A Barbárie dos Tempos Modernos

quarta-feira, setembro 08, 2004

A Felicidade Não se Compra quando o dinheiro cai do céu

Em seu último post, Ruy Maia comentou o filme A felicidade não se compra, de Frank Capra. Segundo ele, a obra "traz em seu núcleo uma fundamental mensagem, que é o papel insubstituível de qualquer pessoa , por mais insignificante que ela nos pareça."

De certa forma, não deixa de ser verdade. Ao personagem principal, cujas atitudes são insubstituíveis, é dada a oportunidade de viver num mundo em que ele nunca existiu. E é aqui que a tal mensagem aparece. Ele percebe o quão caótica e decadente ficaria a sua cidade sem a sua presença, sem a sua bondade.

Mas analisemos em que consiste a insubstituível bondade do personagem. Ele é um empresário que nunca teve dom para os negócios, mas que, de repente, tem quase a obrigação de conduzir a empresa do seu recém-falecido pai. Seu sonho era outro, mas tem que abdicar dele para se empenhar nessa tarefa.

Apesar de ser um péssimo empresário, é um sujeito muito bonzinho e dedica toda a sua atenção aos funcionários. A firma vive devendo, nunca dá lucro e, ainda assim, ele consegue ajudar a todos os que trabalham para ele e alguns outros mais. Trata-se de um caso raro de "dinheiro que brota do céu". Tem um inimigo, também empresário, concorrente indireto, que só pensa no lucro e trata muito mal não apenas a seus empregados, mas qualquer ser humano. Suas empresas estão sempre dando lucro, mas, apesar disso, seus empregados vivem na miséria. Se Marx vivesse nesse filme, não precisaria falsificar os dados oficiais para que confirmassem a sua tese de que a industrialização piorou a vida dos trabalhadores.

Um anjo desce do céu e faz ele ver como ficaria a cidade sem ele: miséria total. Ou seja, sua inabilidade com os negócios não apenas faria falta como levaria a cidade à ruína, e tudo porque ele era bonzinho e nunca pensava em dinheiro mas apenas em ajudar os outros. Mas quem precisa pensar em dinheiro quando ele cai do céu?

O Ruy Maia se queixa daqueles que acham o filme ingênuo, mas é o mínimo que se pode dizer dele. Há muitas outras formas inteligentes de se enaltecer o papel insubstituível de cada ser humano, e é completamente dispensável que isso seja feito sob o ponto de vista da luta de classes.