A Barbárie dos Tempos Modernos

sexta-feira, setembro 10, 2004

Dogville e o Bode Expiatório

Nada sei sobre o que inspirou o diretor de Dogville a montar o filme. Analiso-o aqui sob a ótica do Bode Expiatório, de René Girard. Segundo ele, o mito da vítima perseguida, morta e posteriormente sacralizada foi sendo cada vez mais camuflado, principalmente na tentativa de esconder a inocência da vítima e de não revelar a atitude gratuita dos perseguidores, que buscavam descarregar sobre ela a violência social - proveniente da violência interior de cada membro -, quando esta já ameaçava destruir a própria sociedade.

No filme, uma linda mulher (de acordo com Girard, a beleza excessiva é um caráter da vítima preferencial) chega a uma pacata cidade, onde a vida corre tranqüilamente, aparentemente perseguida pela polícia. Os moradores, após uma reunião, decidem acolhê-la e protegê-la. Mas estabelecem a condição de que ela terá que dar alguma contribuição, apesar de reconhecerem que todas as tarefas que ela executará são desnecessárias. Antes da sua chegada, aparentemente ninguém era mau. Agora, todos os habitantes começam a demonstrar a maldade existente dentro deles e a agirem com crueldade com ela.

O interessante é que nada acontecia naquele lugar antes do seu aparecimento É como se a vida não fizesse o menor sentido. O que o filme parece demonstrar é que a vítima consegue fazer as pessoas perceberem que a vida não é apenas aquilo, que ela pode ter sentido. Mas o que parece é que, depois de tanto tempo de estagnação, não há nada que eles possam expressar além da imensa carga de tédio que se encontrava reprimida. E o fazem através da violência contra a sua vítima, que, até boa parte do drama, concorda docilmente em ser violentada, inclusive sexualmente.

Depois se descobre que a vítima, na verdade, fugia de seu próprio pai, por não concordar com as atrocidades que ele vinha cometendo em outro lugar. Sendo um homem poderoso, dá-lhe a opção de destruir o local, ao que ela se recusa inicialmente, mas depois acaba aceitando.

Como se pode ver, há gritantes diferenças entre a teoria do Bode Expiatório e o filme. Escrevi esse texto apenas para que, caso alguém se interesse, avalie se estou certo em afirmar que o filme inverte a concepção de Girard mas sem fugir dela em seu aspecto mais amplo. A vítima, por exemplo, não chega a ser sacrificada, mas ao contrário, mata os perseguidores. A violência não se inicia antes da vítima ser escolhida, mas depois. É como se o autor não mais quisesse apenas camuflar a violência gratuita dos perseguidores - como o fazem os mitos -, mas realmente justificá-la, tanto a priori, no caso da incitação da violência pela vítima, quanto a posteriori, quando ela demonstra que nunca os perdoaria.

Essa justificativa a posteriori chega a ser algo diabólico se pensarmos no que podem comentar os espectadores após a cena final:

- Isso! Era isso mesmo que ela tinha que fazer!
- Que maldade sua. Todo mundo merece uma segunda chance.

Não sei se me entenderam.

A solução cristã para a camuflação da violência nos mitos é a revelação dessa violência e a demonstração cabal da inocência da vítima, que é verdadeiramente sagrada porque veio para redimir os homens e salvá-los. A solução do filme é a justificação dessa violência, porque a vítima é má e o resultado final é a morte. Se é para morrer no fim, é melhor liberar seus instintos malévolos. O cristianismo prega a salvação e a busca da eternidade, o filme prega a danação e a morte.

Às vezes as diferenças entre concepções cristãs e diabólicas são sutis e muitos acabam percebendo metafísica cristã onde só há loucura satânica. Acho que foi o que ocorreu com Matrix.