A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, julho 23, 2004

O Amor e o Egoísmo

Leiam com atenção, principalmente as passagens grifadas, e parem um pouco para refletir. Neste trecho do livro A Verdade do Amor, Vladimir Soloviev faz uma precisa refutação do iluminismo e expõe as premissas necessárias para quem deseja rebater as falsas deduções tanto de socialistas quanto de alguns liberais.

"Todos os homens são capazes de conhecer e realizar a verdade, cada qual pode vir a ser um reflexo do conjunto integral absoluto, um órgão consciente, independente, autônomo da vida universal. O resto da natureza também possui a verdade (ou a imagem de Deus), mas imanente na generalidade objetiva, porque permanece ignorada dos entes particulares. É esta verdade que os forma, que actua dentro deles, através deles, como uma força fatal, como alei da sua existência, lei que eles desconhecem, lei a que se submetem involuntariamente. Eles não podem, no seu sentimento e na sua consciência interna, erguer-se para além da existência limitada. [...] Dá-se o contrário com a personalidade humana. Esta compreende dentro de si a verdade e não pode ser suprimida por ela; afirma-se, conserva-se e aperfeiçoa-se exatamente quando triunfa a verdade.

O homem começa por se encontrar a si próprio tal como uma partícula isolada do conjunto integral universal; depois, no seu egoísmo, afirma esta existência própria particular, como se para ele fosse inteira e integral, como se ele conseguisse formar-se um todo em si próprio ao isolar-se de tudo, colocando-se, portanto, fora da verdade. O egoísmo, princípio real, fundamental, da vida individual, penetra-a, dirige-a, inteiramente, e determina tudo concretamente. É por esta razão que a consciência teórica da verdade não pode esmagá-lo, nem suprimi-lo. Enquanto a viva força do egoísmo não encontrar no homem outra força viva, oposta à primeira, a consciência da verdade não constituirá mais do que uma iluminação exterior, reflexo de uma luz estrangeira. Se o homem só compreendesse a verdade pela cultura, o vínculo entre a sua individualidade e a verdade não seria interior e indissolúvel; e se o próprio ser ficasse, como o animal, fora da verdade, seria, como este, condenado à ruína, não se conservando mais do que como uma idéia no pensamento do Espírito absoluto.

A verdade que, como uma força viva, se apodera do ser interior da pessoa, e depois a liberta da falsa afirmação de si própria, tem o nome de amor. O amor, entendido como efectiva abolição do egoísmo, constitui a verdadeira justificação da individualidade, a sua salvação real. [É assim que] longe de perder o seu ser individual, encontra-o e torna-o eterno.

A falsidade e o mal do egoísmo não constituem de modo algum no fato de uma pessoa atribuir a si próprio uma importância absoluta e uma dignidade infinita; ao proceder assim, procede ela com razão, porque cada ser humano, sendo um centro independente de forças vivas, capaz de realizar uma perfeição infinita, como ser que pode conter a verdade absoluta na sua consciência e na sua vida, possui por esta qualidade uma importância e uma dignidade absolutas, apresenta algo de absolutamente insubstituível, cujo valor nem sequer pode ser apreciado. [...] A mentira fundamental e o mal do egoísmo consistem na injusta recusa de cada homem de reconhecer aos outros a mesma importância absoluta. "