A Barbárie dos Tempos Modernos

quarta-feira, outubro 13, 2004

A crise segundo Mário Ferreira dos Santos

"Estamos, afirmam, na época de maior descrença, mas numa época fanática e também irônica. Ou há loucos obstinados ou irônicos que de tudo sorriem.

E essa desesperança trouxe a inversão dos valores mais altos, a inversão nas hierarquias. E desde aí começou a ascensão dos tipos mais baixos, para o que colaborou o capitalismo, e daí, como decorrência, surgirem o primarismo, a improvisação, a auto-suficiência dos medíocres.

Mas decepções esperavam o homem, como ainda o esperam e o esperarão em todas as esquinas da história, e elas, afinal, aprofundaram o abismo, e criaram a esperança de que a crítica fosse capaz de dar os conhecimentos salvadores que as velhas sínteses assim julgavam, não haviam confirmado.

Estamos vivendo a crise analítica, do especialista. Nunca sentimos tanto como hoje a necessidade de concreção.

Mas é preciso ter cuidado para que não nos ofereçam, com rótulo de concreção, velhas visões unilaterais sectárias, geradoras de outras novas modalidades, que apenas vão repetir a velha monodia da brutalidade humana. Cuidado com as pseudo-sínteses, com os inócuos substitutos de Deus, como nos propõem os nossos "religiosos" da matéria e os religiosos da existência, ou outros que julgam que ao substituir os símbolos, substituem os velhos simbolizados.

E o homem, essa grande decepcionado de suas crenças e de suas utopias,sempre malogradas, aceitam as propostas daqueles que se decepcionaram antes dele. Pactua com o imediato, porque o mediato não surgiu; por isso vive os meios que lhe estão próximos, e não mais os fins.

E a crise se torna consciência no homem, quando ele transforma os meios em fins. E por que essa reviravolta? Porque descrê dos fins. E descrê deles porque eram piedosas mentiras que ele colocou onde elas não poderiam estar.

Quereis uma terapêutica para a crise? Deixai surgir os humanos possíveis; mais que possíveis, prováveis; mais que prováveis, atualmente potenciais. Acreditai neles e não temei a crise. Unireis os cumes das montanhas, sem deixar de compreender os vales, que precisam dos cumes para serem compreendidos.

Os homúnculos dos vales ameaçam a perduração dos abismos. E eles se convenceram que a crise se dá porque o homem é heterogêneo, e resolvem: é preciso impedir que se pense.

E como vencereis a crise se, como maus atores, como dizia Epicteto, apenas quereis ter um papel no coro?"