A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, setembro 07, 2004

A Sinceridade, a Verdade e o Cristianismo

Racionalizar erros e defeitos é intrínseco ao ser humano. Não há quem não arranje desculpas para as suas faltas, explicando para si mesmo a razão de tais e tais atos, e muitas vezes camuflando-os com uma aura de bondade; mas, lá no íntimo, ele bem sabe que está apenas mascarando as verdadeiras intenções. Só ele tem todos os dados à disposição, pois esteve sempre lá presente, e ninguém mais pode conhecer tanto as suas falhas quanto ele próprio. Essa é apenas uma forma de amenizar o peso da existência, evitando carregar quilos de culpa sobre os ombros. Não são raras as oportunidades em que essa racionalização é exteriorizada em conversa com amigos, que, não conhecendo todos os aspectos da situação dada - por não saberem o que se passa dentro do outro ? acabam concordando e reforçado o processo utilizado. Tudo isso é, então, empurrado para o inconsciente e deixado lá, pois, se trazido à superfície, poderia nos afogar de aflição. No entanto, o consciente tem a noção exata de todas essas artimanhas, apenas faz questão de esquecê-las. A neurose começa justamente quando o processo de racionalização é esquecido, fazendo a pessoa tomar por realidade o que foi criado artificialmente para se livrar do peso de suas culpas. É a partir de então que o indivíduo torna-se incapaz de ajudar a si próprio, necessitando de uma terapia ou de um amigo que desenterre tudo que ele sepultou no inconsciente, na tentativa de viver mais suavemente.

Só vive a integridade do real quem é capaz de ser sincero consigo mesmo o tempo todo, ou seja, aquele que é capaz de captar a verdade do mundo, que sempre começa dentro dele mesmo. Sem a verdade dentro de si é impossível captar a verdade do que está lá fora. Passa-se a viver, então, num mundo de fantasias. O curioso é que essas fantasias são sempre ajustadas para beneficiar o fantasista. A racionalização é aprimorada e acelerada, e as culpas que já não cabem no inconsciente são transferidas para outras pessoas, que as carregam por nós, em nome de nosso inconsciente já saturado. Revisando : esse é um processo normal, mas que pode ser trazer consequências graves, principalmente quando a verdade empurrada parra o inconsciente é lá esquecida e passa-se a viver da mentira criada sem se ter a possibilidade de revisitar a verdade. Num estágio mais avançado, até mesmo a idéia de culpa é eliminada, não sendo mais necessário racionalizá-la, pois não nos causa mais remorso. Aqui definimos os psicopatas.

O ritual da confissão, na religião cristã, não tem outro objetivo que o de evitar que todo esse processo ocorra, ou que, pelo menos, não se agrave. Através dela, o sujeito é obrigado a trazer à consciência todos os seus erros e culpas, impedindo que a racionalização os sepulte para sempre. Assim sendo, cada um carrega o peso da sua cruz, sem tentar camuflá-la de rosas, para torná-la mais leve, nem transferi-la para os ombros dos outros. A confissão dá ao cristão a chance de ser sempre sincero consigo mesmo, facilitando a captação da verdade. E foi por viver sempre dentro da realidade, entendida em seu contexto mais amplo e eterno, que Jesus disse : "Eu sou a Verdade".

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