A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, novembro 30, 2004

Um raciocínio tipicamente "filosófico"

Conversando com um ex-seminarista que está concluindo o curso de filosofia, dizia-lhe que não tenho nenhum interesse em estudar a grande maioria dos filósofos modernos. Apelermado com a minha colocação, quis saber qual o motivo de minha decisão. Pacientemente, expus de forma resumida a teoria que me autorizava a não lhes dar crédito: toda filosofia tem um princípio (ou pelo menos deveria ter) no qual o filósofo se baseia para aprofundar a sua investigação. Se este princípio, ao ser aplicado à filosofia do autor ou à parte da sua vida que se refere diretamente à sua filosofia, implicar uma contradição, ela não deve ser levada a sério. Dei o exemplo de Marx, que era burguês e proclamava que só o proletariado (seguindo a sua teoria) poderia salvar o mundo. E também o de Hume, que chegou ao cúmulo de, através de raciocínios de causa e efeito, nos explicar que não existem causas e efeitos. Intrigado, disse-me que esta teoria não poderia estar certa porque, se estivesse, nenhum filósofo moderno poderia ser levado a sério.

Vocês entenderam bem? O sujeito me disse que a teoria que lhe apresentei na tentativa de mostrar por que não devemos estudar os filósofos modernos está errada porque, se aplicada aos filósofos modernos, provaria que não deveríamos estudar os filósofos modernos. Vocês pensam que ele aprendeu a raciocinar assim aonde? No curso de filosofia, é claro. É exatamente assim que raciocina dona Marilena Chauí, Leandro Konder, Frei Boff e Leonardo Betto (ou a fusão dos dois) e etc.

Alguém acha que ele pensou em aplicá-la a Platão, Aristóteles, Santo Tomás, Duns Scott? Claro que não. Alguém acha que tentou encontrar algum erro de coerência na teoria? Claro que não. É de dar pena.