A Barbárie dos Tempos Modernos

sábado, setembro 18, 2004

Apologia da juventude

Há um ano construíram uma escola quase ao lado do prédio onde moro. Tenho alguma dificuldade em encontrar as palavras certas para expressar o quanto este fato me agradou. Jovens são mesmo coisinhas fofas. Neste momento, por exemplo, estão reunidos no pátio do colégio grunhindo algo que às vezes se assemelha bastante a uma canção. Em virtude da imensa generosidade que lhes preenche o ser, fazem questão de compartilhar essas experiências viscerais com todos ao redor, produzindo alguns efeitos interessantes. A alvenaria do prédio, por exemplo, reagiu poeticamente, delineando figuras bastante curiosas na sua superfície. Num momento de maior empolgação, em que o sujeito responsável pelos berros da banda exagerou na sua performance, tive a nítida sensação de ter visto se formar na parede do meu quarto a imagem de Bach vomitando. Mas foi só uma impressão passageira. Olhando mais de perto vi que, na verdade, era Mozart tendo uma convulsão.

Num dos pequenos intervalos entre as músicas, uma gota que despencou do teto deu-me a sensação de suor frio. E a fresta de onde caiu esboçava um sorriso amarelo. Não acredito na religiosidade dos seres inorgânicos, mas juro que a posição das almofadas, juntamente com o contorno do sofá, formou uma imagem de súplica aos céus. E a fusão dos sons emitidos pela geladeira, pelo fogão e pelo liquidificador, que nunca me chamaram a atenção, compunham uma ladainha.

Pensei em acenar para eles, agradecendo a iniciativa, mas receei que pudessem ficar assustados ao me verem com a cabeça enfaixada com metros de gaze e chumaços de algodão.

Mas o que mais admiro num jovem é a expressão facial. Como são lindos aqueles traços inocentes, sem as manchas e distorções típicas de quem leu Machado de Assis ou Dostoiévski. Ou ainda aquelas expressões fortes, que denotam a coragem de quem morreria por Che Guevara ou para salvar os excluídos. Nada se compara, entretanto, à beleza da união entre eles. A total ausência de egoísmo e o senso de democracia, por exemplo, não lhes permitem defender uma única idéia sem que pelo menos o resto da turma também concorde. Quanta coragem!

Esperem, estou ouvindo os últimos brados: ?...o futuro da nação?. Sim, o futuro da nação...