caso de dúvida, é melhor não marcar. E também poderia ser decretado que é proibido aos que não sabem usar a crase tecer comentários sobre qualquer tema de (ir)relevância social.

Que tipo de célula é você?

Não se deve esquecer jamais que a sociedade ocidental não é inteiramente moderna, e sim que a modernidade é um tumor dentro dela, em oposição à tradição clássica e cristã.

Eric Voegelin

terça-feira, junho 01, 2004

A Ilusão Ideológica

Depois de ler o mais recente artigo de Rodrigo Pedroso no Oito Colunas, resolvi republicar esse post. Tem tudo a ver.

Kenneth Minogue, em "Política, Uma Brevíssima Introdução" da Editora Jorge Zahar :

Os comunistas e outros ideólogos que atuam nos Estados democráticos liberais têm que apresentar suas crenças como se fossem apenas opções políticas a apoiar com razões gerais e defensáveis, pois o puro dogmatismo ideológico parece absurdo, exceto na conversa entre camaradas de fé. Por outro lado, o entusiasmo pode contaminar qualquer doutrina política com a crença de que somente os seus princípios podem salvar o mundo do mal. Os libertários que acreditam que os problemas políticos são causados apenas por governos que interferem nas relações contratuais dos indivíduos estão passando de uma lógica retórica para a ideológica. "Democracia", às vezes, é o lema daqueles que acham que todos os problemas políticos poderiam ser resolvidos se nós virássemos uma verdadeira democracia. Pode-se dizer que a ilusão essencial da ideologia é que seja possível uma estrutura social cuja consecução permitiria a agentes racionais criar um mundo feliz.

A magia da ciência

Vocês já repararam como é engraçado quando um cientista moderno cita Platão, Aristóteles ou algum outro filósofo grego em seus textos? É mais ou menos assim:

Hoje estamos mergulhando no estudo da subpartícula. Cada vez mais nos aprofundamos no conhecimento do átomo. Blá-blá-blá-blá-blá-blá. Falando nisso, Platão já havia tocado nesse assunto, mas ele jamais poderia imaginar que aquilo teria a ver com isso.

Ora, Platão ficaria extremamente triste se soubesse que sua filosofia se degenerou num cientificismo estúpido. Daria a vida para que tudo fosse refeito e tomasse um outro rumo. E esses caras ficam tratando Platão como um pobre coitado que não teve a chance de conhecer as maravilhas do mundo moderno. Garanto que ele não faria a menor questão.

O pior é que não percebem que os gregos sim é que faziam ciência. O que se faz hoje em dia ficaria melhor se rotulássemos de feitiçaria.