A Barbárie dos Tempos Modernos

quinta-feira, abril 21, 2005

Noite relativamente feliz

Acabo de chegar de um barzinho, no qual comemoramos o aniversário de uma amiga de minha esposa. Os homens passaram a maior parte do tempo conversando sobre a melhor marca de cerveja, o que muito me agradou. Defendi veementemente a tese de que não é possível distinguir a qualidade da cerveja desde que esteja estupidamente gelada, como nós gostamos e como todos o manuais não recomendam que seja consumida.

Mas, como sempre, depois de alguns goles mais intensos, um advogado começou a expressar sua visão de luta de classes do sistema judiciário, afirmando que o carro de um amigo nosso, que estava para ser rebocado por estar estacionado em local proibido, não o seria por fazer parte da classe alta. Respondi que aquilo só aconteceria se ele, defensor da tese, interferisse para confirmá-la, deixando-o espantado ao dizer que, em seu lugar, não faria o mesmo, permitindo que arcasse com o prejuízo.

Sempre evitando os assuntos polêmicos, fui intimado a me manifestar a respeito da eleição do novo papa, ao que respondi indagando sobre o catolicismo dos presentes. Como ninguém era católico, fiz questão de destacar que minha resposta só interessaria a mim mesmo e que só a expressaria se fosse do desejo de todos, com a condição de que a comentassem como simples curiosos ignorantes, cujo palpite vale tanto quanto uma aposta de zerinho ou um. Concordaram. Ficaram impressionados com minha defesa do papa Bento XVI e nem arriscaram a discordar da opinião da Igreja sobre a camisinha quando me ouviram dizer, enfaticamente, que o Lancet concordava com ela em gênero, número e grau. Limitaram-se aos muxoxos ininteligíveis de sempre.

Chegando em casa, para finalizar a noite em alto estilo, tive o prazer de assistir a uma entrevista do professor Pasquali com Caetano Veloso em que ambos defendiam o português erudito e em que o último dizia não entender a tentativa de tornar a linguagem coloquial uma referência intelectual. Fui dormir em paz. Não é sempre que temos a oportunidade de ver e ouvir Caetano defender as coisas certas.