A Barbárie dos Tempos Modernos

domingo, janeiro 09, 2005

Continuando uma certa discussão

O que tentarei explicar aqui é algo muito complicado. Refere-se à discussão iniciada no Orkut e continuada, em parte, nos comentários do blog da Miss Veen.

Não coloquei esse comentário no Orkut porque, pelo que parece, os cristãos ortodoxos não estão mais participando, e foi pensando no ponto de vista deles que resolvi escrever esse post.

O Alexander e o Caio discordaram num ponto que considero fundamental. É o seguinte: o primeiro acha que só é possível avaliar as outras religiões do ponto de vista da sua, enquanto o segundo pensa que é possível fazê-lo desde "fora". Concordo inteiramente com o Alexander, pois a posição do Caio justifica a afirmação dos cristãos ortodoxos, no caso representados pelo Felipe, de que o perenialismo pretende ser uma nova religião que englobaria todas as outras, o que na verdade invalidaria todas elas.

O Marcelo, na caixa de comentários da Miss Veen, diz que "Ou as afirmações de escrituras sagradas de diferentes religiões pretendem ser absolutas e universais, e portanto serão contraditórias entre si, ou então nega-se a elas esse direito e aceita-se a validade de todas, desde que circunscritas a determinado povo, país, cultura ou seja lá o que for."

Antes de comentar essa colocação, chamo atenção para a consideração de Santo Tomás de Aquino de que, com indivíduos de outras religiões, não podemos discutir baseando-nos na Bíblia como fonte de verdade universal, mas tão somente utilizando a filosofia. Pelo que foi dito, poderia parecer que o Aquinate concordaria com o Caio. Mas não é bem assim, pois o assunto em questão é o próprio significado das religiões, e ele jamais abdicaria do Cristianismo, o que me leva a propor que ele concordaria plenamente com e Alexander se se dispusesse a considerar o problema. E aqui está o ponto fundamental. Não sei se ele se disporia a considerar o problema sabendo a que ponto chegou o conhecimento a respeito dele.

O que eu sei é que o Marcelo e o Felipe, por exemplo, não admitem pensar sobre ele, ficando claro, por dedução das suas crenças, que eles acham que a única religião válida é o Cristianismo. Mas se é assim, não há sobre o que discutir.

O problema de quem admite avaliar a questão é tentar conciliar estes dois pontos de vista, que, ao contrário do que afirmou o Marcelo, consistem no seguinte: as afirmações das sagradas escrituras das diferentes religiões são absolutas e universais e, ao mesmo tempo, não são contraditórias entre si. É óbvio que quem se propõe este problema não vai tentar resolvê-lo, como bem colocou o Olavo, numa pequena participação, do ponto de vista dogmático.

E é bom que fique claro que o dogma não é a sagrada escritura, mas algo que surgiu muito depois. Um dos fortes argumentos dos perenialistas em favor de suas tentativas de conciliar as diversas Tradições é de que há passagens do Novo Testamento, por exemplo, que são contraditórias entre si e que não foram resolvidas dentro da própria dogmática cristã, ou, como queiram, foi feita uma conciliação considerando a contradição como apenas aparente, exatamente como fazem os perenialistas com relação às diversas religiões. Um exemplo é quando Cristo pergunta por que o chamam bom, já que bom é só o Pai que está no Céu. Ora, há uma evidente contradição aqui: se Jesus Cristo também é Deus por que não pode ser chamado bom?

O que posso dizer é que, para mim, considerar as ponderações dos perenialistas a respeito desse problema não diminui minha fé em Jesus Cristo, ao contrário, sinto-a reforçada. Porque faço sempre como sugeriu o Alexander, ou seja, vejo a conciliação sempre do ponto de vista da minha religião, o cristianismo. Parece-me que o beijo dado pelo Papa no Alcorão foi um gesto simbólico que resume a posição que defendi aqui.