A Barbárie dos Tempos Modernos

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Avisos

1) O Gustavo Nogy, aquele do Céu dos Violentos, voltou em alto estilo;

2) Este blog ficará sem atualizações por um mês até o autor decidir se o fecha definitivamente ou se o mantém no ar. A resposta será dada no final de março.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Da série Diálogos

- Doutor, vim aqui para matar meu filho.
- Está com quantas semanas de gestação?
- Oito.
- Ora, não chega a ser um homem. É menos inteligente que um quiabo. Envergonho-me de já ter sido assim. Um ser desse não merece mesmo viver. Nem consegue pensar. A decisão da senhora está corretíssima.
- Sabe, doutor, acho que ele não seria feliz. Não tenho como criá-lo.
- É melhor que ele não viva do que correr o risco de ser infeliz. Nada é pior que a infelicidade. Ainda bem que as leis do nosso país permitem que assassinemos nossas crianças com segurança. Fique tranqüila. Nós vamos matá-lo sem a senhora correr nenhum risco, muito diferente do que ocorreria se tentasse fazê-lo por conta própria.
- Não sei, às vezes me dá um certo remorso. Ele já é tão indefeso e eu nem tenho coragem de matá-lo sozinha. Sinto-me como quem tivesse convocado um exército para combater uma criança que roubou meu pirulito. O pior é que ele nem me fez nada.
- Bobagem, bobagem. A senhora sabia que os bárbaros primitivos sacrificavam os filhos em louvor a Deus? Que absurdo! Nós o fazemos por questões de ordem prática. Não se sinta mal por isso. Siga o progresso. Falando nisso, sabia que está para ser aprovada uma lei que acabará com as mortes causadas por tentativa de furto?
- Não.
- Como a senhora deve ter conhecimento, a lei que permite o aborto foi criada porque muitas mães, por excesso de amor a seus filhos, na tentativa de salvá-los da infelicidade futura, morriam por não terem a possibilidade de matá-los com a ajuda de um médico. Verificou-se que o mesmo ocorre com os assaltos. O número de mortes tanto de bandidos quanto de assaltados se tornou alarmante. Demonstrou-se que, se o roubo for legalizado, esse número se reduzirá a zero, tal qual ocorreu com o número de mortes de mães durante abortos provocados. Não é uma maravilha?
- Acho que sim.

sábado, fevereiro 19, 2005

Religião e fé

Uma das minhas maiores curiosidades é saber o que aprende um padre hoje no seminário. Gostaria de poder distinguir se aquilo que dizem na missa é coisa da cabeça deles ou é ensinado pelos superiores.

Há uns seis meses, por exemplo, um sacerdote dizia, em seu pregação, que a Ressurreição de Cristo não foi vista por ninguém e que, portanto, é objeto de fé e não um fato histórico. Fez questão de repetir três vezes: não é um fato histórico. Bem, é verdade que ninguém estava presente no momento da Ressurreição, mas o Evangelho nos conta que muitos viram Jesus Cristo ressuscitado. Será que é difícil deduzir que, se alguém foi visto ressuscitado, é porque um dia ressuscitou, ou seja, o momento da Ressurreição é um fato histórico obrigatoriamente associado ao visão de alguém ressuscitado? Se vejo alguém morto num caixão, negarei que sua morte é um fato histórico consumado porque não estava presente no devido instante em que aconteceu? Das duas uma: ou aquele padre não acredita no Evangelho, que é explícito em afirmar que Jesus foi visto ressuscitado por diversas pessoas e em diversos mmentos ou ele tem um parafuso a menos. Prefiro crer que a segunda hipótese é a verdadeira.

Pode parecer que detalhes como esses não têm importância, mas suas implicações são gravíssimas. Reduzir a religião à fé é a forma mais eficaz de a destruir. Foi o que fez Kant. E do que menos precisamos hoje é de padres kantianos.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Política e moral

Estive conversando com meu primo e alguns amigos dele em sua casa de praia. Distraí-me um pouco e quando percebi estavam falando de concorrência, especificamente na área da telefonia móvel. Diziam que era uma maravilha, que as vantagens eram enormes e que nada de parecido ocorria em áreas onde a concorrência não existia. Ingênuo como sou, e empolgado com aquela prosa, esqueci que meu primo é petista doente e aceitei a provocação de um de seus amigos para iniciar um debate político. Não deu outra: disseram que o Brasil deveria deixar de pagar a dívida externa, posicionaram-se a favor do controle do judiciário, enfim, uma besteira atrás da outra.

Meu primo conseguiu recentemente um cargo público numa pequena cidade depois de "trabalhar" para o cabdidato do PT, que venceu a eleição. Mostrei-lhe a manchete do principal jornal da região, que dizia "Incoerência do prefeito fulano de tal - decreta estado de emergência e cria 115 novos cargos e 5 secretarias". Ele leu, pensou, pensou, depois olhou pra mim e soltou: "Não tenho nada a ver com isso, o que eu não quero é perder meu emprego". Então lembrei-me de sua face indignada, antes das eleições, criticando o candidato do outro partido por ter criado um "trem da alegria" em sua gestão. Há como afirmar que esse não é um problema, sobretudo, de ordem moral?

domingo, fevereiro 13, 2005

Mais uma

Cada instante do tempo não é um mero momento atomístico porque contém algo de eterno. E é essa eternidade que lhe permite ter relações com os outros instantes. Sim, sim, é uma prova da existência de Deus. O tempo sem eternidade é inconcebível.

***

Para quem fez comentários neste blog sobre a disputa entre perenialistas e cristãos ortodoxos, sugiro enfaticamente a leitura deste texto. É longo, mas vale a pena imprimir e ler.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Extra, extra!

Igreja Católica e Ciência juntas contra a AIDS.

Religião Civil contra a preservação da saúde.

Aqui.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Quem não tem cão, caça com gato

Para quem está sentindo falta dos comentários do Álvaro Velloso sobre a Guerra no Iraque, este blog é um razoável substituto. Ele não estaria dizendo nada muito diferente.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Piada de esquerda

Andei pensando se seria possível fazer piada de esquerda que não se constituísse em puro xingamento, que fosse algo sutil.

Concluí que, se fosse de esquerda e quisesse criticar a economia de mercado, elaboraria uma anedota desse tipo, fazendo uma imitação grotesca do César Miranda:

Seu restaurante era conhecido pela tranqüilidade. Não era muito freqüentado, mas a clientela era suficiente para que progredisse no negócio. A fama de paz do ambiente cresceu tanto que começou a encher. Em pouco tempo, passou a também ser freqüentado pelos que gostam de agitação. Elogiavam o local por estar sempre cheio. Depois de alguns meses, os que gostavam da tranqüilidade deixaram de ir porque estava sempre lotado. Com isso, a paz voltou a tomar conta do local, o que desagradou a galera do agito, que também parou de freqüentá-lo devido à monotonia, forçando o dono a fechar as portas.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Um fato que vale por mil teorias

Que outro acontecimento poderia demonstrar mais enfaticamente quão desorientado está o mundo atual?

Motivos do progresso

Perguntam-me, à vezes, como os cientistas podem ter progredido tanto considerando-se que abandonaram a causa formal e a causa final, ficando apenas com a material e a eficiente. Minha resposta sempre foi longa. Encontrei uma curtinha e simples: ao se utilizarem apenas da causa eficiente e da material, os cientistas conseguiram que o mundo fosse materialmente eficiente. Ser mais lógico, simples e direto é impossível.