A Barbárie dos Tempos Modernos

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Da série Diálogos

- Doutor, vim aqui para matar meu filho.
- Está com quantas semanas de gestação?
- Oito.
- Ora, não chega a ser um homem. É menos inteligente que um quiabo. Envergonho-me de já ter sido assim. Um ser desse não merece mesmo viver. Nem consegue pensar. A decisão da senhora está corretíssima.
- Sabe, doutor, acho que ele não seria feliz. Não tenho como criá-lo.
- É melhor que ele não viva do que correr o risco de ser infeliz. Nada é pior que a infelicidade. Ainda bem que as leis do nosso país permitem que assassinemos nossas crianças com segurança. Fique tranqüila. Nós vamos matá-lo sem a senhora correr nenhum risco, muito diferente do que ocorreria se tentasse fazê-lo por conta própria.
- Não sei, às vezes me dá um certo remorso. Ele já é tão indefeso e eu nem tenho coragem de matá-lo sozinha. Sinto-me como quem tivesse convocado um exército para combater uma criança que roubou meu pirulito. O pior é que ele nem me fez nada.
- Bobagem, bobagem. A senhora sabia que os bárbaros primitivos sacrificavam os filhos em louvor a Deus? Que absurdo! Nós o fazemos por questões de ordem prática. Não se sinta mal por isso. Siga o progresso. Falando nisso, sabia que está para ser aprovada uma lei que acabará com as mortes causadas por tentativa de furto?
- Não.
- Como a senhora deve ter conhecimento, a lei que permite o aborto foi criada porque muitas mães, por excesso de amor a seus filhos, na tentativa de salvá-los da infelicidade futura, morriam por não terem a possibilidade de matá-los com a ajuda de um médico. Verificou-se que o mesmo ocorre com os assaltos. O número de mortes tanto de bandidos quanto de assaltados se tornou alarmante. Demonstrou-se que, se o roubo for legalizado, esse número se reduzirá a zero, tal qual ocorreu com o número de mortes de mães durante abortos provocados. Não é uma maravilha?
- Acho que sim.