A Barbárie dos Tempos Modernos

quinta-feira, setembro 30, 2004

Quanto há de maldade na ignorância e de ignorância na maldade? Aqui.

quarta-feira, setembro 29, 2004

Não há mais dúvida: A Paixão de Cristo é um ótimo filme

Se você ainda tinha alguma dúvida se A Paixão de Cristo de Mel Gibson é ou não um bom filme, não a carregue mais consigo: Rubens Ewald Filho detestou o filme, o que nos dá a garantia de que ele é ótimo, ainda mais se lermos sua crítica e soubermos por que ele não gostou.

Ele diz que Mel Gibson não é um bom diretor mas sim um bom marqueteiro, e logo adiante afirma que o filme só fez sucesso porque foi ameaçado de ser censurado, admitindo que o marketing não foi de Gibson mas de seus detratores. Bastante coerente esse Rubens, não?

terça-feira, setembro 28, 2004

Um poema de Anthero de Quental

À VIRGEM SANTÍSSIMA

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia

Num sono todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza.

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade,
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza.

Um místico sofrer, uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira.

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

***

Saiba mais sobre Anthero de Quental aqui.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Regras práticas para o brasileiro acertar sempre

1) Se algo é óbvio e todo mundo defende em público, deve estar errado;
2) Se algo é óbvio e todo mundo nega em público, deve estar certo;
3) Se algo não é óbvio e todo mundo defende em segredo, deve estar certo;
4) Se algo não é óbvio e todo mundo nega em segredo, deve estar errado.

Exemplo 1: É preciso diminuir a desigualdade social.
Exemplo 2: O homossexualismo é um distúrbio sexual.
Exemplo 3: Terapia é coisa de maluco. Outro: Lula bebe demais.
Exemplo 4: É agradável ler "A Nervura do Real", de Chauí.

Da série: Alguém já disse isso?

Quando o ideal não é possível, o possível deve ser o ideal.

A vida como ela é

Quem for doido de ir, ganhará prêmio à altura.

domingo, setembro 26, 2004

Notícias assim me deixam triste, realmente triste. Quando é a CNBB, tudo bem. Mas quando é o Papa, nada me consola.

***

Não deixem de ler a belíssima crônica do Adalberto no Oito Colunas.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Títulos enganosos

É engraçado como os títulos de determinados livros de filosofia e religião se parecem com os de auto-ajuda. Fico imaginando como se sentiria um desses sujeitos que andam em busca de lições práticas para "aumentar sua felicidade e ter sucesso na vida" se, por engano, comprasse Corpo, Alma e Saúde de Giovanni Reale ou A Alquimia da Felicidade Perfeita de Ibn Arabi.

Qual seria sua reação ao ler, logo no início do primeiro livro : " Pode-se dizer, então, que o homem se representou como corpo só depois de ter se representado como alma. E ainda hoje, falar de corpo em sentido filosófico só é possível referindo-se, seja de modo positivo, seja negativo, ao conceito de psyche." ? Será que ele iria adiante ? E se encontrasse isso aqui, que é o que se pode ler no segundo livro : " Se lustras minuciosamente o espelho da tua alma com as práticas espirituais até ela ficar pura e até ficar livre da ferrugem da natureza, para poder acolher no espelho de tua essência as formas do mundo, aí sim ! Tudo o que o mundo encerra virá gravar-se nela. " ?

Será que ficaria curioso e tentaria se aprofundar nestes ensinamentos ou se abraçaria a um livro de Paulo Coelho e Lair Ribeiro como um filho que grita pela mãe num momento de perigo ?

quarta-feira, setembro 22, 2004

Gemidos de um radialista

Aqui em Salvador há um radialista muito conhecido, com fama de intelectual, chamado Mário Kertz. Não preciso dizer que é de esquerda, porque seria pleonasmo, já que é intelectual e famoso. Defendeu a candidatura de Lula com unhas e dentes, mas hoje todo o seu programa é voltado contra o Governo. Algumas pessoas perceberam essa discreta incoerência, esse pequeno deslize, essa mínima contradição e começaram a ligar e a criticar a sua postura. O ponto principal é que ele está contra o presidente mas a favor de todos os erros de sempre, e se dessem ouvidos às suas críticas o país ficaria ainda pior.

O interessante é que, para se defender das críticas, anda dizendo que todo homem tem o direito de mudar de opinião, principalmente quando não está preso a nenhuma ideologia, e que ele pode muito bem desdizer amanhã o que disse hoje, pois não vê nenhum problema nisso. Acha até sinal de amadurecimento e inteligência. Agora, observemos qual a sua principal crítica ao Governo: o fato de ter mudado de opinião.

Conversando com alguns amigos, deram risada quando salientei que o brasileiro não possui hoje os recursos lingüísticos necessários para se expressar, não apenas porque as palavras já não se referem a fatos reais como porque se acostumou a se contradizer automaticamente sem perceber a contradição. Fiz uma comparação com um sujeito numa sala escura que é agredido sem saber quem e como estão lhe agredindo. Ele só pode gemer e gritar, mas não pode se expressar. Se acendessem a luz e ele pudesse ver que estão lhe chutando, poderia ao menos dizer: "parem de me chutar". Já seria um começo. Mas o brasileiro só geme e grita.

terça-feira, setembro 21, 2004

Como o liberalismo chegou ao Brasil

Aconteceu no ano de 2010. Diziam que ele já havia sido um liberal. Que já tinha tido um blog onde apoiava os republicanos e tudo mais. Mas ele negava. Fazia curso de hipnose desde a adolescência e gostava de brincar com as pessoas, dizendo que havia hipnotizado seus eleitores.

O fato é que sua carreira dentro do PT foi meteórica. Não teve adversários à altura durante a campanha e foi eleito presidente com mais de 95% dos votos válidos. Assim que assumiu o cargo, convocou a imprensa e fez um pronunciamento, assegurando-se antes que toda a nação o assistiria naquele instante. E a audiência foi de 100%. Só então colocou o que aprendeu no seu curso em prática: hipnotizou toda a população, extirpando dos seus cérebros a palavra social. As três principais conseqüências foram: a primeira, um aumento considerável nas taxas de suicídio, principalmente entre universitários; a segunda: pela primeira vez uma política econômica verdadeiramente liberal foi posta em prática naquele país; finalmente a terceira: os inconformados não conseguiam se manifestar contra ela.

domingo, setembro 19, 2004

A fé cientificista

O que mais me deixa abismado nos cientificistas é a capacidade que possuem de defender as teses mais esdrúxulas com a cara-de-pau mais lisa do mundo. Com o único objetivo de jamais aceitarem dogmas religiosos, elaboram hipóteses cuja exigência de fé necessária para que nelas se acredite é imensamente maior que a exigida por qualquer religião.

Certa vez assisti a uma palestra do Sr. Elsimar Coutinho em que ele defendia a teoria de que a Santa Maria, mãe de Deus, teria se mantido virgem por ter gerado seu Filho através do mecanismo da partenogênese, que consiste na divisão espontânea do óvulo, sem a necessidade da fecundação por um gameta. Seria este, é óbvio, o único caso registrado entre os da espécie humana.

Agora, responda-me sinceramente, caro leitor, é ou não é mais fácil e mais inteligente acreditar que Jesus Cristo foi concebido pelo Espírito Santo?

Nova literatura da América Latina

Dom Quixote de Castro.

sábado, setembro 18, 2004

Apologia da juventude

Há um ano construíram uma escola quase ao lado do prédio onde moro. Tenho alguma dificuldade em encontrar as palavras certas para expressar o quanto este fato me agradou. Jovens são mesmo coisinhas fofas. Neste momento, por exemplo, estão reunidos no pátio do colégio grunhindo algo que às vezes se assemelha bastante a uma canção. Em virtude da imensa generosidade que lhes preenche o ser, fazem questão de compartilhar essas experiências viscerais com todos ao redor, produzindo alguns efeitos interessantes. A alvenaria do prédio, por exemplo, reagiu poeticamente, delineando figuras bastante curiosas na sua superfície. Num momento de maior empolgação, em que o sujeito responsável pelos berros da banda exagerou na sua performance, tive a nítida sensação de ter visto se formar na parede do meu quarto a imagem de Bach vomitando. Mas foi só uma impressão passageira. Olhando mais de perto vi que, na verdade, era Mozart tendo uma convulsão.

Num dos pequenos intervalos entre as músicas, uma gota que despencou do teto deu-me a sensação de suor frio. E a fresta de onde caiu esboçava um sorriso amarelo. Não acredito na religiosidade dos seres inorgânicos, mas juro que a posição das almofadas, juntamente com o contorno do sofá, formou uma imagem de súplica aos céus. E a fusão dos sons emitidos pela geladeira, pelo fogão e pelo liquidificador, que nunca me chamaram a atenção, compunham uma ladainha.

Pensei em acenar para eles, agradecendo a iniciativa, mas receei que pudessem ficar assustados ao me verem com a cabeça enfaixada com metros de gaze e chumaços de algodão.

Mas o que mais admiro num jovem é a expressão facial. Como são lindos aqueles traços inocentes, sem as manchas e distorções típicas de quem leu Machado de Assis ou Dostoiévski. Ou ainda aquelas expressões fortes, que denotam a coragem de quem morreria por Che Guevara ou para salvar os excluídos. Nada se compara, entretanto, à beleza da união entre eles. A total ausência de egoísmo e o senso de democracia, por exemplo, não lhes permitem defender uma única idéia sem que pelo menos o resto da turma também concorde. Quanta coragem!

Esperem, estou ouvindo os últimos brados: ?...o futuro da nação?. Sim, o futuro da nação...

quarta-feira, setembro 15, 2004

As fases de um esquerdista

É importante que se diga, antes da descrição, que a maioria não passa da fase 2, infelizmente.

Fase 1 : o esquerdista tem certeza absoluta de que o mundo poderia ser perfeito e que só não é porque existem pessoas muito malvadas que passam a noite em claro planejando como impedir que os sonhos deles se concretizem. Nesta fase, eles não conseguem compor uma frase racional, apenas emitem palavras que expressam o ódio que sentem pelos que não partilham de suas crenças. Por exemplo : fascista ! nazista ! analfabeto ! racista ! Nenhuma dessas palavras significam o que todos entendem por elas, querem dizer apenas "eu tenho ódio de você" ou então "eu vou te matar".

Fase 2 : o esquerdista começa a perceber que não é tão fácil tornar o mundo perfeito e passa a ceder um pouco à realidade, adaptando-se, de alguma forma, a algumas coisas que antes considerava inaceitáveis. Nesta fase, eles já emitem frases racionais, mas que só fazem sentido dentro da sua própria lógica, que, a depender do lugar onde viva, pode até já estar se tornando a lógica de todos. Fascista, por exemplo, é uma pessoa que defende a iniciativa privada; analfabeto é quem não leu a Cartilha do Partido; racista é quem acha que os negros podem crescer na vida sem ajuda do Estado.

Fase 3 : o esquedista percebe várias contradições entre suas idéias e os fatos reais. Cria-se um enorme conflito em sua consciência. Essa fase é transitória. Daí em diante, ou ele volta à fase 2 ou passa à fase 4.

Fase 4 : é a fase 1 do ex-esquerdista. O sujeito fica assombrado com a realidade e, muitas vezes, preferiria passar um ano na lua a ter que ouvir as barbaridades que são publicadas em jornais e revistas e comunicadas pelos jornais televisivos.

Fase 5 : é a fase do ex-esquerdista amadurecido. Ele começa a entender como as coisas estão evoluindo. Pode achar melhor denunciá-las ou apenas calar-se e dedicar-se a algum estudo mais prazeroso.

Alguém já disse isso?

A única atitude coerente a um ateu é o suicídio.

terça-feira, setembro 14, 2004

A vida segundo Mário Ferreira dos Santos

"A origem da minha vida, com este corpo, posso localizá-la historicamente em seu gestar, mas a minha vida, enquanto vida, não começou aí. Ela vem desse eterno continuum, que é a vida, que não surge por geração espontânea, pois viria do nada. Portanto, o corpo é apenas um recebedor da vida, pois o que compõe este corpo é o que vem deste mundo, e ele é histórico. O que o compõe, eu o assimilei do mundo exterior, ao fazê-lo tomou a forma deste corpo, mas o que assimilei não era minha vida, mas tornou-se para mim, tornou-se minha. Meu corpo começa e acaba, mas a vida que existe em mim não começa em mim, ela continua em mim.

A vida é vida, pois se fosse um ser em outro, um não existente de per si, ela não se transmitiria sem deixar de ser ela.

O corpo vivo não é vida mas vivo. Ele tem vida mas não é ela. Perdendo-a, entra em decomposição. A morte não é a excludência, a negação da vida, mas sim do ser vivo. Quem morre não é a vida, é o ser que tinha vida e deixou de tê-la."

A liberdade e a necessidade segundo Mário Ferreira dos Santos

"Quando o homem conheceu a necessidade, conheceu contemporaneamente a liberdade. Quando sentiu a necessidade, captou a liberdade como possibilidade; pois ao ter consciência de sua necessidade, quis libertar-se de suas condições. Sem necessidade, não conheceria a liberdade, eis o aspecto dialético. O fator econômico, como necessidade, unilateral e formalmente considerado, seria mera abstração, porque não levaria à ação progressiva se não conhecesse o homem a possibilidade de superar-se, de libertar-se desta ou daquela necessidade que ele objetiva, ou de poder reduzir a sua ditadura.

A personalidade afirma-se na singularidade, e nesta a necessidade de liberdade. Só podem desabrochar, crescer personalidades, e portanto singularidades, onde houver liberdade. Disso sabem todos os opressores.

E poderíamos até afirmar que liberdade é poder opor à necessidade outra necessidade."

segunda-feira, setembro 13, 2004

Dúvida psicológica

A família de minha esposa sempre votou no PT, inclusive ela. Na próxima eleição, vai votar no PFL. E foi isso que ela respondeu a um de seus parentes quando questionada sobre o assunto. Após ouvir a resposta, ele comentou: "Os candidatos de esquerda deveriam estar unidos já no primeiro turno, assim teriam mais chance. Não é, não?"

O que estou querendo enfatizar é o seguinte: ele continuou conversando como se ela tivesse dito que votaria no PT. Eu estava presente. Ele não levou na brincadeira. Não, nada disso. E ouviu muito bem o que ela disse. Mas não percebeu. Reagiu mais ou menos como o marido que chega em casa e vê a mulher com outro na cama e pergunta a ela como passou o dia e coisas assim. Ele viu mas não reagiu como se tivesse visto. No caso, o parente ouviu mas reagiu como se não tivesse ouvido. Tudo muito naturalmente.

Déficit de atenção ou esquizofrenia?

domingo, setembro 12, 2004

O cinema brasileiro em discussão

Qual o pior tipo de pornochanchada, a que se fazia na década de setenta ou a atual?

sexta-feira, setembro 10, 2004

Dogville e o Bode Expiatório

Nada sei sobre o que inspirou o diretor de Dogville a montar o filme. Analiso-o aqui sob a ótica do Bode Expiatório, de René Girard. Segundo ele, o mito da vítima perseguida, morta e posteriormente sacralizada foi sendo cada vez mais camuflado, principalmente na tentativa de esconder a inocência da vítima e de não revelar a atitude gratuita dos perseguidores, que buscavam descarregar sobre ela a violência social - proveniente da violência interior de cada membro -, quando esta já ameaçava destruir a própria sociedade.

No filme, uma linda mulher (de acordo com Girard, a beleza excessiva é um caráter da vítima preferencial) chega a uma pacata cidade, onde a vida corre tranqüilamente, aparentemente perseguida pela polícia. Os moradores, após uma reunião, decidem acolhê-la e protegê-la. Mas estabelecem a condição de que ela terá que dar alguma contribuição, apesar de reconhecerem que todas as tarefas que ela executará são desnecessárias. Antes da sua chegada, aparentemente ninguém era mau. Agora, todos os habitantes começam a demonstrar a maldade existente dentro deles e a agirem com crueldade com ela.

O interessante é que nada acontecia naquele lugar antes do seu aparecimento É como se a vida não fizesse o menor sentido. O que o filme parece demonstrar é que a vítima consegue fazer as pessoas perceberem que a vida não é apenas aquilo, que ela pode ter sentido. Mas o que parece é que, depois de tanto tempo de estagnação, não há nada que eles possam expressar além da imensa carga de tédio que se encontrava reprimida. E o fazem através da violência contra a sua vítima, que, até boa parte do drama, concorda docilmente em ser violentada, inclusive sexualmente.

Depois se descobre que a vítima, na verdade, fugia de seu próprio pai, por não concordar com as atrocidades que ele vinha cometendo em outro lugar. Sendo um homem poderoso, dá-lhe a opção de destruir o local, ao que ela se recusa inicialmente, mas depois acaba aceitando.

Como se pode ver, há gritantes diferenças entre a teoria do Bode Expiatório e o filme. Escrevi esse texto apenas para que, caso alguém se interesse, avalie se estou certo em afirmar que o filme inverte a concepção de Girard mas sem fugir dela em seu aspecto mais amplo. A vítima, por exemplo, não chega a ser sacrificada, mas ao contrário, mata os perseguidores. A violência não se inicia antes da vítima ser escolhida, mas depois. É como se o autor não mais quisesse apenas camuflar a violência gratuita dos perseguidores - como o fazem os mitos -, mas realmente justificá-la, tanto a priori, no caso da incitação da violência pela vítima, quanto a posteriori, quando ela demonstra que nunca os perdoaria.

Essa justificativa a posteriori chega a ser algo diabólico se pensarmos no que podem comentar os espectadores após a cena final:

- Isso! Era isso mesmo que ela tinha que fazer!
- Que maldade sua. Todo mundo merece uma segunda chance.

Não sei se me entenderam.

A solução cristã para a camuflação da violência nos mitos é a revelação dessa violência e a demonstração cabal da inocência da vítima, que é verdadeiramente sagrada porque veio para redimir os homens e salvá-los. A solução do filme é a justificação dessa violência, porque a vítima é má e o resultado final é a morte. Se é para morrer no fim, é melhor liberar seus instintos malévolos. O cristianismo prega a salvação e a busca da eternidade, o filme prega a danação e a morte.

Às vezes as diferenças entre concepções cristãs e diabólicas são sutis e muitos acabam percebendo metafísica cristã onde só há loucura satânica. Acho que foi o que ocorreu com Matrix.

quarta-feira, setembro 08, 2004

A Felicidade Não se Compra quando o dinheiro cai do céu

Em seu último post, Ruy Maia comentou o filme A felicidade não se compra, de Frank Capra. Segundo ele, a obra "traz em seu núcleo uma fundamental mensagem, que é o papel insubstituível de qualquer pessoa , por mais insignificante que ela nos pareça."

De certa forma, não deixa de ser verdade. Ao personagem principal, cujas atitudes são insubstituíveis, é dada a oportunidade de viver num mundo em que ele nunca existiu. E é aqui que a tal mensagem aparece. Ele percebe o quão caótica e decadente ficaria a sua cidade sem a sua presença, sem a sua bondade.

Mas analisemos em que consiste a insubstituível bondade do personagem. Ele é um empresário que nunca teve dom para os negócios, mas que, de repente, tem quase a obrigação de conduzir a empresa do seu recém-falecido pai. Seu sonho era outro, mas tem que abdicar dele para se empenhar nessa tarefa.

Apesar de ser um péssimo empresário, é um sujeito muito bonzinho e dedica toda a sua atenção aos funcionários. A firma vive devendo, nunca dá lucro e, ainda assim, ele consegue ajudar a todos os que trabalham para ele e alguns outros mais. Trata-se de um caso raro de "dinheiro que brota do céu". Tem um inimigo, também empresário, concorrente indireto, que só pensa no lucro e trata muito mal não apenas a seus empregados, mas qualquer ser humano. Suas empresas estão sempre dando lucro, mas, apesar disso, seus empregados vivem na miséria. Se Marx vivesse nesse filme, não precisaria falsificar os dados oficiais para que confirmassem a sua tese de que a industrialização piorou a vida dos trabalhadores.

Um anjo desce do céu e faz ele ver como ficaria a cidade sem ele: miséria total. Ou seja, sua inabilidade com os negócios não apenas faria falta como levaria a cidade à ruína, e tudo porque ele era bonzinho e nunca pensava em dinheiro mas apenas em ajudar os outros. Mas quem precisa pensar em dinheiro quando ele cai do céu?

O Ruy Maia se queixa daqueles que acham o filme ingênuo, mas é o mínimo que se pode dizer dele. Há muitas outras formas inteligentes de se enaltecer o papel insubstituível de cada ser humano, e é completamente dispensável que isso seja feito sob o ponto de vista da luta de classes.

terça-feira, setembro 07, 2004

A Sinceridade, a Verdade e o Cristianismo

Racionalizar erros e defeitos é intrínseco ao ser humano. Não há quem não arranje desculpas para as suas faltas, explicando para si mesmo a razão de tais e tais atos, e muitas vezes camuflando-os com uma aura de bondade; mas, lá no íntimo, ele bem sabe que está apenas mascarando as verdadeiras intenções. Só ele tem todos os dados à disposição, pois esteve sempre lá presente, e ninguém mais pode conhecer tanto as suas falhas quanto ele próprio. Essa é apenas uma forma de amenizar o peso da existência, evitando carregar quilos de culpa sobre os ombros. Não são raras as oportunidades em que essa racionalização é exteriorizada em conversa com amigos, que, não conhecendo todos os aspectos da situação dada - por não saberem o que se passa dentro do outro ? acabam concordando e reforçado o processo utilizado. Tudo isso é, então, empurrado para o inconsciente e deixado lá, pois, se trazido à superfície, poderia nos afogar de aflição. No entanto, o consciente tem a noção exata de todas essas artimanhas, apenas faz questão de esquecê-las. A neurose começa justamente quando o processo de racionalização é esquecido, fazendo a pessoa tomar por realidade o que foi criado artificialmente para se livrar do peso de suas culpas. É a partir de então que o indivíduo torna-se incapaz de ajudar a si próprio, necessitando de uma terapia ou de um amigo que desenterre tudo que ele sepultou no inconsciente, na tentativa de viver mais suavemente.

Só vive a integridade do real quem é capaz de ser sincero consigo mesmo o tempo todo, ou seja, aquele que é capaz de captar a verdade do mundo, que sempre começa dentro dele mesmo. Sem a verdade dentro de si é impossível captar a verdade do que está lá fora. Passa-se a viver, então, num mundo de fantasias. O curioso é que essas fantasias são sempre ajustadas para beneficiar o fantasista. A racionalização é aprimorada e acelerada, e as culpas que já não cabem no inconsciente são transferidas para outras pessoas, que as carregam por nós, em nome de nosso inconsciente já saturado. Revisando : esse é um processo normal, mas que pode ser trazer consequências graves, principalmente quando a verdade empurrada parra o inconsciente é lá esquecida e passa-se a viver da mentira criada sem se ter a possibilidade de revisitar a verdade. Num estágio mais avançado, até mesmo a idéia de culpa é eliminada, não sendo mais necessário racionalizá-la, pois não nos causa mais remorso. Aqui definimos os psicopatas.

O ritual da confissão, na religião cristã, não tem outro objetivo que o de evitar que todo esse processo ocorra, ou que, pelo menos, não se agrave. Através dela, o sujeito é obrigado a trazer à consciência todos os seus erros e culpas, impedindo que a racionalização os sepulte para sempre. Assim sendo, cada um carrega o peso da sua cruz, sem tentar camuflá-la de rosas, para torná-la mais leve, nem transferi-la para os ombros dos outros. A confissão dá ao cristão a chance de ser sempre sincero consigo mesmo, facilitando a captação da verdade. E foi por viver sempre dentro da realidade, entendida em seu contexto mais amplo e eterno, que Jesus disse : "Eu sou a Verdade".

***

Não deixem de ler isto aqui.

segunda-feira, setembro 06, 2004

Da série Diálogos

- Você sabe o que é intuição?
- Minha intuição me diz que sim, mas não sei explicar.
- Então deve saber.

Liberdade e conhecimento

Quanto maior a liberdade, maior a possibilidade de conhecer, e quanto maior o conhecimento, maior a vontade de ser livre.

sábado, setembro 04, 2004

Na volta, serenidade e melancolia

Este blog está no ar há um ano e meio. Antes de criá-lo, escrevia n'A Barbárie dos Tempos Modernos - cujo título, infelizmente, parece-me cada vez mais atual -, que durou uns seis meses. Durante todo esse tempo, fiz bons amigos, alguns dos quais tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, o que me trouxe muita alegria. Mas é muito difícil manter um blog constantemente atualizado, principalmente quando o autor carece de talento literário e criatividade. Na tentativa de remediar o problema, criei o Oito Colunas, contando com a colaboração de inestimáveis amigos.

Precisava parar um pouco, porque percebi que "postar" estava se tornando algo mecânico. Resolvi me dedicar um pouco mais aos estudos. Pela primeira vez, tentei ordená-los. Sempre li muito aleatoriamente: filosofia num dia, história no outro, religião aqui, física acolá. Decidi me concentrar por um tempo na filosofia. Juntei os livros e organizei-os de acordo com minhas pretensões. Comecei por Mário Ferreira dos Santos. Voltei ao básico: introdução à filosofia.

Também passei a me dedicar mais à observância da vida cristã. Não apenas através dos estudos, mas também da prática diária. As críticas que sempre fiz à Igreja começaram a me incomodar, porque me parecia algo muito fácil de fazer. Difícil é dar alguma contribuição verdadeiramente positiva. Foi quando comecei a procurar por padres que tivessem uma boa noção da Tradição Católica. Com alguma dificuldade, acabei encontrando. Agora, minha intenção é participar do Movimento Sacerdotal Mariano, do qual participam alguns dos sacerdotes que conheci.

O que mais me entristeceu foi a reação de alguns amigos. Não tanto os meus, porque tenho muito poucos, mas os da minha esposa. Algumas pessoas chegaram a desconsiderar completamente qualquer argumento que ela apresentasse simplesmente porque se baseiam na doutrina católica. A maioria de suas amigas é espírita - esta coisa sublime, quase científica em sua formulação - e não aceita posicionamentos "irracionais", baseados "unicamente" na fé.

O maior desafio de um cristão hoje é descobrir um meio de falar aos outros o que pensa - contribuindo para a edificação alheia - sem ser considerado louco, alucinado e imediatamente internado com direito a camisa-de-força.

Estudando, descobri algo que não me parecia tão óbvio assim: não foi apenas Mário Ferreira dos Santos que defendeu com unhas e dentes o argumento ontológico de Santo Anselmo. Um outro filósofo brasileiro também o fez: chama-se Olavo de Carvalho. Segundo ele, aquilo que é auto-evidente só pode ter uma contraditória equívoca, nunca unívoca, o que se aplica perfeitamente ao argumento de Santo Anselmo.

***

Depois dos últimos acontecimentos políticos, alguns dos meus amigos passaram a levar um pouco mais a sério aquilo que vinha lhes dizendo há mais de 4 anos. Um deles até considerou a possibilidade de que eu estivesse certo, ao que agradeci prontamente, tal como um cachorrinho que acaba de ser premiado pelo seu dono com um delicioso biscoito. No dia seguinte, numa festa, ouvi uma professora respondendo a um rapaz que lhe perguntou em quem votaria para prefeito: "no PT, quero mudança". Não sei de qual dos dois fiquei com mais pena, se do meu amigo ou da professora.