A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, setembro 14, 2004

A vida segundo Mário Ferreira dos Santos

"A origem da minha vida, com este corpo, posso localizá-la historicamente em seu gestar, mas a minha vida, enquanto vida, não começou aí. Ela vem desse eterno continuum, que é a vida, que não surge por geração espontânea, pois viria do nada. Portanto, o corpo é apenas um recebedor da vida, pois o que compõe este corpo é o que vem deste mundo, e ele é histórico. O que o compõe, eu o assimilei do mundo exterior, ao fazê-lo tomou a forma deste corpo, mas o que assimilei não era minha vida, mas tornou-se para mim, tornou-se minha. Meu corpo começa e acaba, mas a vida que existe em mim não começa em mim, ela continua em mim.

A vida é vida, pois se fosse um ser em outro, um não existente de per si, ela não se transmitiria sem deixar de ser ela.

O corpo vivo não é vida mas vivo. Ele tem vida mas não é ela. Perdendo-a, entra em decomposição. A morte não é a excludência, a negação da vida, mas sim do ser vivo. Quem morre não é a vida, é o ser que tinha vida e deixou de tê-la."

A liberdade e a necessidade segundo Mário Ferreira dos Santos

"Quando o homem conheceu a necessidade, conheceu contemporaneamente a liberdade. Quando sentiu a necessidade, captou a liberdade como possibilidade; pois ao ter consciência de sua necessidade, quis libertar-se de suas condições. Sem necessidade, não conheceria a liberdade, eis o aspecto dialético. O fator econômico, como necessidade, unilateral e formalmente considerado, seria mera abstração, porque não levaria à ação progressiva se não conhecesse o homem a possibilidade de superar-se, de libertar-se desta ou daquela necessidade que ele objetiva, ou de poder reduzir a sua ditadura.

A personalidade afirma-se na singularidade, e nesta a necessidade de liberdade. Só podem desabrochar, crescer personalidades, e portanto singularidades, onde houver liberdade. Disso sabem todos os opressores.

E poderíamos até afirmar que liberdade é poder opor à necessidade outra necessidade."