A Barbárie dos Tempos Modernos

quinta-feira, junho 16, 2005

Os pobres e os talentos

Na parábola dos talentos, Jesus nos conta que um servo recebeu cinco, o segundo dois e o terceiro um. O primeiro e o segundo foram produtivos e conseguiram duplicar a quantia que lhes foi dada, enquanto o último enterrou o dinheiro e devolveu apenas o que recebeu do senhor, sendo criticado por sua atitude.

Na parábola, Jesus também diz que melhor teria feito o senhor se, em vez de confiar o dinheiro ao terceiro servo, tivesse aplicado-o num banco, onde ganharia com os juros.

É óbvio que essa parábola pode ser interpretada de várias maneiras, mas uma delas - longe de ser a mais profunda - está em entendê-la de forma literal, ou seja, que melhor faz quem consegue tornar o dinheiro produtivo. Este ensinamento aparentemente se encontra em contradição com outros do próprio Cristo, quando Ele diz, por exemplo, para dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Observem que Jesus também não disse que melhor faria quem, em vez de produzir com o dinheiro recebido, entregasse-o aos pobres.

A contradição é apenas aparente. Todas as críticas à riqueza no Novo Testamento se devem ao fato de que o espírito é muito mais importante que a matéria. E se a riqueza é apenas material, de nada adianta. Mas também é verdade, e Jesus sabia disso, que sem a matéria o homem não sobrevive. E para tanto, é preciso produzir. Se no início bastava ao homem colher seu alimento das árvores ou pescá-lo num rio, à medida que a população foi aumentando, a necessidade de produzir bens foi se tornando cada vez maior.

Os pobres têm necessidades prementes que, se não supridas, podem levá-los à morte, por isso é necessário que os ajudemos. Mas não têm a capacidade, no mundo atual, de tornar o dinheiro produtivo, ou pelo menos não de forma que gere riqueza suficiente para que tenha significado econômico. Essa outra aparente contradição também já estava implícita nos evangelhos: os pobres precisam de ajuda, mas não podemos usar toda a riqueza para ajudá-los, porque assim não haverá poupança para investimento, e sem investimento acaba a produção, e sem produção não haverá mais quem possa ajudar os pobres.

É preciso que os ricos poupem dinheiro para investi-lo em atividades produtivas para que o número de bens aumente. Mesmo um aplicação bancária, como referida na parábola, acaba sendo produtiva, porque servirá de poupança para que alguém a utilize na produção.

É por não entender de nada disso que a Igreja, principalmente a da América Latina, defende apenas a tese de que é preciso ajudar aos pobres. Esquece inteiramente da necessidade de acúmulo de riqueza para que haja aumento da produção, tão necessária a todos, inclusive e principalmente aos pobres que ela tanto defende. Se toda a riqueza produzida fosse redistribuída, como quer a CNBB, não haveria mais como obter novas riquezas, e seria o fim. Bertrand de Jouvenel mostrou de forma clara em seu livro A Ética da Redistribuição que, mesmo que todo o dinheiro arrecadado pelo Governo fosse aplicado de forma justa, e não houvesse tanta corrupção, para que a renda fosse distribuída de forma igualitária, seria necessário que toda a população vivesse abaixo do nível da classe média baixa para que todos tivessem um padrão de vida minimamente decente. E ainda que todos aceitassem viver abaixo das condições de vida da classe média baixa, de nada adiantaria, porque logo em seguida, pela falta de poupança para investimento, a produção cairia dramaticamente e todos passariam à condição de pobres.

É óbvio que, à medida que o Governo esquece a produção, tributando-a para redistribuir renda, a pobreza aumenta ainda mais, o que faz com que ele aumente a tributação, o que aumenta ainda mais a pobreza, e assim por diante.

Conclusão: é preciso ajudar aos pobres, mas também é preciso produzir. A inteligência e o estudo, e não apenas a boa vontade, podem tornar possível a harmonização dessas duas necessidades.